Apesar da fama de clube frívolo, o Bayern Munchen tem um passado de resistência ao nazismo do qual poucos clubes alemães podem presumir. Nos anos 30 a instituição bávara resistiu às ordens de Adolf Hitler e esteve à beira da extinção por desafiar o regime nazi.

Frente aberta contra o regime de Hitler

É curioso como há clubes como o Ajax Amsterdam que sempre possuiram uma aura de grandeza associada ao seu multiculturalismo e à sua resistência contra o establishment. E outros, como sempre sucedeu com o Bayern Munchen, que foram acusados vezes sem conta de serem clubes de regime, clubes acomodados e clubes sem personalidade. Ironicamente, durante a II Guerra Mundial o Ajax, um clube da comunidade judaica, colaborou com o regime nazi na denúncia de membros influentes da comunidade judaica local que acabaram em campos de concentração. Por outro lado, o Bayern Munchen, foi o único clube alemão que desafiou abertamente as directrizes de Hitler. E pagou um elevado preço por resistir ao regime nazi.

Entre os anos 30 e os anos 60, a maior equipa do futebol alemão perdeu tudo o que tinha ganho a custo. Passou largos anos nas divisões secundárias, sofreu o estigma social na Baviera e viu muitos dos seus dirigentes exilados para nunca mais voltar. Foi o preço por opor-se ao regime nazi e à sua politica de anti-semitismo.

O clube tinha começado a afirmar-se na elite do futebol germânico desde o final da década de 20 e em 1932 sagrou-se campeão nacional pela primeira vez na sua história. Não voltaria a vencer um titulo até ao final dos anos 60.

A presidência de Landauer

Em 1933 o regime de Adolf Hitler controla definitivamente o destino da Alemanha.

Uma das suas primeiras medidas iniciais passava por controlar todas as instituições desportivas e sociais. Originalmente o plano de Hitler era de suprimir todos os clubes e criar do zero novas instituições totalmente fieis ao partido. Houve várias fusões entre clubes em cidades por todo o país e quanto às instituições mais influentes, o regime exigiu a demissão dos seus directivos e a substituição por homens afiliados à causa nazi. Pior era o caso dos clubes que empregavam a membros da comunidade judaica. Bernhardt Rust, ministro da educação, promulgou em Junho de 1933 um paquete legislativo que expulsava qualquer membro da comunidade judaica de qualquer instituição estatal, desportiva ou educativa na Alemanha. Muitos dos clubes alemães já se tinham antecipado à medida, conhecedores da ideologia hitleriana. O Bayern Munchen recusou. Até ao último dia o seu presidente, o judeu Kurt Landauer, homem por detrás da gestão que levou ao primeiro titulo dos encarnados, manteve-se no posto com o apoio absoluto da restante directiva e dos jogadores e adeptos, muitos dos quais membros do partido.

Anos depois Landauer foi preso pela policia politica por resistência ao regime e acabou num campo de concentração que funcionaria como teste ao que mais tarde se viria a tornar no Holocausto, Dauchau. Em 1939 conseguiu escapar e refugiou-se na Suiça onde manteve o contacto com os seus antigos companheiros em Munique.

A atitude do clube irritou profundamente os dirigentes nazis.

O regime apoiou declaradamente o rival local, 1860 Munchen, e dotou-o de financiamento, campos de treino de primeiro nível e facilidades na gestão das licenças dos jogadores que tinham de cumprir serviço militar. Ao contrário, para os homens do Bayern tudo eram obstáculos e problemas para resolver e a pouco e pouco o clube tornava-se numa instituição marginal. Foi forçado a despedir alguns dos seus melhores jogadores (judeus) e quando o regime aplicou uma legislação que obrigava os clubes a serem absolutamente amadores, instituições que tinham rumado ao conceito semi-profissional, como era o caso dos homens de Munique, tiveram de reformular o plantel de forma drástica.

Mesmo assim, o clube manteve-se fiel ao seu presidente, anunciando nas suas publicações que Landauer ainda era dirigente de pleno direito do clube e que todas as regras impostas pelo partido eram apenas aceites, não compartilhadas ideologicamente pelo clube. Em 1940, o clube foi até à Suiça disputar um amigável. Landauer estava na bancada. Os jogadores aproximaram-se e aplaudiram-no durante largos minutos. No intervalo a Gestapo entrou no balneário e ameaçou a todos os jogadores com um bilhete sem volta para um campo de concentração se a atitude se voltasse a repetir. Na conservadora Baviera, onde muitos dos homens do regime ficaram depois da guerra terminar como auxiliares da admnistração norte-americana, essa postura nunca foi esquecida e a popularidade do 1860 Munchen manteve-se em alta até aos anos 60.

O clube mais filantrópico

Fiel ao seu principio, o Bayern Munchen mandou publicar nos jornais locais uma noticia de congratulação aos exércitos Aliados no dia em que, finalmente, foi assinado o armistício na Alemanha. Dois anos depois Kurt Landauer voltou do exilio na Suiça e chegou a Munique para ser reeleito, por aclamação, presidente do Bayern. Cargo em que se manteve até 1951. Os problemas sociais mantiveram o clube longe da elite durante os dez anos seguintes.

Curiosamente foi um jovem que estava na formação do rival 1860 quem permitiu um volte face histórico a princípios da década de 60. Franz Beckenbauer mudou a história e tornou-se igualmente numa das figuras que mais impulsionaram a vertente filantrópica do clube. Desde os milhões oferecidos às vitimas do tsunami no sudeste asiático em 2004, apoios a escolas no Sri Lanka e, sobretudo, um apoio financeiro directo a muitos clubes alemães em problemas financeiros, do politizado St. Pauli ao rival directo Borusia Dortmund sem esquecer, curiosadades da vida, o seu eterno vizinho, o 1860 Munchen.

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