Black Power, os rebeldes do futebol brasileiro

Os punhos no ar de John Carlos e Tommy Smith nas Olimpíadas de 1968 levaram o combate político para o mundo do desporto. A comunidade negra abraçou a causa do movimento de direitos civis e num Brasil a viver os primeiros anos da ditadura a cultura afro assaltou os relvados. O futebol brasileiro viveu apaixonadamente os seus anos de Black Power.

A ascensão dos Black Panthers no desporto

Não havia forma de ignorar a realidade.

Não eram necessárias tarjas ou tatuagens, nem mesmo gritos de guerra. Bastava olhar para eles. Esguios, rápidos, lentos, pesados, duros, criativos. Defesas, médios ou avançados. Mas todos com o cabelo afro, todos com esse ar desafiante de quem acredita que a mudança também passa pela tomada de posição em campo. Em 1971 o futebol brasileiro começou a despertar para a luta dos direitos civis da comunidade negra. O movimento que tinha arrancado quase duas décadas antes no sul dos Estados Unidos e que se tinha transformado numa das bandeiras dos anos sessenta, chegava agora ao Brasil e aterrava em cheio no futebol. Ao contrario do movimento congregacionista proclamado por Luther King, esta nova fase estava intimamente associada aos Black Phanters e o seu grito de guerra, o Black Power.
Tudo tinha começado em manifestações a meados dos anos sessenta. Os casacos de cabedal, os brincos, correias de ouro e tatuagens e, sobretudo, os penteados que reclamavam a origem africana da comunidade negra nos Estados Unidos estavam por todos os lados. Na música, Jimmy Hendrix gritava com a guitarra e com o cabelo por uma nova era. O desporto foi o inevitável passo seguinte. A polemica retirada das medalhas conquistadas pelos americanos Carlos e Smith, depois da sua celebração de punho fechado no ar, tão típica dos Black Phanters, serviu de rastilho para a revolta. E alertou os restantes desportistas do seu potencial social. No Brasil o Black Power entrou em força e no corpo daquele que foi, talvez, o mais brilhante interprete da sua geração.

Jairzinho, o profeta afro do Black Power

“O Furacão da Copa” tinha crescido num dos bairros de classe média do Rio de Janeiro e desde os 15 anos que era a estrela mais cintilante do Botafogo. Ganhou tudo o que havia para ganhar a nível doméstico com o clube carioca e conquistou em campo o direito de ser considerado o sucessor espiritual do mito Garrincha. Começou por jogar ao lado de mitos vivos como o “Anjo das Pernas Tortas”, Nilton Santos, Amarildo ou Didi para depois liderar a renovada geração alvinegra que incluía a Gerson, Paulo César, Afonsinho ou Roberto Miranda. Numa época em que o Santos de Pelé roubava corações na Europa, o Botafogo surgia como a alternativa mais lógica aos paulistas no Brasil. Presente no Mundial de 66, Jairzinho entrou para a história quatro anos depois ao estabelecer o incrível recorde de marcar em todos os jogos do torneio que consagrou o “escrete canarinho”. A alcunha ficava, Jairzinho continuava a voar.
Um ano depois do torneio, já com Pelé a caminho dos Estados Unidos, o jovem goleador transformou-se no principal símbolo desportivo do país. Por isso mesmo, quando surgiu pela primeira vez em campo com o seu cabelo ao estilo afro, os alicerces emocionais do país tremeram. Sem nunca proferir uma declaração claramente política – ao contrario de um dos seus sucessores espirituais, Reinaldo – dizia tudo através do seu penteado. Jairzinho tinha uma profunda consciência social. Ainda hoje trabalha semanalmente em favelas cariocas treinando equipas de jovens com o objectivo de os afastar dos gangues e da mira da policia militar. Na altura, com o país a viver em ditadura e depois da dura repressão às revoltas estudantis, qualquer opositor tinha de ser cauteloso. Jairzinho foi-o expressando-se em campo como sempre mas obrigando todos aqueles que o aplaudiam a render-se à evidencia de que o seu cabelo era uma forma – talvez a única possível – de aliar-se publicamente com o movimento Black Power.

O seu exemplo foi rapidamente seguido. Alguns fizeram-no por genuína convicção política como aconteceu com Paulo César, outro mundialista no México, Junior, Nilson Dias ou Vanderlei Luxemburgo, um branco com penteado a evocar raízes negras, ajudando a popularizar este grito de revolta nos relvados dos principais clubes cariocas. Outros seguiram-no exclusivamente por moda. O que tinha começado por ser um grito de guerra política acabou seduzido, ao largo da década de setenta, ao mundo do disco e progressivamente perdeu a sua conotação original.

A aventura do Gremio Esportivo Black Power

Paralelamente à declaração de intenções de algumas das maiores estrelas do Brasileião, em 1972 o Black Power formalizou-se na estrutura desportiva brasileira com a fundação de um clube nos subúrbios de São Paulo que decidiu recolher do movimento o seu nome oficial. O Gremio Esportivo Black Power tornou-se num dos maiores símbolos de contestação social na urbe, atraindo a jovens estudantes, militantes de esquerda, negros que participavam, muito discretamente, em vários movimentos sociais locais, mas também brancos de classe média que entendiam que a segregação racial era um grave problema num país onde os mulatos e os afro-americanos ocupam uma parte importante da história do país e da sua dinâmica demográfica.
O Gremio Black Power venceu vários torneios de futebol amador em São Paulo, transformando-se com os anos numa comunidade social da maior importância no estado paulista e, de certa forma, no clube amador mais importante do futebol brasileiro.

A tal ponto que vários clubes e jogadores de primeira linha realizaram encontros amigáveis com o emblema paulista de forma a mostrar o seu apoio à causa. O projeto teve tal repercussão que mais tarde deu origem a um torneio com o mesmo nome com o objectivo principal de integração racial da comunidade negra na estrutura desportiva brasileira. A mensagem de Jairzinho tinha chegado às bases. O jogador que deslumbrou o mundo, uma vez mais, no Mundial de 74 com o seu penteado – cujo o equivalente europeu seria o de Paul Breitner, também ele um activista social extremamente critico – passou um ano pelo futebol europeu antes de voltar em 1975 ao Brasil para defender a camisola do Cruzeiro. Encontrou um país diferente e mais consciencializado para a necessidade de mudança. O seu grito de guerra silencioso tinha dado os seus frutos. Com um simples corte de cabelo, Jairzinho passou de ser um dos mais importantes futebolistas da história a tomar posse de um estatuto muito mais importante, o de impulsionador social do movimento Black Power no futebol brasileiro. Um golo invisível que foi talvez o mais simbólico da sua inesquecível carreira.

2.934 / Por