Da mesma forma que foram sempre underdogs no terreno de jogo, os adeptos do Leicester também viveram durante décadas debaixo do radar mediático da violência desportiva. No entanto a sua “crew”, conhecida como Baby Squad está considerada, desde os anos oitenta, como uma das mais violentas e perigosas do futebol britânico.

Os underdogs do Hooliganismo

O fenómeno do Hooliganismo inglês começou a fazer-se sentir nos anos sessenta e cresceu de forma descontrolada na década seguinte sobretudo na gigantesca área urbana londrina. Foi á volta da capital e dos seus inúmeros clubes que nasceram as crews mais violentas e perigosas do país, fossem associadas a clubes de primeira como o Tottenham, Chelsea, West Ham United ou Arsenal ou a emblemas periféricos como o Millwall, Charlton ou Reading. Londres vivia a um ritmo diferente do resto do país e embora existissem já importantes “firms” de adeptos violentos organizados noutros espaços urbanos – á volta de Birmingham e do corredor entre Liverpool-Manchester-Leeds – o seu impacto social e historial de confrontos violentos era infinitamente reduzido em comparação com os exércitos armados de Londres que não se dedicavam exclusivamente a lutar entre si mas que também viajavam pelo país, em comboio, para assaltar os territórios rivais.

Dentro desse universo periférico, sem fazer muito ruído, em Leicester formou-se um grupo de adeptos organizados que conquistaram a pulso e punho fechado o estatuto de ser um dos maiores underdogs da violência desportiva no Reino Unido. Não eram mediáticos como os seus rivais londrinos mas eram respeitados pelas crews da capital pela sua apetência pela violência e a ausência de medo em organizar uma boa luta. De tal forma que a princípios dos anos 2000 a crew do Leicester foi considerada a segunda mais perigosa do país, algo que não coincidia com o estatuto relativamente anónimo do clube nos campos desportivos. Apesar de ser uma cidade bastante multicultural com uma grande presença de minorias de origem asiática e caribenha, sobretudo, tal como as principais crews londrinas, o grupo de adeptos violentos do Leicester que transformou as redondezas do velho Filbert Street Park num campo inexpugnável eram brancos, de media idade e profundamente violentos. Ironicamente faziam-se chamar a “Baby Squad”.

A Crew mais respeitada longe de Londres

A primeira noticia sobre a Baby Squad surgiu em 1982.

A crew tinha cerca de um ano de vida, o clube militava na Second Division e contava com uma flamante promessa no ataque chamada Gary Lineker mas poucos realmente prestavam atenção ao que sucedia numa cidade das Midlands onde o rugby era tão ou mais popular que o próprio futebol. Inglaterra vivia uma profunda depressão económica, um governo repressivo que lidava com greves, o IRA e o exército argentino e a violência nos estádios estava a ponto de atingir o seu nível mais alto. A aparição de uma crew violenta em Leicester não era uma noticia de primeira página mas, pouco a pouco, quase em silêncio, o universo hooligan tomou nota dos confrontos organizados pelos adeptos do Leicester á volta do seu estádio. A Baby Squad raramente viajava muito longe da sua zona de segurança mas aí arrogavam-se ser invencíveis. A cada recepção de clubes vizinhos ou de crews londrinas – a do Chelsea, então clube de segunda divisão era a mais habitual a tal ponto que ainda hoje existe uma profunda rivalidade entre os dois clubes – organizavam-se autênticas batalhas campais que os anfitriões quase sempre reclamavam suas. A pouco e pouco a sua influência foi-se estendendo pelas redondezas a ponto de serem considerados os adeptos mais perigosos da zona centro de Inglaterra. De certa forma os adeptos do Leicester eram mais famosos a nível nacional que os jogadores do clube. O combate mais violento e celebre chegou em 1987 contra os adeptos do Millwall, então reconhecidos como os mais duros do país. Saldou-se com um empate técnico a julgar pelas detenções e feridos de ambas partes e foi suficiente para colocar Leicester no mapa do hooliganismo. A Baby Squad – chamada assim pelo aspecto juvenil dos seus primeiros membros – tornou-se numa celebridade por direito próprio.

O reflexo do combate político numa era de transição

No inicio dos anos noventa Leicester transformou-se num bastião dos partidos radicais de direita, sobretudo o National Front e muitos dos seus militantes faziam parte do Baby Squad. No entanto, pouco a pouco, o êxito desportivo do clube que regressou á elite e chegou a disputar competições europeias – graças aos anos dourados de Martin O´Neill como treinador – ampliou a sua base de apoio á crescente comunidade asiática local. Foi um processo quase de implosão na medida em que o extremismo politico radical acabou por encontrar uma forma de conviver com as minorias no apoio indiscutível ao clube. Os números da crew foram aumentando com os anos e á medida que o futebol inglês continuava o seu lento mas firme processo de eliminação das firmas violentas, em Leicester a situação permanecia a mesma.

O clube foi forçado a tomar medidas e pouco a pouco, com a ajuda de infiltrados policiais, a situação foi-se alterando. No entanto, isso não impedia que em 2002 o clube fosse catalogado como tendo a segunda crew mais perigosa do país, apenas atrás do Millwall. O processo ia ser lento e doloroso e a mudança de estádio, abandonando o espaço sagrado de Filbert Street pelo mais comodo Walkers Stadium, foi um passo fundamental para o desmembramento da Baby Squad. Leicester transformou-se numa cidade pacifica e o clima de celebração local com o título histórico conquistado pelo clube deu uma imagem transversal de tranquilidade como há muito não se via. A Baby Squad original desapareceu do mapa, substituída por uma nova crew mas muito mais pequena e inofensiva, e as horas de paz antes dos jogos foram substituídas pela tensão competitiva de cumprir um sonho histórico. Porque muitos não se esquecem que antes de terem sido o melhor clube de Inglaterra, os Foxes foram também um dos clubes com os adeptos mais temidos do país.

 

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