A mitologia que rodeia o futebol espanhol tem por hábito classificar o Real Madrid com o clube mais associado ao regime ditatorial de Francisco Franco. No entanto, quando o final da guerra civil confirmou o triunfo dos falangistas, foi o Atlético de Madrid o clube escolhido para representar os ideias do regime. Um clube com um novo nome e ideal.

As feridas da Guerra Civil

Em 1936, com os primeiros murmúrios de guerra a romper as paredes, o futebol espanhol encerrou a temporada com a despromoção surpreendente do Atlético de Madrid. O clube era um dos mais emblemáticos do país mas o prestígio não foi suficiente para garantir a permanência. Um penalty falhado no último minuto, contra o Sevilla, foi o suficiente para condenar os colchoneros a um ano no segundo escalão. Para a filial na capital do Athletic Bilbao, esse nunca nunca teve lugar.

Os canhões começaram a rasgar o céu meses depois e o futebol foi uma das primeiras vitimas. A mobilização geral, entre republicanos e falangistas, dividiu famílias, cidades e, inevitavelmente, clubes. Alguns dos melhores jogadores da época morreram, em combate ou fuzilados. As ideologias misturaram-se como nunca. Clubes associados aos republicanos contavam com figuras falangistas e emblemas que para muitos eram de extrema-direita, como o Real Madrid, eram presididos por ferozes defensores da República. Durante esses três anos Espanha viveu mais do que uma guerra. Foi uma ferida que está por fechar. E que contagiou o seu futebol.

Os aviadores dos relvados

Para manter os soldados ativos, os exércitos organizavam habitualmente jogos entre batalhões e clubes locais durante os meses de combate. Em Salamanca, onde Franco instalou um dos seus postos de comando, um grupo de aviadores falangista começou a destacar-se pela sua qualidade futebolística. De tal forma que, para manter a moral dos soldados em alta, quando Franco se mudou para Zaragoza insistiu que o pelotão o seguisse. Aí, enquanto se disputava a batalha do Ebro, o clube de aviadores competiu na liga amadora aragonesa e ganhou-a. Facilmente.

Com a capitulação de Madrid, em 1939, a guerra terminava. Mas não a gesta futebolística dos aviadores. Entre os seus dirigentes – militares de carreira – e os seus jogadores, alguns recrutados especialmente para reforçar os quadros da divisão a partir do seu passado como futebolistas, havia o desejo de continuar a defender o regime em tempos de paz. Nada melhor que fazê-lo através do futebol. Franco, um político que nunca se mostrou apaixonado pelo jogo, percebeu as intenções e deu-lhes a sua aprovação. O Club Aviacion teria direito a continuar a exercer como instituição desportiva oficial. Mas precisava de fundir-se com algum emblema já existente, entre os clubes espanhóis, para evitar ter de começar a sua carreira nas divisões regionais. Naturalmente o grupo instalou-se em Madrid e contactou os clubes da capital. As negociações com o Real Madrid duraram pouco tempo, face à resistência dos dirigentes merengues em serem associados a um clube do exército. Mas com o Athletic a situação foi bem diferente. Oficialmente, o clube do Manzanares teria de começar a época na segunda divisão e sem estádio porque o seu Metropolitano, situado na linha da frente de batalha, tinha ficado totalmente destruído durante o cerco da capital. Mas os seus directores viam com muito bons olhos uma associação ao regime vencedor. E a 4 de Outubro de 1939 a união ficou oficializada. O Athletic Club – o nome era similar ao do seu  antepassado basco – passaria a ser Club Atletico Aviacion.

O símbolo do franquismo

Os começos do novo emblema deram razão aos dirigentes do Atlético.

O clube foi controlado imediatamente pelos directivos militares associados ao Aviacion e com eles trouxeram uma organização profissional de que o emblema da capital carecia. Com empréstimos bancários a baixos juros, começaram-se as obras de reconstrução do Metropolitano e preparou-se um plantel que reunia não só os melhores jogadores de ambas as equipas como todos os jovens de potencial de Espanha sob o pretexto de cumprirem o serviço militar na capital, no corpo de aviadores.

Para contornar o problema de actuar na segunda divisão, o novo ministro dos desportos, o General Moscardó, homem de confiança de Franco, instaurou um play-off de permanência com o Atlético Aviacion e o Osassuna. O jogo, disputado em Valencia, foi ganho pelos madrilenhos por 3-1 e a equipa pôde assim fazer parte da primeira liga da etapa franquista. Uma liga que, quase inevitavelmente, venceram.

Treinados por Ricardo Zamora, “El Divino”, o mais celebre guarda-redes da história do futebol europeu da primeira metade do século XX, os colchoneros impuseram-se com naturalidade a um conjunto de equipas sem meios para ombrear com uma formação sustentada pelo exército espanhol. Não em vão eram conhecidos como os “milionários”. O Atlético deslocava-se de avião para cada jogo fora da capital, contava com os gastos sufragados pelo governo e tinha a possibilidade de incorporar à sua equipa as jovens promessas do futebol espanhol. Num país a sair de uma dura guerra e uma Europa a viver as penas da II Guerra Mundial, essa era uma vantagem fundamental. Particularmente porque os melhores jogadores dos rivais habitualmente estavam mortos, detidos ou em fuga. Sob esse cenário desolador o passeio do Atlético Aviacion prolongou-se um ano mais, com a dobradinha assegurada em 1941.

O fim da dependência institucional

A partir de 1943 a situação alterou-se. A estabilidade governativa em Espanha, centrada na figura absoluta de Franco, era já um facto indismentível. Qualquer movimento de resistência tinha sido derrotado. Tudo teria sido diferente se os desejos do ditador tivessem sido concedidos por Adolf Hitler, mas com a recusa alemã a um auxilio espanhol nas operações de guerra, a península ibérica manteve-se oficialmente neutral e assim continuaria nos anos seguintes.

Tempo suficiente para o regime consolidar o seu domínio absoluto da sociedade espanhola. A sua presença no mundo do futebol era cada vez menos necessária e talvez por isso os clubes com subvenções do estado foram vendo as suas contas bancárias emagrecer. Com o Atlético Aviacion a situação não foi diferente e o ministro da defesa de Franco, o general Yague, começou a cortar com as subvenções e favores especiais em transportes e recrutamento concedidos ao clube. Como resultado, nas três temporadas seguintes o Atlético não só não voltou a vencer o título como chegou a ver de perto a despromoção. Os seus principais rivais, sobretudo o Barcelona e Athletic Bilbao, tinham recuperado o atraso dos anos do pós-guerra e tomariam controlo do futebol espanhol até meados da década de cinquenta.

Face à nova realidade social, a associação do Atlético de Madrid com o Club Aviácion deixou de fazer sentido. Em 1947 as duas instituições separaram-se oficialmente. Os aviadores deixaram de existir como clube independente e passaram a ser apenas uma agremiação desportiva lúdica dentro da estrutura militar. O Atlético recuperou o seu nome que ainda hoje mantém, Club Atlético de Madrid, e o seu emblema original. Teve de esperar até 1950 para vencer um novo título de liga, graças sobretudo à liderança de Helenio Herrera, o novo técnico do clube. Com o hispano-argentino o clube venceu o campeonato na temporada seguinte mas começou também um novo deserto que se prolongou até aos anos sessenta. Por essa altura, o sucesso internacional do Real Madrid tinham transformado o clube de Chamartin no embaixador perfeito do franquismo. O passado monárquico de Santiago Bernabeu e as relações com altas figuras do regime do seu número dois, Raimundo Saporta, ajudaram a consolidar a lenda de clube oficioso da Espanha franquista aos merengues. Mas a história das relações do regime e o futebol remontam aos anos dos milionários aviadores do sul de Madrid.

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