Billy Gonçalves, o Babe Ruth do futebol

Nos anos 30 a grande estrela do desporto norte-americano era Babe Ruth. O grande jogador de baseball dominava a cobertura mediática e recolhia admiração um pouco por todo o mundo. No futebol, o seu equivalente, era português. Estrela do soccer na sua primeira era de ouro, Billy Gonçalves foi o primeiro futebolista de origem portuguesa com estatuto de estrela mediática.

Origens portuguesas

Se John Sousa, de quem contamos a história, foi o primeiro jogador de ascendência portuguesa a fazer parte do XI de um Mundial de Futebol, antes de Eusébio, a primeira grande estrela lusa fora das fronteiras de Portugal da história do futebol foi Billy Gonçalves. O seu talento e classe levaram a imprensa norte-americana a baptizá-lo, durante os seus dias de glória como jogador, como o Babe Ruth do futebol.

Não era uma alcunha nada fácil de suportar. O estatuto de estrela de Ruth não só era inquestionável então como dura até aos dias de hoje. Poucos jogadores de baseball podem aspirar a estar à sua altura.

No entanto, Gonçalves viveu na pele o fim da era dourada do soccer, a primeira tentativa real de implementação do futebol nos Estados Unidos. Com ele jogou também a primeira geração de portugueses e lusos-descendentes que tinham chegado ao país desde princípios do século à procura de uma vida melhor. Uma geração de futebolistas que sofreu o ostracismo a que o futebol foi votado até aos anos 70, salvo o hiato de sucesso dos anos 50, com a participação no Mundial do Brasil – onde John Sousa foi a estrela individual, ele outro filho da colónia lusa no país. Talvez por isso o seu nome, fundamental na história do futebol americano, seja ainda hoje um mistério para muitos.

O herói do soccer

Adelino William Gonçalves (nos Estados Unidos ainda é conhecido por Gonsalves), nasceu em Rhode Island, em 1908, na zona onde se instalou a maior comunidade de emigrantes portugueses, a esmagadora maioria chegados das ilhas dos Açores e Madeira. Cresceu como um atleta, dividiu o tempo entre o boxe e o baseball mas acabou por se destacar como avançado numa modesta equipa de futebol local antes de assinar pelo clube que representava a comunidade portuguesa, o Lusitania Football Club.

Aí jogou apenas um ano. O seu talento não passou desapercebido ao Boston Soccer Club, o maior clube do estado, e no ano seguinte Gonçalves despontava na liga profissional American Soccer League, a primeira tentativa de criar uma liga nacional no país, predecessora da NASL dos anos 70 e da MLS atual.

Venceu o título no primeiro ano e duas épocas depois era o jogador estrela dos recém-criados New York Yankees, a versão futebolística do celebre clube de baseball onde militava Ruth. Ao bom modelo norte-americano, os problemas financeiros do soccer, aliados à Depressão, levaram vários clubes a fundir-se e a mover de cidades, e sendo assim Gonçalves acabou por jogar em mais dois clubes nos anos seguintes apesar de, na realidade, a equipa ser a mesma. Durante esse período não só venceu um total de três títulos de campeão nacional como se tornou internacional pelos Estados Unidos, o primeiro jogador luso-descendente a lograr tal feito. Marcou presença nos Mundiais de 1930, no Uruguai, e em 1934, como uma das estrelas da equipa que disputou apenas um jogo, o primeiro, frente aos futuros campeões, a Itália de Pozzo.

Estrela do Midwest

Ao voltar do Mundial de Itália, Gonçalves encontrou o futebol americano no seu pior estado desde o início dos anos 20. A sua curta experiência em S. Louis, com o Stix Soccer, para onde se tinha movido antes do Mundial (e que tinha terminado com um título) chegou ao fim e o português mudou-se para o clube rival da cidade, o Central Breweries. Aí venceu mais um título antes de voltar a mudar de clube, por quatro vezes, nos cinco anos seguintes, vencendo títulos em todos eles e elevando o total do seu historial para oito, um recorde nacional.

Os anos seguintes confirmaram a sua faceta de goleador e gentleman. O jogo a nível nacional começava a desaparecer e o crescimento das ligas estaduais fizeram de Billy Gonçalves a grande estrela do futebol no Midwest. Ai se manteve até aos 40 anos, altura em que voltou à sua cidade natal para assinar pelo Newark FC, um clube intimamente ligado à comunidade portuguesa. Estando aí recebeu o primeiro reconhecimento nacional quando foi introduzido como um dos primeiros futebolistas a ter lugar no Hall of Fame criado pela federação nacional, imitando o exemplo de outros desportos como o basket e o baseball.

O maior jogador americano de sempre?

Gonçalves manteve-se ligado ao jogo como técnico e conselheiro nos anos seguintes mas a história acabou por relegá-lo – e à sua geração – para um segundo plano quando o plano da NASL começou por apostar em jogadores consagrados internacionalmente em detrimento de jogadores locais. As lendas vinham de fora, não eram criadas dentro do próprio soccer. Os historiadores norte-americanos do jogo no entanto têm poucas dúvidas em considerar Billy Gonçalves um dos maiores – senão talvez o maior – jogador de futebol da história dos States.

Depois do Mundial do Uruguai, onde foi uma das figuras de uma seleção que chegou às meias-finais, Gonçalves liderou uma equipa americana que plantou cara ao Brasil num amigável em São Paulo. Impressionou de tal forma que o Botafogo propôs-lhe um contracto, consciente que as suas origens portuguesas poderiam ajudar na sua integração. Gonçalves recusou amavelmente. Aos 22 anos ainda tinha muito que dar à história do futebol americano. Quatro anos depois foi a Juventus e a Lazio quem repetiram as propostas ao jogador americano, em consequência da sua exibição na derrota contra a Itália. Billy voltou a dizer que não. Nunca jogaria fora dos EUA.

Mesmo sem ter tido o reconhecimento de John Sousa e sem o papel mediático de estrelas nacionais como Tony Meola, Alexi Lalas, Tony Winalda ou Landon Donovan, olhando para a sua história é difícil não lhes dar razão.

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