Bill Shankly, You will never walk alone

Uma das frases mais célebres da história do futebol. Proferida numa truculenta entrevista dada já no final da carreira. Uma das mais brilhantes da história. “I wanted the Liverpool to be like Napoleon and conquer the bloody world!”. A vida de um génio. Bill Shankly foi, provavelmente, um dos maiores génios do beautiful game. O que não logrou em títulos conquistou em carisma. E marcou a ferro e fogo o seu nome para toda a posteridade.

Quando Bill Shankly faleceu, subitamente vitima de um ataque cardíaco, Liverpool parou. O luto invadiu a cidade muito mais do que ao saber a noticia da morte, no ano antes, de outro famoso da cidade, um tal de John Lennon. Porque os anos 60 em Merseyside resumem-se facilmente a esses dois ícones. E o Cavern Club e Anfield Road tornaram-se nos dois templos preferidos dos liverpoolianos. A equipa jogou nessa noite para as provas europeias e goleou. Tal e qual como Shankly esperaria. Dias depois, num jogo para a liga contra o Swansea de John Toshack, uma das suas apostas pessoais, o jovem técnico orientou a sua equipa com o seu velho equipamento Red. Nas bancadas havia gente que chorava. Genuinamente.

You Will Never Walk Alone

Tinham perdido o seu pai espiritual, o homem responsável porque hoje o nome Liverpool seja conhecido mundialmente. Foi ele quem inspirou uma geração de adeptos que faziam da Kop um mosaico vivo de emoções. Mandou pintar nas escadas que antecediam o túnel de entrada ao relvado “This is Anfield”. E transformou o “You´ll Never Walk Alone” no grande tema da década. Tudo isso hoje é história e tradição. Mas foi com este escocês, baixo e carrancudo, que tudo começou.

Um técnico humanista e profundamente dedicado. Capaz de dizer a um jogador que o seu joelho lesionado não lhe pertencia, pertencia ao clube. Mas também de jogar psicologicamente como ninguém. Na véspera de um jogo decisivo contra o Anderlecth o técnico entrou no balneário e apenas disse aos jogadores. “A equipa deles não vale nada, a vitória é vossa sem nenhuma dúvida. Não admito menos que 3-0”. No final, quando os jogadores voltavam triunfantes no final dos 90 minutos, Shankly bateu com o boné no chão e disse-lhes com um imenso sorriso “Acabaram de ganhar à melhor equipa da Europa”. This was Shankly.

O técnico escocês mais truculento da história faz parte de uma geração inesquecível à qual também pertencem Jock Stein e Matt Busby. Amigo pessoal de ambos, Shankly era o típico treinador com espírito de camaradagem. Do primeiro disse que era o primeiro técnico britânico a entrar para a posteridade. Do segundo, que era o melhor manager da história. E ele? Ele foi mais do que isso. Foi a essência do jogo.

Nascido em Glensbuck, uma pequena aldeia mineira no norte da Escócia, William Shankly começou a carreira como jogador para fugir ao árduo trabalho que ocupava o resto da família. Era modesto como lateral e a melhor parte da sua carreira passou-a no Preston North End onde venceu uma FA Cup. Em 1949, já depois de ter sido internacional pela Escócia, guardou as botas e junto ao seu irmão Bob – que chegou a vencer uma Taça da Escócia com o Dundee Utd – começou a preparar-se para seguir a carreira de técnico. Começou no modesto Carlisle Utd mas rapidamente saiu por desavenças com o presidente. Seguiram-se curtas etapas no Sunderland e no Grismby. O seu estilo paternalista, apesar de exigente, rapidamente o fez popular entre os jogadores. Paralelamente o técnico começou a trabalhar com os sindicatos do meio e com o Labour Party. Durante toda a sua vida foi um sindicalista empenhado e um socialista empedernido. Um homem que gostava de relembrar as suas pobres raízes e utiliza-las como motivação para os próprios jogadores. Um exemplo sucedeu quando treinou o Huddersfield e contratou um jovem escocês mineiro de 16 anos prometendo aos directores que as 45 mil libras pagas tornar-se-iam em 100 mil se o vendessem. Afinal foram 115 mil, quando o Manchester United o contratou. O jovem chamava-se Dennis Law.

This is Anfield e o Boot Room

Tinha sido contratado para ressuscitar um colosso que vivia um período negro na sua história, tendo caído para a Second Division. Rapidamente Shankly impôs o seu método e revolucionou a instituição. Juntou-se aos veteranos da casa, Paisley, Reuben e Fagan e criou o Boot Room. Uma sala onde todos tomavam chá, falavam de futebol, politica e religião.

Todas as tácticas, contratações e dispensas eram analisadas aí, por vezes em sessões que duravam até de madrugada. Shankly ficou conhecido em Anfield por ser o homem que fechava o estádio pela noite e o abria pela manhã. Foi o primeiro a implantar os treinos com peladinhas de 5 e obrigou os jogadores e tomar todas as refeições juntos.

Em poucos meses o clube tornara-se numa grande família e o decrépito Anfield começava a parecer um castelo. Aos bons jogadores que Shankly foi descobrindo nas reservas juntaram-se contratações cirúrgicas como Ian St. John, Thompson ou Yeats provaram ser fundamentais. A equipa subiu imediatamente de divisão e começou a disputar título atrás de título. Quatro anos depois de chegar a equipa voltava a saborear um titulo de campeão finalizando uma metamorfose espetacular. No ano seguinte o Liverpool venceria a FA Cup apesar de ter caído nas meias-finais da Taça dos Campeões com o Inter. Só que a final da década a maioria dos jogadores com quem tinha começado esta aventura estavam já em idade avançada e o Liverpool perdia protagonismo para o Manchester United e o Leeds United. Quando todos pensavam que Shankly estava acabado, ele voltou a operar um milagre.

As chegadas certeiras a Anfield de Keevin Keegan, Heighway, Clemence e Toshack deram o sangue novo que os Reds precisavam. Shankly reorganizou a sua equipa à volta do pequeno inglês que voltou a devolver o Liverpool ao mais alto. A equipa terminou a Taça das Cidades com Feiras como semi-finalista em 1971 mas dois anos depois venceu o troféu, o primeiro europeu do clube que mais taças conquistaria na década seguinte. Shankly passou esses anos a moldar o seu Liverpool até atingir a perfeição.

A lenda de Liverpool

A sua equipa de 1973 era uma das mais metódicas e eficazes equipas da história do futebol inglês. Foi então que, subitamente, Bill Shankly anunciou que se retirava. A direção não quis aceitar a sua resignação mas o homem que dizia sempre que em Liverpool só existiam duas equipas “o Liverpool e as reservas do Liverpool”, mostrou-se inflexível. Rapidamente se procurou um substituto. Rumores dizem que Shankly queria que Jack Charlton fosse o seu sucessor mas a versão oficial continua a corroborar a ideia de que foi o próprio técnico que elegeu Bob Paisley, um dos homens fulcrais do Boot Room. A equipa continuou o seu caminho mas o técnico rapidamente se arrependeu da sua decisão. Passava os dias no campo de treinos e os jogadores continuavam a trata-lo por “Mister”, enquanto que a Paisley apenas lhe chamavam “Bob”. O segundo lugar final do Liverpool levou a direção a pedir ao técnico que se afastasse de Anfield, sob a acusação que não estava a dar espaço de manobra ao seu sucessor. Tristemente, o fiel técnico acedeu. E Paisley tornou-se no mais bem sucedido treinador da história do futebol britânico.

Depois de passar os anos a observar jogadores e equipas, Shankly tornou-se na maior lenda viva da cidade. Era o ídolo dos adeptos que o paravam na rua e convidavam a tomar chá só para o ouvirem falar do jogo. Em 1981 um leve ataque cardíaco levou-o ao hospital. Os adeptos acudiram às portas do centro médico rezando e cantando o hino do Liverpool horas a fio. Primeiro anunciou-se que Shankly melhorava, mas subitamente a sua condição piorou drasticamente. O técnico acabou por falecer, aos 61 anos num 29 de Setembro. O luto invadiu o futebol britânico e o homem que uma vez disse que o beautiful game era algo mais do que a vida ou a morte subiu ao céu encarnado onde ainda hoje continua a orientar os seus rumo à vitória final.

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