Bangu, os pioneiros do futebol brasileiro

A história do futebol no Brasil tem-se escrito a letras douradas entre jogadores célebres e clubes que nos transportam ao glamour das grandes noites. Mas foi no pequeno bairro operário de Bangu que se forjou a verdadeira essência do futebol brasileiro. Uma essência mulata, operária e desafiante que ajudou a desenhar o esqueleto de um país que não sabe viver sem a magia do futebol.

A história alternativa do futebol canarinho

A história oficial do futebol brasileiro começa com Charles Miller. Naturalmente.

No principio, não era o verbo. Era a aristocracia. E tal como sucedeu com o modelo inglês, no resto do Mundo a exportação do fenómeno para muitos ainda conhecido como “football association” tinha de vir acompanhado com um certificado de valia social. O nome de alguém que desse prestígio ao desporto. No Brasil esse homem foi Miller, filho de comerciantes ingleses instalados em São Paulo, e rebelde estudante em terras britânicas. Depois de quatro anos em Inglaterra, Miller chegou ao porto de Santos sem o diploma mas com uma bola, um equipamento e um par de chuteiras. Era o seu doutoramento.

Esse folclore ajudou a fomentar a eterna ideia de que o futebol, no Brasil, entrou pela mão da mais endinheirada aristocracia mas há várias versões que disputam esta fábula. Miller foi, sem dúvida, um pioneiro e um dos principais dinamizadores do jogo numa época em que o cricket e o remo, e não o futebol, eram o passatempo dos ricos brasileiros. Mas a bola provavelmente já tinha rolado em pelados brasileiros antes da sua chegada.

Provavelmente nas docas, disputada entre marinheiros dos navios mercantes com a “Union Jack” no mastro. Ou através de empresários e industriais que aproveitaram a tranquilidade política oferecida pela nova República para fazer fortuna. Homens como Thomas Donohoe, o fundador da Fábrica Bangu, num dos bairros mais humildes da capital do glamour sul-americano, o Rio de Janeiro.

A aldeia gaulesa do futebol brasileiro

Em Bangu o futebol foi pioneiro em vários sentidos.

Se é difícil averiguar se foi aí, em 1886, que se disputou o primeiro jogo de futebol na história do país, mais fácil é entender a importância da modesta localidade, integrada na cintura urbana do Rio, para a afirmação social do futebol brasileiro. Um futebol disputado por todo o tipo de brasileiros, independentemente de origem social ou cor de pele. O Brasil, um dos países onde a miscigenação de culturas e povos mais se faz notar, foi também um estado onde até aos anos sessenta subsistiu uma profunda cultura racista e o futebol sofreu na pele essa discriminação. Bangu era, para todos aqueles que lutavam essa batalha, uma aldeia gaulesa.

A Fábrica Bangu utilizava, desde o século XIX, o futebol como modelo de distração para os seus operários, emulando o exemplo britânico que transportou o jogo das universidades e colégios para as unidades fabris. Ao contrário das elites do Rio de Janeiro e São Paulo, que jogavam apenas entre si em circuito fechado, privilegiando uma abordagem amadora e classicista, neste pequeno núcleo operário o futebol rapidamente se fez popular entre os humildes, os operários brancos que chegavam do interior mas também as comunidades negras e mulatas. Em 1904 os dirigentes da fábrica patrocinaram a criação oficial de um clube, o Bangu Atlético Clube, composto exclusivamente por empregados da linha de produção e administradores.

O primeiro jogador negro do Brasil

Ao contrário de todos os outros clubes brasileiros fundados à época, os seus jogadores eram todos provenientes das classes populares, ao contrário dos administradores, associados à gestão da fábrica. No ano seguinte à sua fundação, o clube voltou a fazer história ao alinhar o primeiro futebolista negro da história do jogo no país, Francisco Carregal. A federação de clubes do Rio de Janeiro, ao qual o Bangu tinha aderido apesar do protesto dos aristocratas do Fluminense, proibiu oficialmente a utilização de negros nos campos de futebol.

Com o passar dos anos essa proibição iria estender-se a mulatos, analfabetos e trabalhadores do comércio. Tudo subterfúgios para impedir o sucesso de um clube que não tinha nem os recursos nem a possibilidade de contar com os futebolistas de elite brancos dos seus rivais. O modesto Bangu sofreu, na pele, durante três décadas esse acosso social por parte dos restantes clubes do Rio de Janeiro.

Apesar disso, era um dos clubes mais populares do país.

Na sua zona, a oeste de Copacabana, congregavam-se regularmente equipas amadoras juvenis compostas por jovens promessas que chegavam dos mais distintos quadrantes sociais. Aos melhores, o clube incorporava-os à sua equipa, prometendo-lhes um posto de trabalho na fábrica. Era forçoso, nesta era de amadorismo disfarçado, encontrar formas de enganar os fiscais da federação. Os jogadores trabalhavam nas fábricas com um regime especial, que lhes permitia treinar e jogar. Mas mesmo assim, o tempo livre era escasso e a cada ano que passava o Bangu acabava suplantado por clubes com dinheiro e meios suficientes para ter os seus jogadores fisicamente mais frescos para cada duelo. Da formação do clube começaram a sair verdadeiras estrelas do futebol brasileiro, a mais cintilante das quais o mítico central Domingos da Guia.

Finalmente, o título!

A origem proletária do clube agitou definitivamente as consciências do futebol brasileiro. Suplantado progressivamente pelo Vasco da Gama, um clube com a mesma filosofia mas com mais poderio financeiro para fazer frente aos históricos aristocratas do Rio, os encarnados transformaram-se numa alternativa ao circulo de poder do futebol na capital. Em 1933 obraram a sua maior gesta desportiva, vencendo pela primeira vez na sua história o título de campeão carioca.

Uma derrota em dez jogos, culminada com uma goleada por 4-0 ao Fluminense, selou um feito histórico. O profissionalismo estava prestes a tornar-se uma realidade, as restrições raciais começavam a ser abolidas à medida que a elite aristocrática se retirava de jogo, e a pouco e pouco os filhos dos operários do Brasil podiam finalmente brilhar com as cores dos seus clubes mais simbólicos. Essa evolução inevitavelmente acabou por matar as aspirações do Bangu a ser algo mais. O clube manteve-se fortemente associado ao seu bairro e à sua condição operária e nunca esqueceu o seu papel no combate ativo contra o racismo no futebol brasileiro. O tempo destronou-o das divisões de elite mas a memória permaneceu.

De certa forma, todo o sucesso que o Brasil desfrutou a partir de 1958, todo o brilhantismo que jogadores como Garrincha, Pelé, Jairzinho, Júnior, Romário, Ronaldo e Ronaldinho ofereceram aos espectadores brasileiros começou atrás dos tijolos da fábrica de Bangu, o único espaço onde o mulato, o negro e o branco eram iguais quando olhavam para uma bola em movimento à espera da sua oportunidade para driblar o mundo.

2.802 / Por
  • Anna Kaum

    Concordo e reconheço a importância do Bangu na formação da história do futebol carioca e brasileiro,mas com relação aos negros e aos analfabetos,não se pode esquecer que quem realmente assumiu esta bandeira como política,foi o Vasco,que bancou,inclusive,a alfabetização de seus jogadores para que pudessem assinar a súmula,regra implantada com o propósito claro de impedir o acesso dos menos favorecidos ao futebol.
    De resto,saudades do Bangu voando em campo e de um tempo onde o futebol não era só mercadoria e espetáculo de empresários que nem imaginam o que significa a paixão de um torcedor.
    Abraços,
    Anna Kaum.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Anna,

      Temos já agendado um artigo sobre o Vasco.
      Se o Bangu foi o pioneiro, o Vasco foi quem realmente empunhou a bandeira durante muitas décadas, período no qual foi ostensivamente desafiado pela elite dos clubes cariocas. Para os próximos meses está prometida uma viagem a essa aventura.

      Obrigado

      • Anna Kaum

        Sou eu quem agradeço!
        Abraços,
        Anna.