São mais de dez mil desportistas, representantes de distintas correntes religiosas mas unidos na profunda crença de que o futebol sem Deus não faz sentido. Seita, religião ou extravagância, tudo se disse e escreveu sobre os Atletas de Cristo mas esta organização religiosa ainda é um dos grandes mistérios da comunidade futebolística.

Seita ou movimento espiritual?

O ritual é sempre o mesmo. Antes do apito inicial, o jogador concentra-se. Levanta as mãos para o céu. Uns erguem a cabeça, outros baixam-na. Rezam. Em voz alta mas sem que ninguém os possa ouvir. Falam diretamente com Deus. Pedem ajuda, conselho, inspiração, forças. Ouvem o apito, benzem-se e preparam-se para jogar. Para jogar por eles, pela sua equipa e, sobretudo, por Deus. Se marcam, não hesitam em mostrar a mensagem que os une, estejam no Brasil ou no Japão, na liga russa ou portuguesa: “I Belong to Jesus”.

É o seu credo, o seu santo e senha, o seu elemento de união. Uma relação de profunda dependência espiritual com a imagem do deus cristão em quem acreditam mais do que neles próprios. Suportam todo o tipo de crítica, de insultos e de ataques. São uma excentricidade para muitos, ao nível das chuteiras de cores reluzentes, os penteados desafiantes e os brincos nas orelhas. Foram acusados de ser uma seita no mundo do futebol, criada para desviar dinheiro para organizações como a Igreja Universal do Reino de Deus, mas mais de três décadas depois da sua fundação, a sua popularidade não é só cada vez maior como o número de novos membros aumenta de ano para ano.

Os pecadores arrependidos

Nos anos 80, o avançado Baltazar tornou-se numa figura polemica do futebol brasileiro. Pertencia a uma família profundamente religiosa e conservadora que estava contra a sua carreira como jogador pelo simples facto que os jogos ao domingo o impediam de cumprir com as suas obrigações religiosas e marcar presença na missa dominical. Baltasar, então ao serviço do Grémio de Porto Alegre, começou então a rezar no relvado antes do início do jogo e a dedicar os golos ao céu, de tal forma que a imprensa brasileira começou a tratá-lo como o “Artilheiro de Deus”. Mas por muito estranho que possa parecer, o problema que o atormentava não era exclusivo seu. Muitos outros jogadores, a maioria membros de comunidades desfavorecidas e profundamente religiosas, encontravam o mesmo dilema.

Durante a semana ouviam na missa que o mundo do desporto era contra a moral de Deus para no fim-de-semana subir ao relvado e dar o seu melhor. Sentiam-se pecadores por fazer o que gostavam e à medida que os gestos de Baltasar se fizeram conhecidos, o avançado foi abordado por outros futebolistas que lhe mostravam o seu apoio directo. De tal forma que entre eles decidiram criar uma associação de jogadores que partilhassem a paixão pelo futebol e a sua devoção por Deus. Nasceram assim os Atletas de Cristo.

O movimento congregou, desde o principio, membros das mais distintas sensibilidades cristãs, desde católicos a protestantes, mas, sobretudo evangélicos. A sua popularidade no Brasil foi imediata. Vários jogadores de perfil público anunciaram rapidamente a sua associação ao projeto e o movimento cresceu rapidamente. Os jogadores reuniam-se para ler a Bíblia  ir à missa em grupo, realizar sessões em casa com outros jogadores de consulta religiosa, mas também tornaram-se populares pelas iniciativas locais que desenvolviam como ações de voluntariado em bairros desfavorecidos e donativos a igrejas locais. O dinheiro do diabo capitalista encontrava através deles o caminho da mensagem do senhor, pareciam querer dizer aos mesmos que anos antes os criticavam.

O movimento deixou de ser um exclusivo do futebol brasileiro quando muitos dos seus membros emigraram para as ligas europeias. O próprio Baltasar passou por França, Espanha e Portugal onde deixou novos convertidos, e entrada a década de 90 o movimento era já um caso sério de popularidade em todo o Mundo com jogadores tão populares como Bebeto, Tafarell, Donato, Mauro Silva ou Juan Carlos Valerón, reconheciam publicamente ser Atletas de Cristo. No final do Mundial de 1994, o guarda-redes da seleção brasileira, Claudio Tafarrell, um dos principais organizadores do movimento dentro da concentração, reconheceu publicamente que sentiu que tinha sido Deus que queria recompensar o movimento com o falhanço de Baggio que deu o título de campeão mundial ao Brasil. O seu colega de equipa Zé Maria foi mais longe, dizendo que sendo Baggio budista, o seu falhanço foi a prova de que o único Deus real era o seu , o dos membros do movimento.

A expansão internacional

A popularidade dos Atletas de Cristo trouxe também problemas à organização. Começaram a surgir suspeitas de que o movimento era uma forma subtil das igrejas evangélicas brasileiras, sobretudo a polemica IURD, de lavar dinheiro através das suas ações solidárias e de limpar a imagem pública do evangelismo no país. Em alguns casos os próprios Atletas de Cristo foram discriminados dentro dos próprios balneários e se havia países, como Portugal, Espanha ou Itália, onde o movimento se espalhou rapidamente, noutros casos, sobretudo no norte e leste da Europa e os países asiáticos – onde existe uma enorme comunidade de futebolistas brasileiros – ser membro ativo trazia consigo o escárnio público e a desconfiança dos próprios dirigentes e colegas de equipa.

Na última década o movimento passou a adotar uma postura de maior low profile. Por um lado conta com um dos mais populares jogadores mundiais, Kaká, como um dos seus maiores defensores públicos. A sua carreira ficou marcada, desde o principio, pela sua forte crença religiosa e quando venceu o Ballon D´Or em 2007 dedicou-o aos colegas do movimento publicamente. Também Edmilson, Maxwell, Cavani ou Falcao são membros ativos – apesar de menos expostos mediaticamente – dos Atletas de Cristo. Por outro lado a organização reforçou o seu carácter solidário, procurando desmarcar-se das acusações de seita ou corrupção ativa, e cresceu em membros não só no mundo do futebol mas também em várias modalidades, quase sempre da mão de atletas brasileiros.

Atualmente a sede do movimento, atualmente presidido pelo antigo internacional brasileiro Paulo Sérgio, em Brasília é local de passagem obrigatório em dias de férias da maioria dos seus membros mais mediáticos que não abdicam de desviar parte do seu salário para as atividades desenvolvidas pelo grupo. Nos relvados os seus gestos já não causam tanta surpresa mas a sua dedicação continua a chocar aqueles habituados a ver no futebol um compêndio de comportamentos extremos.

1.730 / Por