AS Roma, um clube à medida de Mussolini

No Verão de 1927 o movimento fascista orquestrou um dos movimentos mais importantes do futebol italiano. Nas últimas décadas a SS Lazio tornou-se no clube mais próximo da extrema-direita italiana mas nessas semanas de Julho foram o único clube a dizer que não ao regime de Mussolini. A sua negativa não foi suficiente para travar o nascimento de um dos maiores projetos desportivos do fascismo italiano, o nascimento do AS Roma.

Um super-clube para Mussolini ver

As cores. A loba. O nome.
Não há nada na Associazione Sportiva Roma que não evoca dias de glórias passadas. O vermelho e amarelo, cor histórica dos velhos bairros populares da capital imperial e das fardas das legiões. A mãe adoptiva de Rómulo, o pai fundador de um império milenar. E esse nome, com a força que ecoa gerações e trás à memoria a nostalgia de uma “Citta Eterna”. Nada foi obra do acaso. Em Julho de 1927 o acaso sumiu das ruas da capital italiana. Ninguém sabe para onde foi, provavelmente, para esconder-se do plano detalhado até ao mais insignificante pormenor desenhado pelo governo fascista de Benedito Mussolini. Um plano criado para desafiar definitivamente a esmagadora hegemonia do norte de Itália nos campos de futebol do país.
Durante semanas tudo parecia correr sobre rodas. As reuniões sucediam-se, os dirigentes desportivos e partidários confundiam-se entre si e os principais banqueiros da cidade estavam dispostos a tudo para agradar os homens de confiança do Duce. Tinham passado meses desde a assinatura da célebre Carta de Viareggio,o documento que ia revolucionar o futebol transalpino e a sede da Federação tinha começado o seu caminho de Turim, a sua casa original para Roma, passando previamente por um dos baluartes do regime, Bologna. Vittorio Pozzo preparava a jovem seleção olímpica para o torneio do ano seguinte, em Amesterdão, lançando as bases do domínio hegemónico dos anos trinta e a norte começavam a desaparecer as ameaças dos modestos Pro Vercelli ou Casale face à ascensão irresistível dos gigantes de Turim e Milão. A bola de futebol com perfume italiano movia-se a ritmos totalmente distintos a norte e sul do Pó e em Roma estavam cansados de sentir-se inferiores quando era na capital do império sonhado por Mussolini que deviam estar os melhores desportistas da tão proclamada raça italiana. Na incapacidade de derrotar em campo as squadras do norte, os dirigentes romanos decidiram-se pela mais óbvia opção, a de unir forças. A cidade somava quatro clubes a meados da década, cada qual representante de uma zona e um sector da população. Unir ou morrer, parecia ser o seu destino. Nesse Verão, mais do que nunca.

A resistência da Lázio

O processo arrancou ainda na Primavera.

As negociações entre Italo Foschi, Umberto Guglielmotti e Ulises Iglori pareciam frutificar. Eram os presidentes, respectivamente, do Fortitudo Pro Roma, Roman FC e Alba-Audace, e tinham nas mãos o futuro do jogo na capital. Só havia um senão, um imenso senão. O maior de todos os quatro clubes da urbe, o histórico SS Lazio, presidido por Ettore Varini, recusava-se a alinhar no jogo. Herdeiros do movimento do Rissorgimiento com um certo toque de nostalgia classicista, os laziale tinham escolhido para si símbolos que lembravam mais a herança helénica (o azul claro e branco no equipamento e no símbolo e o nome da região à volta da qual Roma cresceu, o Lazio) sem esquecer a velha águia imperial. Eram um clube já com estatuto e uma forte presença social e entendiam que a fusão com os seus rivais não ia de encontro com os seus interesse e desejos de autonomia.

Durante meses os homens-fortes da Lazio foram fortemente pressionados pelo regime dos “camisas negras”. Resistiram. Queriam representar algo mais que as ruas de Roma e as suas memorias. Tinham disputado já três finais do campeonato italiano e teriam de esperar alguns anos pelo primeiro titulo, mas estavam determinados a fazê-lo sós. Ironicamente o futuro iria transformar para sempre a imagem popular dos laziale e acabará por catalogá-los como o clube mais próximo do movimento fascista e dos seus sucessores, algo que movimentos como os Irreducibili e heróis no relvado como Di Canio teimaram em perpetuar. Nesse histórico momento de 1927, no entanto, foram os únicos que resistiram ao canto de sereia de Mussolini.

O nascimento dos Gialorrosi

A 22 de Julho os restantes emblemas puseram finalmente sob o papel o que tinham discutido durante semanas. Nascia o novo AS Roma, um clube desenhado para triunfar e vergar o poderio das potencias lombardas e savoias a norte. O clube foi equanime com os seus antecessores. Retirou as cores do Roman FC, o emblema da Loba do bairro Flamini do Alba Audace e elegeu como presidente a Foschi, o director do Pro Roma. Entre os setenta jogadores dos três clubes realizou-se um casting para reter os vinte melhores aos quais foram adicionados vários futebolistas da região graças às movimentações do regime.

O Roma foi criado com um propósito especifico e no primeiro ano provou que a ideia tinha futuro, triunfando na edição da Copa CONI, a competição que antecipou a Copa Italia.
Graças ao movimento de propaganda do regime, o novo clube tornou-se rapidamente o mais popular da cidade, suplantando o histórico Lazio, principalmente junto das classes médias, historicamente a base de apoio de Mussolini. O clube incluía não só uma equipa de futebol mas também secções de desportos caros ao regime como a luta grego-romana, o atletismo e o ciclismo, desportos que Mussolini apreciava muito mais que o próprio futebol. Apesar do triunfo no seu primeiro ano de atividade, o clube passou por uma larga etapa de altos e baixos na Divisione Nazionale, a primeira versão da Serie A, fiel reflexo das gritantes diferenças que ainda existiam entre o norte industrializado – com a poderosa máquina das grandes empresas como a FIAT, Pirelli atrás de clubes como a Juventus ou o Inter-Ambrosiana – e a capital do país, por muito que o regime tentasse equilibrar a balança.

Do titulo à despromoção, a reviravolta romana

Em 1936 a equipa esteve perto de superar o Bologna no sprint final da liga, perdendo o titulo por um só ponto.Cinco anos depois a sorte da AS Roma mudou. O clube transformou-se no primeiro emblema a sul de Bologna a vencer a Serie A. Enquanto o país começava a sentir na pele as penas da guerra – com a frustrada invasão grega pelo exército de Mussolini – os gialorrosi, treinados pelo austriaco Alfred Schaffer, começaram a aplicar em campo a filosofia da escola danubiana com sucesso. A era dourada dos oriundi tinha terminado e agora era a fascinante presença do brilhante Amadeo Amadei que fez toda a diferença. Foi uma vitória de Pirro.

Cinco anos depois a equipa foi despromovida pela primeira vez. A derrota contra a Sampdoria, que praticamente selou a despromoção, custou a vida a Italo Folschi, o principal mentor da fusão de clubes. Ao ouvir pela rádio o relato do jogo sofreu uma paragem cardíaca. Com ele morria as bases desse projeto – que não foi único na história do Calcio – o de criar um super-clube patrocinado pelo regime para trazer para sul o núcleo de poder do Calcio. A história tratou de desmontar o sonho fascista dos romanos perpetuando a hegemonia a norte mas com a AS Roma a capital italiana ganhou um dos seus mais importantes símbolos. Uma loba orgulhosa até ao fim!

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