Podem imaginar um jogador ser o herói de um grande torneio internacional e no entanto ninguém no mundo ter o seu cromo? O cenário é improvável, mas não impossível. Em 1996, enquanto a Alemanha conquistava o seu terceiro Europeu em pleno estádio do Wembley, o mundo rendia-se ao apetite goleador do herói do torneio, um homem com quem ninguém contava de tal modo que nem sequer se tinham incomodado a recriar o seu cromo.

A coleção que para sempre estará incompleta

A coleção Panini do Europeu 1996 foi lançada em Maio, a poucas semanas antes do arranque do torneio. Como sempre, a empresa italiana ia monopolizar a atenção dos milhões de colecionadores ávidos de todo o mundo que procurariam, antes de terminar o torneio, completar a sua coleção. Eram 40 páginas e 354 cromos os necessários. Havia de tudo um pouco. Cromos de vencedores passados, dos estádios onde se disputava a fase final, emblemas e fotos de equipa e claro, os verdadeiros protagonistas, os futebolistas. Cada uma das 16 seleções convocava um total de 22 jogadores na sua lista oficial entregue á UEFA mas por questões de espaço a Panini decidiu que apenas 18 teriam direito a cromo. Havia quatro futebolistas por país que seriam descartados. O critério utilizado pela empresa foi, sobretudo, a probabilidade de serem parte ativa no torneio. Procuravam-se deixar de fora os terceiros guarda-redes e três jogadores de campo – um por linha – com menores probabilidades de jogar face ao seu historial de internacionalizações e as opções recentes das equipas técnicas. Não era tarefa fácil eleger os descartes mas quando o álbum e as carteirinhas foram colocadas á venda um pouco por toda a Europa, as escolhas dos cromos disponíveis pareciam ser praticamente consensuais. Poucos podiam imaginar a surpresa que reservava o torneio que estava prestes a começar.

O regresso do futebol a casa num torneio de surpresas

O Euro 96 foi um Campeonato repleto de luzes e sombras. Inaugurado com pompa e circunstância, celebrava-se o regresso a casa – “Football is Coming Home” – e a celebração de uma Inglaterra livre de hooliganismo. Os jogos disputar-se-iam em oito estádios, todos eles recentemente adaptados a uma nova realidade onde primava, sobretudo, a segurança. Viviam-se os primeiros anos da febre da Premier League, a seleção inglesa vinha de uma sequência de seis anos para esquecer – eliminados pela Dinamarca em 1992 na fase de grupos e ausentes do Mundial dos Estados Unidos – mas havia uma grande dose de confiança á volta de Terry Venables e de uma equipa que incluía o resgatado génio de Paul Gascoine e o espirito goleador de Alan Shearer. Apesar de tudo houve muitos jogos com grandes clareiras nas bancadas, pouco futebol espetáculo apesar dos grupos serem extremamente equilibrados e espaço para muitas surpresas como a precoce eliminação na fase de grupos da Itália de Arrigo Sacchi e da Dinamarca campeã europeia, superados pelas grandes sensações da competição, a República Checa, Portugal e a Turquia. Para os portugueses o torneio era especial, o primeiro numa década com a equipa das Quinas e por isso mesmo a febre da coleção de cromos, em território luso, foi maior do que nunca. Portugal acabou eliminada pela República Checa nos quartos-de-final e os jogadores centro-europeus chegaram mesmo á final onde lhes esperava o herói sem cromo próprio.

Um avançado com quem ninguém contava

Oliver Bierhoff era um nome relativamente desconhecido. Numa era sem televisão por cabo e internet não era fácil conhecer todos os avançados do futebol europeu e menos ainda se jogavam numa equipa sem grande glamour da Serie A como a Udinese. Bierhoff tinha começado a carreira em 1986 no Bayer Uerdingen mas depois de passagens para esquecer por dois históricos, o Hamburgo e o Gladbach, teve de sair do futebol alemão para encontrar-se consigo mesmo. Passou da Bundesliga para a liga suiça e de aí para as divisões inferiores do futebol italiano. Estava destinado a ser um eterno desconhecido até que em 1995 assinou pela Udinese. Ninguém na Alemanha se lembrava dele mas nesse ano o tanque alemão sagrou-se de forma inesperada melhor marcador daquela que era, então, a liga mais exigente do mundo. De desconhecido, deu o salto a internacional.

A estreia chegou, precisamente, num amigável de preparação para o Europeu de 1996 contra Portugal, a 21 de Fevereiro. Um jogo de teste sem grande história a que se seguiu um segundo amigável, em Março, contra a Dinamarca. Bertie Vogts ficou impressionado pelos dois golos apontados a Schmeichel e colocou-o numa pré-seleção para o torneio. Ainda assim parecia difícil que Bierhoff tivesse oportunidades reais de ser convocado numa seleção que contava com Jurgen Klinsmann, Fredi Bobic, Stefan Kuntz, Ulf Kirsten e Heiko Herrelich. As lesões dos dois últimos abriram-lhe as portas de par em par e contra todo o prognóstico, Bierhoff fez parte da comitiva alemã. Só dois jogadores, Marco Bode e René Schneider – mais os guarda-redes suplentes, Oliver Reck e Oliver Kahn – tinham disputado menos jogos que ele e precisamente com Reck, esses foram os quatro descartados na caderneta Panini. Ninguém parecia discutir a eleição.

O herói sem cromo

A realidade provou ser bastante diferente ao que os dirigentes da Panini imaginavam á hora de realizar os seus descartes. Vogts parecia ter uma confiança cega em Bierhoff a tal ponto que no primeiro jogo do torneio, contra a República Checa, lançou o jogador da Udinese na segunda parte para substituir Kuntz. A sua estreia num torneio oficial tinha tardado apenas 83 minutos. A partir de esse dia todos começaram a procurar o cromo que não existia. E que teria uma história mítica que contar. No seguinte encontro, frente á Rússia, Bierhoff foi titular. Não marcou, recebeu um amarelo e saiu ao minuto 85 mas estava claro que ele era o parceiro ideal para Klinsmann na cabeça do técnico ainda que contra a Itália, no jogo final e com os alemães já apurados, não tivesse disputado um só minuto. Uma série de problemas físicos afastou-o dos jogos a eliminar contra croatas e ingleses, cedendo o protagonismo a Fredi Bobic, mas a sua recuperação permitiu-o voltar ao banco de suplentes para a grande final, em Wembley, precisamente contra o primeiro rival do torneio, a República Checa. Kuntz partilhou o ataque com Klinsmann mas o golo de Patrick Berger á hora de jogo precipitou os acontecimentos. Vogts lançou Bierhoff ás feras, a última oportunidade para evitar uma segunda final perdida contra os checos – já tinha perdido como jogador a de 1976, a final do penalty de Panenka e não estava disposto a repetir a história – e o avançado respondeu. Ao minuto 73, escapou á marcação da defesa e desviou de forma certeira um cruzamento de falta de Ziege. Estava feito o empate. A final seguia para prolongamento. Podiam ser trinta minutos, podia ser um. A regra do golo de ouro introduzida esse ano ditava que o vencedor seria aquele que marcasse primeiro. E só uma equipa tinha a Bierhoff.

Não tinham passado ainda quatro minutos do reatamento e o gigante alemão, com o número 20 ás costas, ganhou uma bola pelo ar, serviu Klinsmann, recebeu o passe e de costas para a baliza aguentou a carga do defesa para armar um remate que saíu desviado na perna de um central checo para enganar a Kouba. A final chegava ao fim e ninguém no mundo tinha o cromo do herói do torneio para colar ou trocar no dia seguinte. Entre todos os 64 jogadores descartados – quatro por país – apenas um brilhou ao mais alto nível. Bierhoff teria direito a cromo nos torneios seguintes que disputou mas aquele, até hoje esse cromo está por colar numa caderneta de sonhos e heróis inesquecíveis.

2.266 / Por
  • João Brites

    Nem a Panini nem mais 3 outras editoras, que tenho conhecimento, nenhuma delas lançou cromo do Bierhoff.

    Um bocado à imagem do Salvatore Schillaci, que no Mundial de 1990 foi o melhor marcador e também não teve direito a cromo na colecção oficial da Panini.

    As escolhas da Panini caíram em R. Baggio, Vialli, Mancini e Carnevale. Circulam na net alguns cromos do “Totò” mas são falsos.

  • Victor Augusto

    Robinho, estava no álbum da Copa do Mundo de 2014 da Panini, mas nem convocado foi;