Big in Japan, Wenger em Nagoya

Durante vinte anos Arsene Wenger tornou-se no “Senhor Arsenal” liderando os Gunners ao período mais prolifero da sua história. Mas antes de aterrar em Inglaterra e depois de se afirmar no futebol gaulês, Wenger passou pela emergente J-League e deixou profundamente a sua marca no futebol japonês.

Wenger, o homem que revolucionou o Japão

Com 46 anos quase recém-cumpridos, Arsene Wenger subiu com o seu fato cinzento, extremamente cuidado, e os seus óculos que eram já uma imagem de marca, ao relvado do estádio de Nagoya. Era a última vez que percorria esse largo caminho. Dirigiu-se ao centro do campo onde estava instalado um microfone propositadamente para a ocasião. Para a sua despedida. Depois de uma sonora e sentida ovação, pronunciou, num japonês quase perfeito, o seu discurso de adeus.

Como sempre, Wenger procurava adaptar-se ao meio, á situação. O Japão tinha sido uma passagem curta numa carreira dilatada, a meio caminho entre dez anos de Ligue 1 e vinte de Premier League, período onde acumulou títulos e, sobretudo, reconhecimento por um estilo de liderança e de treino. Mas apesar de curta, a sua estância em Nagoya, ajudou a cimentar a sua lenda e deu ao emergente futebol japonês um empurrão mais para a sua rápida evolução depois de décadas de esquecimento.

Dois anos depois de abandonar Nagoya, os japoneses qualificaram-se para o primeiro Mundial da sua história, com alguns dos seus antigos discípulos entre os convocados. Quatro anos mais adiante organizaram o torneio e marcaram presença nos oitavos de final, apenas para serem ofuscados pela brilhante campanha dos co-organizadores, a Coreia do Sul, uma seleção com muito mais experiência internacional acumulada. O país que se tinha apaixonado pelo futebol graças a um desenho animado cresceu com a passagem de um treinador alsaciano que também se soube reinventar a tempo de deixar a sua marca no futebol europeu a partir de 1996.

Sair da Europa para conquistar o Mundo

Wenger tinha sido despedido pelo Monaco. Depois de sete anos em que se mediu contra o Olympique Marseille de Bernard Tapie – perdendo sucessivamente, muito por culpa, como o próprio sempre acusou, das influências extra-desportivas e mais tarde confirmadas dos marselheses – e levou o clube monegasco á sua primeira final europeia, a experiência no Louis II chegou agriamente ao seu final. De repente um dos treinadores de moda do futebol gaulês estava sem emprego e sem interessados. Podia ter sido um ponto de inflexão negativo na sua carreira. Acabou por ser precisamente o contrário. Depois de viajar a um comité da FIFA, convidado a tomar parte num painel internacional que ia avaliar a evolução do futebol durante o Mundial dos Estados Unidos, Wenger deixou francamente impressionada a delegação japonesa.

Entre esses estavam representantes da JLeague, a nova e recém criada liga profissional, suportada pela federação e pelas grandes multinacionais do país que tinham aceite patrocinar, cada uma, um clube. Até 1993 o futebol nipónico vivia em pleno amadorismo e parecia triunfar mais na esfera escolar, mas a irrupção da liga profissional – que com um importante atrativo financeiro capturou rapidamente estrelas mundiais á beira da reforma, como atualmente consegue a MLS e a liga qatari – mudou o cenário. Mas se havia já jogadores de nível continuavam a faltar treinadores. Wenger foi abordado pela Toyota, patrocinadores e donos do Grampus Eight Nagoya, para assumir essa função. Durante dois meses tiveram lugar tensas negociações. O técnico não sabia do que pensar de uma experiência tão radical, tão distante. No final aceitou o desafio. Sair da Europa para ganhar perspectiva. E para recuperar prestigio.

Em Outubro de 1994 foi apresentado finalmente como técnico do clube da Toyota. Gary Liniker tinha acabado de abandonar o Grampus mas o clube contava com outra figura de nível mundial, o sérvio Dragan Stoijkovic, um dos melhores futebolistas da sua geração que tinha abandonado Marselha depois de um grave problema no joelho e do escândalo Valenciennes. Com duas incorporações conhecidas da Ligue 1, Gerard Passi e Frank Durix, e uma legião de desconhecidos jogadores locais, Wenger começou a trabalhar para levantar o clube do último lugar na classificação ao nível de potência nacional.

De último a lenda, a saga do Grampus wengeriano

Wenger chegou e não triunfou de imediato. Oito jogos, oito derrotas pareciam deixar claro que a aventura ia durar pouco. Na prática foi resultado do problema comunicacional que havia entre treinador e jogadores. A troca de traductor e o conhecimento pessoal entre staff técnico e plantel – com duas concentrações no estrangeiro pelo meio – ajudaram a cimentar o espirito de grupo e a troca de ideias e o modelo de jogo de Wenger, desconhecido até então no Japão, começou a dar resultados.

No país nipónico o técnico encontrou-se com uma realidade sui generis. Os jogadores não tomavam decisões. Seguiam á risca o que os jogadores ou veteranos indicavam e nada mais. Fazia parte da cultura de obediência hierarquica da sociedade nipónica. Wenger inverteu o esquema. Indicou a cada um dos jogadores que tinham a obrigação de serem criativos, em particular no último terço de campo. Pouco a pouco o Grampus passou a ser a equipa mais vistosa e ofensiva da liga e também a menos hermética taticamente, trepando até ao terceiro lugar da classificação no final do primeiro ano completo do alsaciano.

Na seguinte temporada, de novo com Stoijkovic a ser eleito melhor jogador do torneio, voltaram a ficar por um ponto ás portas do título, culpa de um penalty falhado no derradeiro jogo que terminou com um empate. Como desforra, o Grampus venceu a Taça do Japão na sua terceira edição e semanas depois a Supertaça. Tinham passado de ser uma equipa periférica a uma potência nacional. Ainda hoje pertencem ao selecto clube de três equipas que nunca desceram de divisão.

A mentalidade zen que levou para Londres

No Japão Wenger aplicou a sua filosofia de treino e de jogo e foi um caso de sucesso imediato o que provocou que os restantes clubes procurassem importar não só jogadores mas sobretudo técnicos estrangeiros e seria um compatriota seu, Philiphe Troussier, quem os guiou ao seu melhor resultado de sempre num Mundial até então, em 2002. No entanto o país tem exerceu uma profunda influência no técnico. O mesmo reconheceu, várias vezes, que a cultura japonesa, que para ele era totalmente desconhecida, passou a fazer parte da sua própria filosofia de vida e que importou várias ideias e ideais filosóficos para a sua gestão no Arsenal, transformando-se num manager muito mais tranquilo, relaxado e contemplativo em comparação com a sua etapa como treinador do Mónaco.

Em Outubro de 1996, depois de dois meses de negociações e quando tanto o Strasbourg como o Bayern Munchen já tinham feito igualmente abordagens, Wenger chegou a um acordo com o Arsenal que o Grampus facilitou, dando-lhe a rescisão de contrato. Seria o início de duas décadas lendárias em Londres para o clube e para o treinador. Em Nagoya – e no Oriente, em geral – a sua figura permaneceu rodeada de contornos míticos. Como qualquer grande banda de rock em tour, Wenger foi “Big in Japan” e os dois anos que passou em Nagoya transformaram-se na chave para entender o seu êxito posterior.

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