Para os senhores do petróleo do Qatar só há um caminho para o sucesso. Comprá-lo. Desde há dez anos que o pequeno emirado do Golfo Pérsico desenvolve o projeto Aspire. Com ele pretendem desenhar uma equipa de onze Messis para desafiar as potências internacionais quando o mundo se reúna no seu pequeno estado para presenciar o Mundial de 2022.

Triunfar no Mundial árabe

Nunca na história a FIFA tinha anunciado que o organizador de um Mundial de Futebol seria um país que nunca tinha participado na competição. Um país sem qualquer expressão futebolística no panorama regional do golfo Pérsico. Para não falar em todo o continente asiático.

Mas se o dinheiro dos príncipes do petróleo foi suficiente para comprar os votos necessários para bater as restantes candidaturas ao Mundial de 2022, muitos se perguntavam com que equipa a seleção qatari pretendia receber o mundo. Um país sem presenças em fases finais, sem uma liga reconhecida dentro do próprio mundo árabe, parecia à partida ter poucas opções de causar a menor sensação. Vieram à cabeça os casos da África do Sul, do Japão e até dos Estados Unidos.

Para evitar esse cenário desmoralizador, os mesmos homens que desenharam o método de conseguir a organização do torneio planearam também uma forma de o ganhar. Comprando o futuro.

Aspire Football Dreams, mais do que um clube

Desde 2007 que se está a desenvolver o projeto Aspire Football Dreams. É um gigantesco programa de detecção e formação de talentos em todo o mundo pago exclusivamente pelos cofres da família real do Qatar. Um projeto com um objectivo muito simples. Descobrir os futuros melhores jogadores do mundo e transformá-los na elite do futebol qatarí. Uma seleção moldada pelos Messi, Ronaldo, Iniesta, Xavi, Schweinsteiger, Pirlo, Neymar, Casillas e Bales da próxima década.

Para avançar com o projeto, o governo do Qatar encontrou no Barcelona o aliado perfeito. Nos últimos dez anos, as relações institucionais entre o gigante catalão e o país com mais rápido crescimento económico do circulo do petróleo transformaram-se radicalmente. Hoje o Qatar dá cor à camisola oficial do clube, outrora sem patrocinador, é um dos principais fiadores do emblema e paga principescamente o salário de Lionel Messi através de uma parceira que promove a imagem do jogador e do país no mundo. Em troca, o Barcelona entregou o seu imenso know-how no trabalho de procura e desenvolvimento de jogadores em todo o mundo. Vários dirigentes e treinadores do clube viajaram ao Qatar para supervisionar as instalações desportivas e os métodos de treino desenvolvidos pelos autóctones. O projeto Aspire limitou-se a oficializar esses laços.

Desde então, começou em todo o mundo o maior processo de seleção de talentos da história do futebol. Mais de dois milhões de jogadores jovens entre os 10 e os 14 anos passaram já pelas mãos dos técnicos do clube espanhol e da federação do Qatar em todo o mundo. Curiosamente, ou talvez não, alguns desses países escolhidos a dedo também contavam com direito a voto na corrida à organização do Mundial de 2022. Todos eles votaram a favor da candidatura do Qatar. As suspeitas permanecem.

Descobrir os Messi de 2022

O esquema é bastante simples mas altamente custoso, o que implica a entrega completa das autoridades árabes à ideia de apresentar uma seleção nacional que esteja à altura das circunstâncias em 2022.

O Qatar financiou mais de oitocentos campus para jovens nos cinco continentes. O enfoque é dado especialmente a países africanos, asiáticos e sul-americanos, principalmente porque procuram jogadores de meios humildes que estejam dispostos a vender a sua nacionalidade.

Esses campus testam os melhores jogadores de cada região que são depois convidados a integrar novos estágios em áreas geográficas cada vez maiores até chegar ao processo de seleção final. Só os cinco melhores de cada país onde estão a decorrer as prospecções terão a possibilidade de passar um ano totalmente pago pela federação do Qatar nos centros de estágio dentro do próprio país. Aí, os treinos serão supervisionados por treinadores dos escalões de formação FC Barcelona, a quem vão procurar incutir os mesmos valores e conceitos que ensinam na Masia.

Em forma de reconhecimento, a federação do Qatar permitirá ao Barcelona recrutar os mais promissores dos jovens para o seu próprio clube quando esse estágio termine. Os restantes serão levados a uma academia patrocinada pela Aspire no Senegal onde passarão a ser acompanhados diretamente por emissários da federação qatarí para completarem a sua formação profissional mas também educacional. Só terão de cumprir com uma condição: adquirirem a nacionalidade do Qatar.

Dessa forma, os jogadores estarão disponíveis para que a equipa técnica da seleção do Qatar os possa recrutar para defender a bandeira do país.

Enquanto parte desse grupo de jovens futebolistas estarão profissionalmente ligados ao Barcelona, os restantes terão liberdade para prosseguir a sua carreira, com o apoio direto de empresas do Qatar e com agentes previamente aprovados e recomendados pela federação. O objectivo é que todos comecem em clubes da liga do Qatar, onde jogam atualmente futebolistas como Raúl Gonzalez, e acabem por jogar nos clubes europeus onde a família real do país tem uma importante presença. Barcelona, PSG, Manchester City e Málaga.

Nacionalizar o sucesso

O processo de seleção tem já cinco anos de desenvolvimento e segundo vários dos treinadores do Barcelona envolvidos no processo, está a transformar-se num sucesso. O facto da maior parte dos selecionados pertencerem a famílias humildes, facilita a sua captação. Terão não só a sua formação e estudos pagos pelas autoridades do Qatar como as suas famílias receberão substanciais recompensas. Em alguns países africanos, onde outros clubes têm as suas próprias escolas de prospecção e formação, o projeto Aspire tem-se tornado um concorrente impossível de superar. Demasiado dinheiro envolvido para que emblemas mais modestos possam competir.

Á medida que os jogadores são recrutados e nacionalizados, as perspectivas de sucesso futuro do Qatar aumentam. Os diretores do projeto Aspire esperam que a partir de 2018 os primeiros jogadores saídos do processo de seleção comecem a dar os primeiros passos no futebol europeu.

Depois é uma questão de esperar que o seu promissor futuro se converta em realidade e facilite dessa forma o trabalho ao selecionador do mais pequeno país a receber um Mundial. Até agora, muitos países do circuito do petróleo procuravam nacionalizar jogadores sul-americanos e africanos sem experiência internacional com os seus países, mas suficiente bons em comparação com os jogadores autóctones. Aspire é algo diferente. Pretende desenhar o futuro à base de petro-dólares. A barreira definitiva foi finalmente quebrada.

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