Nos anos 60 a popularidade dos jogos com a seleção dos melhores do Mundo atingiu o seu ponto mais alto. Num calendário menos congestionado, os encontros de celebração capazes de juntar os mais importantes futebolistas do planeta era um atrativo que ninguém queria perder. Vitima do império televisivo, as seleções do Mundo tornaram-se, de certa forma, num mito perdido dessa era de glamour.

Uma seleção dos melhores

A 23 de Outubro de 1963 celebrou-se em Wembley o aniversário da Football Association inglesa. Numa altura em que a federação do país fundadora ainda impunha um respeito e reverência internacional a FIFA, presidida pelo seu anterior secretário-geral, Stanley Rous, decidiu disputar um jogo amigável de comemoração.

Contra os homens eleitos por Alf Ramsey, escalou-se uma equipa orientada pelo chilena Fernando Rieira. Nela podíamos encontrar quase todos os melhores jogadores do planeta futebol. Lev Yashin, Djalma Santos, Schnellinger, Masopust, Kopa, Gento, Seeler, Puskas, Di Stefano e um jovem e quase desconhecido Eusébio. Nomes capazes de fazer corar qualquer outra equipa da história. Vestidos de azul e branco, cores da FIFA, subiram ao relvado da catedral do futebol e como se esperava, perderam diplomaticamente por 2-1, com Law a marcar o único golo do combinado estelar. Hoje esse jogo seria impossível. Ninguém conseguiria imaginar uma equipa que juntasse Casillas, Ramos, Pepe, Xavi, Piqué, Iniesta, Sneijder, Schweinsteiger, Robben, Pirlo, Messi e Ronaldo. Eram outros tempos, tempos em que o popular Resto do Mundo, como eram conhecidos, faziam parte da mitologia maiúscula do futebol mundial.

A herança inglesa

Foi na década de 30 que se idealizou um jogo com os melhores jogadores do Mundo para celebrar o 75º aniversário da Football Association inglesa. A FIFA patrocinou o duelo e convocou vários futebolistas, todos eles europeus. Uma seleção liderada pelo italiano Vittorio Pozzo e capitaneada pelo goleador italiano, recém-confirmados como campeões do Mundo, Silvio Piola.

Um jogo que encheu um Wembley desejoso de ver jogar os melhores do mundo, os ingleses, contra os melhores da Europa. A vitória dos da casa abriu um longo historial de triunfos honoríficos e deixou claro que o projeto tinha continuidade. A longa e dura guerra que se lhe seguiu, quase de imediato, manteve os duelos suspensos até 1947, ano em que a federação inglesa confirmou o seu regresso oficial à FIFA num jogo, desta vez, celebrado em Hampden Park na Escócia, por obras de reconstrução do Wembley.

Para os adeptos as equipas do Resto do Mundo eram a única oportunidade que tinham de ver alguns dos seus idolos numa era onde a televisão ainda não existia e maior parte dos nomes eram apenas refrões ouvidos em conversas de café, mergulhados numa nostalgia mitológica  A mesma que fez do projeto algo imensamente popular nas duas décadas seguintes. Até aos anos 70 disputaram-se 11 encontros amigáveis e por lá passaram todos os grandes jogadores da época.

Os adeptos portugueses encheram-se de orgulho quando o sportinguista Travassos foi convocado em 1955 num duelo com o Resto da Europa, uma das mais populares variações do modelo, que terminou 1-4 em Wembley para desânimo dos adeptos ingleses. Oito anos depois Eusébio tornou-se no segundo futebolista português a marcar presença nestes duelos. Seria um dos rostos mais habituais na década seguinte, confirmando a sua tremenda popularidade, particularmente com o público inglês.

Sem espaço nos calendários

A entrada na década de 70 significou também uma progressiva mutação nos calendários. As ligas aumentaram de tamanho e a introdução de iluminação nocturna abriu as portas para jogos entre a semana. As competições europeias confirmaram-se como um fenómeno igualmente popular, especialmente as variantes da Taça das Taças e das Feiras, rapidamente transformada em Taça UEFA, e o calendário foi-se apertando até que deixou de haver espaços para amigáveis simbólicos.

Os clubes começaram a recusar-se a libertar os melhores jogadores, com receio a que sofressem lesões, para jogos durante a época e até mesmo os Home Championship, o campeonato mais antigo do mundo entre as quatro federações britânicas, passou a disputar-se numa semana de Maio. A FIFA entendeu a mensagem e pouco a pouco, deixou de organizar jogos com o Resto do Mundo como protagonista.

Chegou-se a tal ponto que um dos duelos representando o resto do Mundo só incluía três jogadores não britânicos (Eusébio, Seeler e Simões), deixando claro a evidência de que o fenómeno tinha perdido não só popularidade como interesse, tanto para desportistas como para o público. Esse jogo, disputado não no Wembley mas em Upton Park, para marcar a despedida de Geoff Hurst, atraiu apenas 29 mil pessoas.

Foi o ponto de inflexão.

A partir de então os jogos tornaram-se escassos – houve ainda tempo em 1973 para comemorar a entrada do Reino Unido, Irlanda e Dinamarca na Comunidade Europeia com um jogo entre os melhores das três nações contra os melhores dos seis estados membros – e começaram a contar com menos estrelas de vulto e mais jogadores em final de carreira ou jovens promessas.

Os anos 80 ainda assistiram a um breve revival do modelo, especialmente para causas humanitárias, patrocinados pela UNICEF. Jogos onde a televisão jogou um papel fundamental, aproveitando o peso das audiências que a congregação de estrelas do perfil de Platini, Maradona ou Zico podia oferecer. Mas à medida que o futebol avançou para o formato satélite com a introdução, na década de 90, dos modelos da Premier League e Champions League, de certa forma assinou a sentença de morte para as velhas tradições do jogo. As seleções do Mundo foram apenas um de muitos danos colaterais.

Do Resto do Mundo aos Amigos de

Hoje os jogos no final das temporadas e na pré-época são disputados por estrelas retiradas ou jogadores em final de carreira. São os jogos de “Amigos de”, com uma estrela, habitualmente um ex-Galáctico, a dar nome à equipa e a convidar outros futebolistas da sua geração para duelos sempre com objectivos humanitários e que em muitos casos servem igualmente para a apresentação oficial das equipas para as novas temporadas.

Nos livros de história ficam os equipamentos azuis, os galhardetes com o emblema da FIFA ou UEFA e a lembrança de que, um dia, os maiores jogadores do Mundo jogaram numa mesma equipa e desafiar a lógica do futebol como fenómeno puramente comercial.

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  • Caroline Eliel Lopes

    É difícil, para mim, compreender como a congregação das maiores estrelas do futebol mundial não seria um grande fenômeno comercial. Entendo o lado dos times, que bancam salários astronômicos, de não querer expor seu patimônio a riscos, sem motivo ou lucro para o clube; e até dos atletas, que talvez não tenham muito a ganhar com um jogo assim, principalmente porque o espaço para tal seria no insterstício das temporadas. Perde-se, desta forma, a possibilidade de um espetáculo como nunca visto. Parece uma ambição amadora esta, realmente. Mas, não existirá, mesmo, uma forma de tornar uma partida de “Seleção do Mundo”, vantajosa para todos?