A história conhece bem a aventura da Laranja Mecânica no Mundial de 1974, uma final perdida de forma surpreendente e um mito criado à volta das camisolas laranja. Mas o que muitos desconhecem é que os holandeses estiveram muito perto de falhar o apuramento para o torneio graças a uma memorável geração de futebolistas belgas que só foram eliminados na fase de qualificação por diferença de golos.

A desorganização holandesa

Em Maio de 1970 a Holanda celebrou o seu primeiro título de campeã europeia de clubes. O Feyenoord tinha batido o Celtic de Glasgow, melhorando assim o registo conseguido pelo Ajax de Amesterdam, finalista vencido na temporada anterior. Os ajacied seriam os protagonistas do lustro, conquistado os três títulos posteriores à vitória dos homens de Roterdão. Na Europa todos sabiam do poder do futebol holandês. E no entanto, nesse Verão, não era a seleção laranja que estava no México a disputar o Mundial de seleções. Era a sua vizinha e rival, a Bélgica.

Os belgas eram uma formação respeitada no futebol europeu, mas a qualidade dos seus principais emblemas ainda distava muito da epopeia vivida pelos seus vizinhos a norte. A equipa gravitava, sobretudo, à volta da liderança de Paul van Himst, um dos mais célebres e talentosos futebolistas da sua geração. Com ele a Bélgica não só marcou presença no Mundial do México – deixando pelo caminho Jugoslávia e Espanha, como dois anos depois voltou a encontrar-se entre a elite do continente como organizador do Europeu que seria ganho pela Alemanha Federal.

Ao contrário do que sucedia com os seus clubes, tacticamente inovadores e magistralmente organizados, a vida na seleção holandesa era um caos. Não havia entendimento entre as estrelas de Ajax e Feyenoord. O ego de Johan Cruyff chocava com o espirito corporativo dos jogadores de Roterdão e a ausência de um selecionador forte tinha comprometido a presença da seleção nacional em duas competições onde poderiam ter sido considerados como favoritos. Em 1970 os holandeses foram afastados pela Búlgaria do temível Asparoukhov. Dois anos depois, na caminhada rumo ao Europeu, foram os jugoslavos de Dzajic a impor-se a Cruyff e companhia. Como era possível que um país que tinha conquistado por três anos consecutivos o ceptro de clubes europeu falhasse sucessivamente o apuramento para as fases finais dos torneios de seleções?

Um apuramento in extremis

Em 1972 belgas e holandeses foram colocados no mesmo grupo de apuramento para o Mundial da Alemanha. Nessa temporada o Ajax acabaria por vencer de forma consecutiva a sua terceira Taça dos Campeões Europeus. O Feyenoord continuava a ser capaz de lhes fazer sombra a nível doméstico. E os problemas com a federação continuavam. Cruyff começou por exigir pagamento aos jogadores pelas deslocações, um seguro de viagem  equivalente ao usufruído pelos directivos e plenos poderes ao balneário para efectuar as decisões tácticas, tal como sucedia no clube de Amesterdão, sob a concordância com o romeno Stefan Kovacs.

Os jogadores holandeses sabiam que esta era, provavelmente, a derradeira oportunidade que teriam de brilhar num grande torneio internacional. Depois de duas tentativas falhadas, a velha desunião entre jogadores do Ajax e Feyenoord chegou ao fim. A resposta foi uma goleada demolidora a 1 de Novembro contra a Noruega. Um 9-0 que se revelaria fundamental nas contas finais do apuramento. A seleção da Bélgica já tinha disputado os seus primeiros três jogos, contra noruegueses e islandeses, e tinha somado vitórias por encontros disputados. Eram líderes isolados à espera de um tropeção do rival. Contavam com ele. Afinal, era o que sempre sucedia.

Em Bruxelas, quinze dias depois, as duas seleções cruzaram-se pela primeira vez. O entusiasmante futebol de ataque holandês foi incapaz de penetrar as barreiras defensivas dos belgas. Van Himst e Cruyff anularam-se mutuamente, não houve muitas ocasiões e o jogo terminou com um empate a zero, colocando ainda mais pressão sobre o conjunto holandês. Não existia margem para erro. Foi preciso esperar quase um ano para a Holanda voltar a jogar. Uma viagem à Islândia, resolvida com nova goleada (0-8), que antecedeu o encontro decisivo em Oslo.

Poucos jogos foram tão importantes na história do futebol sem serem repetidos até à exaustão. Hoje poucos falam dessa vitória holandesa na capital da Noruega. Mas sem ela nunca teria existido o mito de Cruyff e a sua laranja mecanizada. O capitão do Ajax abriu o marcador, na primeira-parte, mas os noruegueses igualaram a contenda e mantiveram-se frios, sem cometer erros. O mesmo não passou com os seus rivais. Num lance a meio-campo, van Hannegan agrediu um contrário e foi expulso. Na Bélgica já se celebrava o apuramento. O checoslovaco Frantisek Frahdonc, colocava as mãos na cabeça, ciente de que a sua equipa estava perto do fim. Mas a história seria diferente. E polemica.

Um livre no flanco esquerdo do ataque holandês provocou o caos na área norueguesa. Os centrais nórdicos conseguiram finalmente despejar a bola para o meio-campo onde estava Krol, rápido a colocar a bola de novo na área, nos pés de Cruyff. O avançado estava em claro fora-de-jogo. O árbitro nada assinalou, o número 14 serviu o central Barry Hullsthoff e a bola entrou. Era o golo que valia o apuramento. Dias depois a Bélgica viajou até Oslo e venceu sem polemicas. Agora, belgas e holandeses estavam igualados na classificação mas os homens de laranja contavam com uma vantagem de golos extremamente favorável. Oito golos. Os mesmos da goleada inaugural que fizeram toda a diferença nas contas finais.

O golo que nunca deveria ter sido anulado

Em Amesterdam, a Bélgica entrou previsivelmente com um esquema defensivo.

Raymond Goethels, o mítico selecionador a quem seria acreditado, anos depois, a invenção da linha de fora-de-jogo, sabia que num jogo de ataque declarado a sua equipa podia ser destroçada pelos ansiosos holandeses. A ideia era, precisamente, jogar com os nervos da equipa da casa e a aposta funcionou. Cruyff liderou as hostes laranjas mas foi incapaz de encontrar espaços para gerar desequilíbrios e à medida que o tempo passava, os belgas começavam a ser mais audazes. Eram eles que tinham de marcar. E conseguiram-no, finalmente, nos instantes finais do jogo. No minuto 89, um disparo de van Himst para a baliza de Piet Schrivjers foi desviado habilmente por Jan Verheyen. O drama tomava conta das bancadas do Olímpico de Amesterdão. Mas enquanto os belgas se abraçavam, a celebrar o apuramento, o árbitro soviético Kazakov decidiu anular o lance depois dos protestos de Cruyff e companhia. A Holanda estava salva e, no entanto, as imagens revelam que Verheyen não estava em fora-de-jogo. Havia três camisolas laranjas que o habilitavam  Não uma, não duas, mas três. Sem sofrer um só golo em seis jogos, os belgas estavam fora. E a Holanda entrava no Mundial de 1974 pela porta mais pequena.

A epopeia da Laranja Mecânica

Pela primeira vez na sua história, a Holanda disputaria a fase final de uma competição internacional. Na Alemanha, já com Rinus Michels ao comando – depois dos jogadores se recusaram e a seguir com o técnico checo – a Holanda deslumbrou o mundo com a qualidade do seu futebol de ataque. A magia demonstrada pelo Ajax e a frieza do Feyenoord finalmente encontraram um ponto de união e os holandeses foram soberbos em toda a competição. Na final, no entanto, foram incapazes de transformar essa superioridade em golos e perderam. Como perderiam as meias-finais com a Checoslováquia, dois anos depois, e uma segunda final com a Argentina em 1978, já sem Cruyff na equipa. A maldição da Laranja estava lançada.

Os belgas acusaram o golpe de uma eliminação com a qual não contavam. Mantiveram-se fora das principais provas internacionais da década de setenta. Mas quando a Holanda começou a sua inevitável decadência, ressurgiram das cinzas. Uma nova geração de talentos liderada por Jan Ceulemans, Enzo Scifo e Eric Gerets chegou à final do Europeu de 1980 e às meias-finais do Mundial de 1986, os pontos altos da história dos Diabos Vermelhos. Se aquele golo em Oslo não tivesse sido validado, há quem pense que talvez tivessem sido eles a surpreender a Europa do futebol no Mundial germânico. Um enorme se para a posteridade de uma equipa que fez tremer a mais admirada seleção da história do futebol europeu.

2.703 / Por
  • felipe

    fala meu caro!miguel,a Belgica atualmente vive um otimo momento.deve se classificar pro mundial e conta com otimas revelaçoes.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Sim, a actual geração da Bélgica tem condições para ocupar um lugar de destaque no segundo nível das selecções europeias, onde está Portugal. Resta saber se a mentalidade dos jogadores, com a experiência da Premier, permite a concretização dessa quase fatalidade.

      um abraço

  • norbert

    hola
    me puede dar la composicion delequipo da Belgica de fotos
    y me lo dira ano
    gracias
    Norbert