Em menos de uma década o Atlético Celaya passou como um cometa pelo futebol mexicano sem deixar grandes saudades. E no entanto, a sua história ganhou protagonismo quando o reinventado clube azteca se tornou no refúgio inesperado de três dos mais ilustres membros da Quinta del Buitre, a linha avançada mais brilhante do futebol espanhol dos anos 80.

O herói de Queretáro

Foi debaixo do calor asfixiante de Queretaro que o menino se fez homem. E que o cognome de Buitre (abutre) ganhou outro sentido.

A 18 de Junho de 1986 o jovem Emilio Butrageño destroçava com o seu olfacto de assassino dos relvados a mais brilhante seleção europeia presente no Mundial do México. Quatro golos seus fizeram a diferença no duelo entre a seleção espanhola e a célebre Danish Dynamite, liderada por Preben Elkjaer Larsen e Michael Laudrup. No México a jovem promessa da formação do Real Madrid transformou-se numa estrela mundial. No México, a estrela mundial encontrou o refúgio prévio à sua reforma definitiva.

Ao letal goleador dos anos oitenta começavam a pesar os anos e quando Jorge Valdano chegou a Madrid para disputar a Johan Cruyff a hegemonia do futebol espanhol, o seu nome não estava na lista das suas prioridades para o ataque. O argentino tinha jogado ao lado de Butrageño e sabia o genial futebolística que era. Mas também que o seu tempo tinha passado e que chegava a hora de refrescar o ataque do clube com a nova e promissora geração liderada por Raul Gonzalez. Butrageño aguentou, estoicamente, algumas semanas de dor silenciosa até que decidiu partir. Antes dele já tinham saído Miguel Pardeza – ainda na década de oitenta – o mexicano Hugo Sanchez e Rafael Martin Vasquez, decidido a emular os feitos de Valentino Mazolla com o escudo do Torino ao peito. Para trás ficavam Manolo Sanchis e Michel, mas só o primeiro completaria a carreira no clube onde tinha começado. Onde todos tinham começado naquele ano memorável de 1983, sob o olhar atento de Alfredo di Stefano, onde a lenda da Quinta del Buitre se começou a forjar com a camisola do Real Madrid Castilla e acabou por marcar uma era dourada da história do futebol espanhol. Butrageño deixava a cosmopolita capital de Espanha por uma aventura inesperada no mais remoto dos destinos.

A aventura do abutre

A modesta cidade do coração mexicano não tinha tradição futebolística

Era o local mais improvável para ver “El Buitre” e companhia brilharem por uma última vez. O Atlético local, essa ironia da vida, tinha sido fundado em 1954 mas só na temporada anterior à chegada de Butrageño, 1994-95, o clube marcou pela primeira vez presença na liga de elite do futebol mexicano. E apenas porque comprou a licença do Toros de Cuernavaca, ao mais puro estilo NBA.

A chegada de Buitrageño, mais do que uma aposta desportiva, foi um verdadeiro golpe de marketing que devolveu a desvalorizada liga do México às capas dos jornais europeus. Ao lado do espanhol formou-se uma equipa composta por internacionais sul-americanos (chilenos, uruguaios, argentinos e colombianos) e no primeiro ano na divisão de elite, o Atlético Celaya venceu a sua liguilha particular para entrar nas eliminatórias que abriam a luta pelo título de campeão nacional. Eliminados o Pachuca e o Monterrey, o modesto clube encontrou o Necaxa na final a duas mãos. Derrotados em casa por 1-0, o jogo da segunda-mão, no estádio Azteca, foi tenso e emocionante até ao fim.

A dois minutos dos noventa, a Butrageño faltou-lhe uns centimetros para desviar o rumo de um cruzamento perfeito de Ivan Hurtado que levaria o duelo a prolongamento. Foi o momento mais alto da história do clube. Mas não o final do seu mediatismo público.

A Quinta de Celaya

Repetindo o formato da contratação de Butrageño, a direção do clube avançou para a contratação de Michel, Martin Vasquez e o ídolo dos adeptos mexicanos, Hugo Sanchez, os restantes elementos ofensivos da Quinta del Buitre. Um quarteto de luxo que nem sempre teve a mais cordial das relações no Bernabeu e que durante uma temporada foi incapaz de repetir a fórmula mágica dos seus dias de jovens deuses dos relvados.

Quando a temporada de 1996-97 chegou ao fim, tanto Michel como Hugo Sanchez deram por terminada a sua carreira como futebolistas e começaram as suas aulas para passar a dirigir desde o banco de suplentes às novas gerações. A Martin Vasquez esperava-lhe uma última, e azeda, experiência na Alemanha ao serviço do Karlsruher. Para o abutre, a história durou um pouco mais. Faltava-lhe ainda um ano, com alguns golos e uma genuína admiração colectiva que poucos futebolistas estrangeiros conseguiram no campeonato azteca, antes de dizer adeus definitivamente. Foram duas temporadas cinzentas como seria todas as outras do clube mexicano.

Em 2002, apenas quatro temporadas depois do final da aventura mexicana da Quinta del Buitre, o clube chegou ao fim. Tal como surgiu, através de um sujo negócio de compra e venda. Mudou-se de novo o emblema para Cuernavaca, rebaptizou-se a instituição de Colibris mas o projeto estava destinado a um final prematuro. Poucas semanas depois, a nova direção decide encerrar o projeto definitivamente por não poder arcar com as dividas acumuladas pela gestão do Atlético Celaya. O clube chegou ao fim mas a sombra de três pistoleiros vindos do coração de Espanha permaneceu, para sempre, como uma fábula contada com orgulho entre nachos e coronitas numa tarde estival sem fim à vista.

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