Ben Barek, a primeira Pérola Negra

África teve uma das primeiras estrelas do futebol mundial quando o continente ainda era uma amálgama de colónias. A saga de Ben Barek foi a primeira de uma legião de jogadores que atravessaram o Mediterrâneo para reivindicar o jogo africano nos campos europeus. A história das “Pérolas Negras” teve no génio marroquino o seu primeiro capitulo.

 O rei de Marselha

Em Agosto de 1938, Ben Barek chega a Marselha.

O futebol mundial vivia uma das suas datas mais importantes. Ainda não o sabia. O jovem de 23 anos, tez negra, pés de anjo, dava o salto dos campos marroquinos para as ligas europeias. Era o primeiro astro africano a atravessar o mar para viver um futuro de glória no Velho Continente. Depois dele, durante as décadas seguintes, multiplicaram-se os casos de sucesso. De África chegaram jogadores como Mekhloufi, Peyroteo, Just Fontaine, Coluna, Eusébio, Keita, Madjer ou Pelé. Todos eles com esse perfume africano que hipnotizava os europeus. Mas teria sempre de haver um primeiro, um pioneiro. Um Ben Barek.

Nos seus primeiros meses em Marselha, com a camisola branca do Olympique, os seus passes teleguiados, disparos impossíveis de travar e dribles diabólicos conquistaram os adeptos do Velodrome que rapidamente lhe encontraram uma alcunha adequada, a “Pérola Negra”. Não era o primeiro jogador a viver com esse peso às costas. O uruguaio Andrade, estrela da seleção do país nas digressões e torneios olímpicos dos anos vinte, já tinha sido assim baptizado pela imprensa de Paris. Barek seria a primeira das pérolas negras. E deixaria bem vincada a sua marca. Durante os dois anos que passou em Marselha, transformou por completo o clube local numa das maiores potencias do país, levando-os em 1939 a terminar o campeonato em segundo lugar. Depois a guerra cruzou-se no seu caminho e adiou o sonho de triunfo. Foi apenas o primeiro capitulo. Não o fim de uma história ímpar.

 A primeira estrela do futebol africano

Ben Barek nasceu em Casablanca, capital da colónia marroquina da república francesa. Filho de pais de origem senegalesa, misturava o perfume da África atlântica com a magia do futebol berbere. Em 1914, quando nasceu, o jogo tinha assaltado já as ruas das principais cidades da colónia. Dez anos depois, Ben Barek era já uma estrela por direito próprio dos torneios locais a pesar de ainda ser um projeto de adolescente. Quatro anos depois estreou-se oficialmente com o El Outane, clube local que representou durante dois anos até assinar pelo Ideal Club de Casablanca. Estávamos em 1930, o futebol era mais popular do que nunca em Marrocos e Ben Barek era a estrela a seguir.

O nome do prodígio chegou rapidamente à metrópole e os clubes franceses enviaram observadores regularmente a Marrocos. O Marselha ganhou a disputa e em 1938 o jogador, já com 23 anos, dava o salto definitivo na sua carreira. Em 1940, com a invasão alemã do país, Larbi Ben Barek é forçado a dar um passo atrás. O seu regresso a Marrocos adiou também a sua estreia internacional pelos Bleus. Depois de ter sido o primeiro afro-arabe a jogar na liga do país, Ben Barek esteve a ponto de ser também o primeiro a jogar por uma seleção que faria das suas disputas raciais parte intrínseca da sua história. O fim da guerra emendou a injustiça. O jogador voltou a França mas trocou a solarenga Cote d´Azur pela fria e verde Bretenha. Com a camisola do Rennes marcou quarenta golos em sessenta jogos durante duas temporadas e estreou-se, finalmente, pelo país que sempre chamou seu. Foi precisamente o selecionador francês que inicialmente o convocou – antes do arranque da guerra – Helenio Herrera, que decidiu que Ben Barek era o homem que precisava para devolver ao Atlético de Madrid os títulos de campeão de Espanha. No antigo estádio Metropolitano, a “Pérola Negra” transformou-se rápidamente em “El Prodigio”. Os colchoneros nunca tinham visto um jogador deste calibre. Formou parte da mítica “Delantera de Seda” que arrancou os títulos de campeão em 1950 e 1951 ao todo-poderoso Barcelona. Durante cinco anos a sua sombra imensa pairou sobre Madrid. Nenhum futebolista da capital estava à altura do seu talento absoluto. A sua saída, marcada pelo regresso ao Olympique Marseille em 1953, coincidiu com a chegada de Alfredo di Stefano. A roda da fortuna mudava os destinos dos dois clubes da capital espanhola e do futebol europeu.

O símbolo de Marrocos

De regresso à Ligue 1, Ben Barek continuou a espalhar magia durante mais três anos em Marselha antes de decidir-se finalmente a dizer adeus ao futebol europeu em 1955. No ano anterior tinha deixado a seleção, ausente do Mundial da Suiça, depois de uma gravíssima lesão sofrida num amigável em Hannover contra a futura campeã mundial. O seu Marrocos natal foi o seu inevitável destino. Larbi chegava a um país novo, o primeiro da zona a conseguir escapar do controlo absoluto de Paris. A luta pela independência utilizava o futebol de forma mais intensa do que nunca. Dois anos depois, na vizinha Argélia, uma legião de futebolistas decidiram transformar-se em embaixadores diplomáticos de um país que lutava pela sua independência. Em Marrocos a situação era distinta.

Nem Barek nem Fontaine, os dois filhos pródigos, renegaram da sua relação emocional com a metrópole. Ainda assim os seus caminhos seguiram vidas paralelas. Enquanto Just se tornaria no goleador histórico dos Mundiais na Suécia, em 1958, apontando 13 golos no torneio, Larbi Ben Barek estreou-se na época anterior como o primeiro selecionador de um Marrocos independente. Foi uma experiência de curta duração, seguida por outra em 1960, mas que não teve continuidade. O homem que tinha transposto todas as barreiras raciais e culturais entre a Europa e África abandonou o seu destino de treinador para retirar-se do jogo. Sentou-se a contemplar como a sua África crescia futebolisticamente e como, geração após geração, o continente gerava outra “Pérola Negra” para brilhar na Europa.

Em 1992, quando morreu, vitima de uma longa doença, George Weah preparava-se para ser consagrado brevemente como o melhor jogador do Mundo.  A sua herança tinha, finalmente, prevalecido.

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