Benfica e Sporting, gémeos siameses durante 13 anos!

Durante 13 anos os dois grandes clubes de Lisboa viveram lado a lado. Sporting CP e SL Benfica, uma das mais antigas rivalidades da história do futebol europeu, jogaram durante mais de uma década em estádios separados por poucos metros. Um derby separado por menos de um quilómetro.

Campo Grande, o centro do futebol português

Entre 1941 e 1954 o eixo central do futebol português co-existiu num espaço de escassos metros. A norte, o estádio do Lumiar que seria com o tempo transformado no José de Alvalade. Ligeiramente a sul o estádio de Campo Grande, um dos mais antigos e célebres recintos futebolísticos da capital. E onde então o SL Benfica disputava os seus jogos em casa. Leões e Águias separados por muito pouco numa era em que dominaram quase a seu belo prazer a história do futebol português.

(Na imagem é visível a norte o antigo estádio José Alvalade em construção e a sul praticamente colados, o anterior estádio do Sporting que viria a ser alugado ao Benfica de 1941 a 1954.)

A proximidade histórica das origens dos dois clubes – nas freguesias de Benfica e Alvalade – tornou-se mais evidente do que nunca durante os treze anos em que as duas equipas viveram paredes meias. O Sporting tinha regressado às suas origens, preparando-se para o que no futuro viria a ser o célebre estádio de Alvalade enquanto que o SL Benfica, que acabava de sair do campo das Amoreiras, procurava um terreno temporal até dar forma ao velho sonho de construir um estádio à sua altura. Os destinos de ambos clubes cruzaram-se no Campo Grande, uma das mais icónicas zonas desportivas de Lisboa e o espaço onde durante décadas se viveram alguns dos jogos mais emocionantes da história do futebol português.

Dois rivais, um estádio

O Sporting chegou ao estádio do Campo Grande em 1917.

O clube leonino – através de José de Alvalade – tinha estado envolvido na construção do Stadium de Lisboa (ou estádio do Lumiar) – mas desavenças entre o clube e um dos seus sócios mais ilustres levaram a nova direção a procurar como recinto de jogos habitual um terreno um pouco mais a sul, em pleno Campo Grande. Foi aí que o Sporting – que começou a sua história precisamente como Campo Grande Sporting Club – montou o seu quartel-general durante duas décadas. O recinto do Campo Grande, obra do arquitecto António do Couto, não era um dos mais brilhantes. Pertencia originalmente ao Lisboa FC e ficou conhecido pelos adeptos como a “estância de Madeira”, mas testemunhou os primeiros títulos conquistados pelos leões.

Ao mesmo tempo, o rival histórico dos adeptos leoninos, o Sport Lisboa e Benfica, tinha feito do estádio das Amoreiras a sua casa. Inaugurado em 1925, foi o primeiro estádio oficial do clube das Águias que tinha um historial de várias gerações de jogar em campos arrendados por várias zonas de Lisboa vizinhas à sua freguesia de origem. Em 1940, fruto das obras de expansão rodoviária da cidade, o terreno das Amoreiras foi expropriado ao clube encarnado para dar lugar ao que hoje é a avenida Duarte Pacheco e o Benfica ficou sem casa. A solução foi recorrer ao eterno rival.

O estádio que o Sporting cedeu ao Benfica

Em 1941 o SL Benfica arrendou oficialmente o recinto do Campo Grande.

Há quatro anos que o Sporting tinha deixado o modesto estádio para voltar ás suas origens, o vizinho campo do Lumiar, apenas alguns metros a norte. O clube estabeleceu aí definitivamente a sua base e em 1947, com uma primeira série de obras de fundo, o estádio começou a ser conhecido como o José de Alvalade. Nove anos depois, a 10 de Junho de 1956, e após mais uma série de importantes melhorias nas infra-estruturas (que incluíam uma pista de atletismo), o recinto foi re-inaugurado definitivamente com o nome do homem que potenciou a sua construção quase quarenta anos antes. Mas enquanto as mudanças prosseguiam no Lumiar, o Campo Grande continuava a pertencer ao clube.

Com o Benfica despojado das Amoreiras – e face a um plano geral do governo de Oliveira Salazar que previa a deslocação dos três clubes grandes da capital para Monsanto, onde se pretendia criar uma autêntica cidade desportiva – a Câmara Municipal de Lisboa abordou o Sporting para facilitar o arrendamento do espaço ao rival. Depois de várias negociações – que incluíram a cedência de terrenos camarárias ao Sporting – o clube entregou os terrenos do Campo Grande à autarquia que os alugou ao clube encarnado por uma renda mensal de 550 escudos até este construir o seu próprio recinto em Monsanto. Com o passar dos anos as Águias alugaram também os terrenos vizinhos, construindo uma pista de ciclismo e atletismo, enquanto o Sporting melhorava sucessivamente as condições do Lumiar. E assim, desde o arranque de 1941, os dois históricos clubes de Lisboa estavam instalados à distância de uma rua – num espaço que hoje separa o novo estádio dos leões com a estação de metro de Campo Grande – situação que permaneceu até 1954, com a inauguração definitiva do Estádio da Luz, em Carnide.

Durante esse período de tempo o Sporting viveu os anos dourados dos Cinco Violinos, conquistou oito títulos de campeão nacional, quatro Taças de Portugal e cinco campeonatos de Lisboa. O Benfica, por seu lado, celebrou a conquista da Taça Latina (ainda que jogada no estádio do Jamor), levantou por quatro vezes o título de campeão, seis Taças de Portugal e dois Campeonatos de Lisboa. E o futebol português viveu intensamente quase década e meia da mais profunda rivalidade num espaço geográfico ínfimo, a mais curta distância de separação de um derby entre dois grandes do futebol europeu.

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