Foram só três jogos, a frivolidade de 270 minutos. Mas foram suficientes para transformar a pacata vida de um dos mais históricos e modestos clubes ingleses num corrupio mediático sem igual. Durante o Outono de 1975 o melhor jogador britânico de sempre parou em Stockport antes de arrancar a sua peregrinação americana. Foram só três jogos, mas o adeus de George Best ao futebol inglês por ali nunca será esquecido.

Stockport, uma cidade em festa

19 minutos. Não precisou de mais.
A bola escorreu pelo terreno de jogo até lhe chegar aos pés, lá bem no flanco esquerdo. Um drible e um desarme e a bola para canto. O terceiro provocado por Best. O terceiro marcado por Best. Mas desta vez a estratégia funcionou. O irlandês tinha tentado uma e outra vez colocar a bola direta na baliza. À terceira foi de vez. E o delírio tomou conta de Edgeley.
George Best chegou ao Stockport County com 29 anos. Era já seguramente o melhor jogador britânico da história. Mas também era um jogador acabado, a anos-luz dos seus dias de glória um pouco mais a norte, em Manchester. Do jovem que tinha chegado com apenas 15 anos da Irlanda depois de Bob Bishop, o olheiro de confiança de sir Matt Busby o ter acordado a meio da noite para falar-lhe de um génio, pouco sobrava.

Best jogou dez anos no Manchester United e fez parte da celebre Holy Trinity com Law e Charlton que ajudou a redefinir o clube, especialmente depois do desastre de Munique. O jovem, que tinha apenas 10 anos quando o amaldiçado avião com os Busby Babes se despenhou em Munique, tinha-se transformado numa lenda viva, no primeiro sex-symbol e icone de moda associado ao beautiful game. Best foi para o futebol o que os Beatles foram para a música. Mas tal como a banda de Lennon e companhia, os seus momentos de glória ficaram presos à década de 60. Desde a sua estreia como profissional em 1963, com 17 anos, até ao seu triste e ágrio adeus, em conflito directo com Tommy Docherty, uma década depois, Best ganhou tudo o que havia para ganhar. A final de Wembley contra o Benfica, com um golo seu a desbloquear o encontro no prolongamento, confirmou-o como o mais genial dos futebolistas europeus de então. Mas foi também o inicio do seu fim.

De regresso a casa a geração de veteranos de Busby, incluindo o próprio treinador, sentira ter cumprido uma promessa, um dever com os mortos de Munique. Best queria mais, queria continuar a vencer, establecer uma ditadura europeia como tinha visto fazer os jogadores do Real Madrid. Mas nem Charlton, nem Law, nem Stiles nem Busby tinham forças para ir mais além. Durante cinco anos o clube não voltou a vencer um único troféu e Best entregou-se à noite, às mulheres e, sobretudo, ao alcóol.

Best, um génio em decadência

Quando chegou a Stockport County ainda era um jogador na flor de idade. Mas o corpo já não o acompanhava e a mente, essa, parecia sempre estar noutro lado. Minuto 55. Um sprint louco de mais de trinta metros em que para trás vão ficando seis jogadores do Swansea e a bola novamente nas redes contrárias. “Simply the Best” podia ler-se em vários cartazes feitos à mão pelas adolescentes loucas pela estrela cadente. Cadente mas capaz de arrastar multidões. Aos habituais 2 mil espectadores semanais do clube juntaram-se 10 mil mais só para ver o irlandês. Nesses primeiros 90 minutos o festival acabou com um majestoso gesto acrobático que levou à êxtase os adeptos locais.
Esse foi o primeiro de três jogos de Best pelo clube.

Depois de dois empréstimos pelo Manchester United, com quem o irlandês tinha cortado qualquer relação, a experiência em Stockport foi um prelúdio do que viria a seguir. Sem clube o astro foi persuadido pelo técnico do conjunto local, Roy Chapman, a assinar com o Stockport um contrato de jogo a jogo, muito na moda então no futebol inglês junto dos jogadores mais veteranos. Quinze dias depois (Best só alinhava nos jogos em casa o que significava um profundo lucro para as arcas do modesto clube) o irlandês voltou a ser decisivo ao apontar, num pontapé de bicicleta, o golo do empate a 2 no duelo contra o Derby County. Antes do Natal, a 22 de Dezembro, o derradeiro encontro de azul e branco contra o Stunthorp. Vitória por 1-0, sem golo de Best desta vez, mas com um par de arrancadas fenomenais que eram a sua imagem de marca. Ao voltar a casa provavelmente os adeptos esperavam reencontrar-se com Best no Boxing Day mas o irlandês voltou a ter uma recaída natalicia e o clube preferiu não arriscar a pagar somas astronómicas por jogo se o rendimento estava em causa.

Best jogou então outros três jogos na sua Irlanda natal pelo Cork City antes de partir para os Estados Unidos onde se tornou num dos maiores idolos da MLS ao serviço do Los Angeles Aztecs, Fort Lauderdale Strikers e San Jose Earthquakes. Uma experiência intercalada por um ano e meio ao serviço do Fulham londrino onde os seus problemas com o alcool e as drogas tornaram-se ainda mais evidentes. A carreira do génio irlandês já estava acabada quando chegou a Stockport mas prolongou-se ainda mais por uma década. O clube azul e branco lutou pela salvação até ao último dia. No final a vitória frente ao Swansea, com esse hat-trick de Best, foi fundamental porque ambos os clubes acabaram empatados em pontos e a diferença entre ambos acabou por ser esse encontro a finais de Novembro. Com marca do génio.

O primeiro icone do futebol

Depois da sua morte, em 2005, o mundo começou a reconciliar-se com o fenómeno de Best. Muito antes que Cristiano Ronaldo, David Beckham ou até mesmo Eric Cantona, o irlandês de Belfast foi o primeiro jogador simbólico do Manchester United a unir futebol, moda, sex-appeal e irreverência debaixo de uma só camisola, a mítica número 7. Se Charlton era o preferido do técnico, Law o homem que desbloqueava os jogos mais difíceis, a magia estava toda nas botas de um jogador que podia ter sido o maior futebolista da história, talvez noutro tempo, noutro lugar, noutra era…

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