Ser o clube mais bem sucedido da Costa de Marfim não é um mau cartão de visitas. Mas o ASEC Mimosas Abidjan pode presumir de algo mais. Na última década o clube marfilenho tornou-se numa das fontes inesgotável de talentosos jogadores africanos que encontram na Europa o seu lugar ao sol.

O negócio de exportar talentos

Os irmãos Kalou e Touré começaram a dar aqui os seus primeiros pontapés numa bola como futebolistas profissionais. Gervinho, Zokora, Eboué e Romaric são outros dos filhos ilustres dos Les Mimosas. Num país profundamente dividido entre etnias, religiões e estratos sociais, o futebol é um dos poucos elos de união que ainda existem entre os habitantes da Costa do Marfim. E a esmagadora maioria dos ídolos do país são também estrelas na constelação do ASEC Mimosas.

Com a excepção de Didier Drogba, que cresceu desde tenra idade em França, a esmagadora maioria dos internacionais marfilenhos já passou pelo clube de Abidjan, a capital do país. Desde há quinze anos que esse é o verdadeiro objectivo do clube. Vencer provas nacionais é algo habitual num clube fundado em 1948 e que soma já 23 títulos de campeão nacional.

Em 1993 a chegada de Jean-Marie Guillou, antigo internacional francês, mudou radicalmente a perspectiva de futuro do clube. A sua primeira missão como novo diretor do clube foi criar uma Academia de formação com o objectivo de procurar e desenvolver os maiores talentos juvenis do país. O diretor montou uma rede de observadores que passou a pente fino durante os anos seguintes as praias, aldeias e cidades do país para encontrar jovens com o perfil ideal, jogadores técnicos mas com capacidade física suficiente para singrar no mercado europeu. Graças à influência de Guillou e do presidente do clube, Roger Ouegnin, o clube estabeleceu uma série de parcerias com clubes europeus para exportar os seus melhores jogadores para o Velho Continente.

O KS Beveren belga, clube do qual Guillou se tornou presidente em 2001, foi o primeiro. Durante a década seguinte dezenas de jovens promessas do ASEC passaram pelo clube belga como ponte para outros clubes. A maioria deles fracassou e sentiu na pele o reverso da medalha do sonho marfilenho.

A Academia do Sol

A Academia do ASEC Mimosas, baptizada MimoSifcom, especializou-se não só em recrutar jogadores mas principalmente em formá-los ao estilo das principais academias europeias. Ao treino futebolístico juntou-se a componente educativa e social para ter os jogadores mais bem preparados, a todos os níveis, do “Continente Negro”. À medida que a Lei Bosman permitiu a importação livre de jogadores africanos para as ligas europeias, o futebolista-atleta de origem africana, fisicamente possante e tacticamente disciplinado, passou a ser um dos perfis obrigatórios em todos os clubes de topo. A Academia começou a forjar jogadores de acordo com esse padrão estandardizado e estabeleceu a linha a seguir de outros projetos similares em países vizinhos como o Gana, Camarões, Gabão e Nigéria.

O primeiro sinal de sucesso da ideia de Guillon chegou em 1999.

O ASEC Mimosas tinha-se sagrado de forma surpreendente no ano anterior campeão da Champions League africana, um sucesso único na história do clube. Mas fê-lo com uma equipa envelhecida e desejosa de assinar um último contrato na Europa. Na época seguinte, sem um plantel definido, o clube decidiu apresentar a sua equipa de juniores para disputar a Supertaça Africana com os tunisinos do Esperance Tunis. Contra todo o prognóstico venceram, por 3-1, e por lá andavam já Kolo Touré ou Ari Dindane, mais de uma década depois figuras nucleares na seleção dos Elefantes. Foi o sinal de que o projeto seguia pelo caminho certo.

O lado negro da fábula

Mas desde então muitos acusaram a direção de Guillou de estar a criar um negócio paralelo com o clube. A sua parceria com o Beveren foi severamente questionada depois de se descobrir que muitos dos jovens jogadores que são enviados para o clube belga que não conseguem assinar um contrato com um clube europeu de renome são abandonados à sua sorte, sem dinheiro nem sequer um bilhete de regresso a casa. Muitos acabam por assinar por clube menores e outros abandonam o futebol e começam a trabalhar noutras áreas para juntar dinheiro suficiente para voltar a casa.

O clube também pagou o preço. À medida que as jovens promessas eram enviadas para a Bélgica a idades cada vez mais precoces, o clube perdia o seu poderio a nível internacional e de campeão continental, o ASEC Mimosas passou a ser um de muitos dos clubes que passa sem pena nem glória pela maior competição continental africana. Em 2006 o contrato com o Beveren chegou ao fim mas a ponte com a Europa permaneceu aberta com um protocolo assinado com os ingleses do Charlton. O sucesso de Touré e Kalou na Premier League abriu o apetite dos clubes britânicos pelo produto exportado pelo ASEC, um clube que foi perdendo a sua influência desportiva à medida que se tornou num negócio de exportação intensiva desse talento inesgotável num dos países com maior tradição futebolística em África.

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