Em Salzburg trava-se uma das batalhas anónimas do eterno conflito entre o futebol moderno e aqueles românticos que procuram manter a essência do jogo do povo. Um clube modesto, herança de um emblema histórico, lidera a rebelião contra um dos maiores impérios emergentes do futebol mundial patrocinado pela Red Bull. Esta é a história do SV Austria Salzburg, os rebeldes austríacos do futebol.

De SV Austria a Casino Salzburg, uma história atribulada

Em 1993 o treinador inglês Bobby Robson foi despedido numa viagem de regresso da Áustria. O clube que treinava então, o Sporting, tinha acabado de ser eliminado da Taça UEFA por um modesto mas histórico clube austríaco, o Casino Salzburg. O nome hoje soa estranho a muitos a pesar de que nesse ano dourado ganhou a sua primeira liga e atingiu a final da Taça UEFA, caindo aos pés do Internazionale. Mas o Casino Salzburg já não existe como tal. Aliás, o seu período de vida foi bastante reduzido. Uma aventura que começou em 1978 e que terminou em 1997. Foi um caso inédito no futebol austríaco de então. Um clube histórico por direito próprio forçado a ver o seu nome mudar por pressões de um conglomerado financeiro.

O SV Austria Sazlburg tinha sido adquirido nos anos setenta pelo grupo Casinos Áustria, uma empresa, como o nome indica, dedicada ao mundo do jogo e apostas. A empresa forçou a mudança do nome do clube, que tinha sido fundado em 1933 na época do expoente máximo do futebol no país, os anos do Wunderteam, quando quase todas as grandes equipas se encontravam em Viena. Durante duas décadas o Casino Salzburg confundiu os históricos adeptos do Áustria. Depois, em 1997, a companhia financeira Wunstenrot-Gruppe adquiriu o clube ao grupo Casinos e aplicou a terceira alteração de nomenclatura, criando o SV Wustenrot-Salzburg. A aventura não correu bem e do nada apareceu a mais popular empresa austríaca do mundo, a Red Bull, para mudar a vida de um clube com uma existência atribulada.

A revolução Red Bull

A Red Bull adquiriu formalmente o clube em 2005. A primeira alteração foi a do nome, e o Áustria Salzburg passou a ser o Red Bull Salzburg. Depois a empresa do magnate Dietrich Mateschitz – adepto ele próprio do Áustria na sua juventude passada em Salzburg, cidade natal de Wolfgang Amadeus Mozart – mudou também as cores do clube. Durante os anos anteriores o roxo original tinha sobrevivo à mudança do nome. Agora o império Red Bull vinha com força e com novas ideias e assim nasceram os equipamentos branco e vermelho ou azul e amarelo, os mesmos utilizados no logo da companhia. Uma mudança que tocou profundamente no coração dos adeptos locais.

Se por um lado é mais do que óbvio que a Red Bull apostou forte no seu primeiro clube de futebol patrocinando novas infra-estruturas de nível mundial – um estádio que recebeu jogos do Euro 2008, um centro de formação que está ao nível de La Masia – e jogadores, sobretudo do mercado alemão, checo e brasileiro, que transformaram a equipa num crónico candidato ao titulo, o certo é que pouco restava já da herança do velho Austria. A mudança de emblema, nome e cores foi acompanhada do despedimento implacável da esmagadora maioria dos funcionários, dirigentes e trabalhadores do clube para abrir caminho a uma nova geração de jovens ambiciosos coordenados, inicialmente, por um conselheiro pago principescamente pela Red Bull, o alemão Franz Beckenbauer. Muitos dos jogadores locais foram dispensados e a empresa de bebidas isotónicas não escondeu o desejo de criar uma marca de apelo mundial que estava pouco preocupada com a ligação local.

O RB Salzburg tornou-se no primeiro clube de uma família com parentes espalhados já pelo mundo – Nova Iorque, Leipzig, São Paulo – a que se seguiu a aquisição de um clube ainda mais modesto, o FC Liefering , transformado em equipa B e que atualmente milita na segunda divisão austríaca, e uma ligação especial com outros dois emblemas do país, o FC Pasching e o FC Anif. Os adeptos locais não podiam suportar esta revisitação da história. O primeiro passo foi protestar à federação austríaca quando a Red Bull colocou na página oficial do clube a indicação de que este era um clube novo sem qualquer relação histórica com o anterior. O RB Salzburg foi imediatamente punido e obrigado a reconhecer o historial do antigo clube como seu mas nunca mais nada associado ao roxo violeta voltou a aparecer pelas instalações do clube.

A empresa patrocinou inclusive o nascimento de uma claque organizada, os “Branco-Vermelhos” para animar os jogos do clube. O motivo era simplesmente um. Os adeptos tradicionais do Áustria tinham abandonado o navio, literalmente saindo do estádio de forma ruidosa durante um jogo entre o histórico Austria de Viena e o RB Salzburg, em forma de protesto. Todos os que voltaram ao estádio na jornada seguinte com cores violeta a lembrar o velho clube foram vetados pelos stewards. O pretexto foi a segurança dentro do relvado mas estava claro que a nova direção não queria ter nada relacionado com o passado. Os velhos adeptos também queriam outro futuro. E preparam-se para iniciar o seu movimento de resistência ao império Red Bull.

Os rebeldes violeta de Salzburgo contra o futebol moderno

Conhecidos como os “Violet-Weilt”, o grupo hardcore de adeptos do velho Austria não perdeu tempo e respondeu à política de aquisição da Red Bull do seu velho clube com a criação de um novo emblema. O SV Austria Salzburg nasceu oficialmente em 2005.
Membro de uma geração de clubes rebeldes – juntando-se ao AF Wimbledon, FC United of Manchester ou Salgueiros 08 – o projeto emergiu como uma fénix no panorama desportivo de Salzburg. A primeira tentativa de fusão com um clube já existente na quarta divisão durou apenas um ano e não teve sucesso o que levou os revoltosos de Salzburg a começar da estaca zero em 2006. A nova equipa manteve toda a tradição do velho Austria viva recuperando tanto o emblema como as históricas cores utilizadas desde as origens pelo clube já engolido pelo império Red Bull. Inscritos na Regionalliga, o clube empregou vários dos técnicos despedidos pela Red Bull até que estes encontraram colocação noutros emblemas e tudo graças ao forte apoio financeiro dos adeptos locais.

Desde esse 2005 o SV Austria representa no país a resistência mais simbólica à hegemonia social da Red Bull. O clube cumpre uma década e a pesar de, desportivamente, estar a anos luz da herança histórica do seu antepassado – e por oposição ao inevitável sucesso do RB Salzburg – continua a ser um dos clubes mais acarinhados do país e reúne habitualmente mais de duas mil pessoas nos seus jogos em casa no pequeno estádio de Salzburg, um local que à primeira vista empalidece com o imponente Red Bull Arena, uns quilómetros a norte. Ainda assim, inscrito originalmente na sétima divisão do país, o clube já conseguiu a promoção até à terceira divisão e está apenas a um escalão de entrar no universo profissional. Com um plantel composto quase exclusivamente por futebolistas locais, o SV Austria é em tudo o oposto da versão comercial patrocinada pela Red Bull. Os seus jogos não divulgados nas ruas da cidade com ações de marketing especiais e eventos que envolvem corridas de cross, automóveis ou torneios de desportos radicais mas continuam a ser comentados com paixão nas históricas tertúlias de café da cidade. Os defensores da herança romântica de um jogo entregue há muito ao poder económico perfeitamente representado pelos “touros” com asas.

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