O Parma é apenas um dos muitos clubes do futebol italianos forçados a começar desde o zero por problemas económicos. A Serie A historicamente está habituada a clubes históricos que se refundam para driblar a sua situação financeira mas nenhum caso chega perto das nove refundações do Messina.

Das origens britânicas aos anos do Duce

Jogaram na Serie A e também nos campeonatos amadores. Ao largo de 115 anos de história a vida desportiva do Messina teve os seus altos e os seus baixos. Mas mesmo para o conturbado e instável futebol italiano pode dizer-se que a existência do clube siciliano foi, genuinamente, uma montanha russa O clube teve já nomes, rostos e identidades diferentes que pouco deixam de conexão entre a instituição vigente hoje e aquela que foi fundada, de forma oficial, a 1 de Dezembro de 1900 com o nome inevitavelmente anglófono de Messina Football Club. Não surpreendia ninguém já que entre os seus fundadores estavam vários comerciantes ingleses e jovens de boas famílias da ilha que tinham estudado na Velha Albion e aí conhecido pela primeira vez o universo do football association. Azuis e brancos, a principio, mudaram pouco depois ao vermelho e amarelo habitualmente associado à ilha, uma forma de distanciamento das suas origens estrangeiras nos dias mais quentes do fascismo. Mas antes da chegada ao poder de Mussolini já o jovem clube tinha conhecido as suas primeiras metamorfoses.

Em 1908, com apenas oito anos, o Messina está à beira da extinção. Um terrível terremoto na ilha destrói as instalações do clube bem como provoca a morte a vários dirigentes e jogadores da instituição que pereceram entre as mais de 60 mil vitimas. O clube não desapareceu apenas graças á ajuda de uma instituição dedicada à ginástica e conhecido como Messina Garibaldi que amparou os amantes do futebol debaixo da sua asa. Foi sol de pouca dura. No final da I Guerra Mundial e com um país em estado de sitio – vencedores tratados como vencidos, como se queixaram sempre – o Garibaldi decidiu por ponto e final à sua atividade. Para a bola não parar de rolar o Messina entrou na sua terceira vida, agora assumindo o nome de Unione Sportiva Messina.

São anos de intensas mudanças e depois de confirmar-se como a maior potencia siciliana, o clube decide incorporar a três clubes mais pequenos sediados em Messina forjando uma espécie de clube único da cidade que competia com o nome de Messina FC. A experiência durou pouco e os problemas internos entre os dirigentes dos quatro clubes fusionados passa factura e em 1925 a identidade assume a sua quinta refundação, transformando-se no US Messinese. É o governo de Mussolini, profundamente interessado em revitalizar o futebol como arma política, que instiga uma nova alteração na nomenclatura e estrutura do clube, forçando o uso das cores da ilha – o giallorosso – e um novo escudo para amparar a designação oficial de Associazione Calcio Messina. Será uma reencarnação que durará até ao final da II Guerra Mundial, um período de quase duas décadas em que o clube passou a disputar a Serie B e C com regularidade, afirmando-se como uma das grandes potencias desportivas do sul do país.

Os anos da Serie A

Uma vez mais a política e a situação económica desastrosa do país forçam um novo renascimento do clube que antes de cumprir meio século de história já conta com seis identidades distintas. É um processo constante e complexo. Em dois anos tem três nomes diferentes – US Ten Mario Pasamonte, em honra a um soldado caído na campanha africana, AS Messina e AC Messina – ainda que a cúpula dirigente e a estrutura do clube tenha sido sempre a mesma.

O período mais estável do clube segue-se a partir dos anos cinquenta com a refundação como AC Riunite Messina, que congregava a vários clubes da cidade baixo um escudo. Seria o nome oficial do clube até 1993 e é nesse período que o clube abandona as categorias secundárias para passar duas temporadas na Serie A – depois de superar o Lazio e Bari no titulo pela Serie B em 1963 – o momento mais alto da sua história. Em 1993, poucos anos depois de ter destacado no ataque da equipa uma jovem estrela em potência, um tal de Salvatore Schilacchi, tudo voltou a mudar. Com “Toto” no ataque e Zeman no banco o clube esteve perto de conseguir o passaporte para a Serie A em 1989 mas a venda do melhor jogador da história do clube à Juventus nesse Verão acabou por precipitar o desmantelamento do projeto e três anos depois o caos instalava-se de novo na cidade.

Quatro vidas em vinte anos

Em plena época áurea do Calcio, o clube foi forçado a declarar falência e passou a denominar-se Associazione Sportiva Messina, uma mudança acompanhada de nova despromoção aos campeonatos regionais sicilianos. A mudança dura pouco tempo e em 1998, apenas cinco anos depois, o cenário repete-se e o Messina adota a designação de FC Messina Peloro, antecipação de um inesperado renascimento desportivo que se culmina com três anos sucessivos presente na Serie A entre 2004 e 2007, com uma equipa montada à base de emprestados e jogadores contratados a custo zero. A equipa é originalmente despromovida em 2005/06 mas a pena aplicada à Juventus em consequência do Moggigate salva-o de um final certo e que se concretiza um ano depois.

Sem dinheiro para pagar a jogadores, o clube é forçado a cair da Serie B diretamente para a Serie D e uma vez mais a identidade declara-se em falência voltando a mudar de nome e estatutos, adotando a identidade de AC Rinascita Messina, nome que é alterado em 2013 para AC Riunite Messina. A nona refundação institucional de um clube com mais de um século de uma vida atribulada. Se há outros clubes na Serie A com históricos de constantes refundações – dos conhecidos Nápoles, Fiorentina e agora Parma a instituições como o Venezia, Salernitana ou Perugia – nenhum deles pode reclamar ter vestido tantas peles ao longo de tanto tempo como a identidade siciliana.

Hoje, perdidos nas catacumbas do futebol italiano, sonham com um novo renascimento. Não há quem os consiga convencer do oposto, afinal, eles são especialistas em encarnar o espírito da fénix. Em Messina todos aspiram a ter tantas vidas como o seu clube de futebol.

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