Poucos homens encarnam tão bem a devoção profunda do adepto brasileiro com o seu futebol como Ary Barroso. O grande compositor musical que ajudou a definir a ideia do “Brasil brasileiro”, esse  recompilatório moral e social de todos os elementos que constituem a razão de ser do brasileiro, não foi apenas um dos mais entusiastas adeptos do Flamengo como ajudou a revolucionar as narrações radiofónicas tornando-se no grande pioneiro da metamorfose do grito de “gol”.

A mitologia do locutor

Quem segue um relato televisivo ou radiofónico narrado por um locutor brasileiro sabe perfeitamente que as palavras e expressões bailam na sua voz com a mesma naturalidade com que os dançarinos atacam o sambódromo sem piedade. É uma condição que parece inata, da mesma forma que o drible em corrida sai natural a qualquer “moleque” que rasga as ruas do Brasil.

No entanto, como tudo, também essa forma dinâmica e profundamente musical de narrar um jogo de futebol e, sobretudo, de cantar, nunca melhor dito, o golo, esse culminar da celebração, remonta aos anos 30. Na época em que o futebol brasileiro tinha, definitivamente, transformado a sociedade do país, a voz de Ary Barroso tornou-se no mais simbólico e emocional espelho dessa relação entre o brasileiro e o jogo bonito. A sua harmónica, um dos muitos instrumentos que tocava à perfeição, significou a alegria e tristeza de milhões de ouvintes radiofónicos e abriu caminho à aparição posterior de todos os efeitos sonoros e palavras de ordem de celebração no universo brasileiro, culminando com o “Brazil, zil, zil” que hoje é obrigatório sempre que o escrete canarinho passeia o seu talento por esse mundo fora.

Ary Barroso é, juntamente com Mário Filho, o profeta dessa era onde o profissionalismo começava a substituir o universo amador herdado das lições de Charles Miller, o anglo-brasileiro que trouxe de Inglaterra essa paixão pelo futebol, a grande revolução social do Brasil no século XX.

O definidor do “Brasil brasileiro” 

Barroso pertencia a esse movimento boémio dos anos 20 e 30 que transformou o Rio de Janeiro de então num dos destinos mais exóticos da sua era. A vida deste artista mineiro ficou marcada pelo seu enorme talento em capturar todos os traços sociais que espelhavam a sociedade brasileira da sua época. Esse conceito de “Brasil brasileiro” onde a dança, a música, o carnaval, a praia e, sobretudo, o futebol, encarnavam o espirito do país forjou-se nas suas composições que rapidamente se tornaram num hino nacional alternativo. Aquarela do Brasil, a sua primeira grande obra, transformou-se com o tempo nessa caixa de memórias eternizada por compositores de bossa-nova, pelo universo de telenovelas e pelas classes populares de um Brasil que começava a tornar-se um país respeitado a nível internacional. Músico talentoso, foi pioneiro em exportar o seu trabalho em Hollywood, onde colaborou com Walt Disney e Carmen Miranda, mas no Brasil é mais reconhecido ainda pela sua vontade em recuperar e popularizar os vários ritmos locais de canto e dança, em especial o samba.

Mas tantos anos depois é curioso pensar que o grande público conhecia Ary Barroso mais pelo seu trabalho como locutor radiofónico do que, propriamente, pelo seu trabalho como compositor. A forma como ele abordava a transmissão dos jogos não só se tornou legendária como criou, inevitavelmente, uma escola onde todos os grandes locutores do país foram beber a partir da década de 40 até aos dias de hoje.

Convencido que para relator um desafio de futebol era preciso, sobretudo, originalidade, Barroso trouxe o seu reportório musical para o estádio. Numa era onde os efeitos sonoros eram ainda um mistério, em que os locutores estavam sentados na linha de fundo e o som, inevitavelmente, era abafado pelo público, criar esse elemento sonoro de  distinção era tarefa complexa.

O baiano encontrou na sua harmónica o aliado perfeito. Cada vez que uma equipa marcava golo, antes de fazer soar o grito de celebração, o ouvinte era brindado com um toque de fanfarra que se prolongava sempre mais quando Barroso considerava que era um golo realmente importante. Só depois de terminar de brindar os ouvintes com o seu grito de guerra, seguia a descrição de quem realmente era o golo. Esse seu estilo transformou-o no locutor mais popular precisamente na época em que a rádio se tinha transformado no melhor aliado do adepto brasileiro que passava horas a seguir as transmissões dos jogos dos vários torneios estaduais. Barroso fez-se celebre não só pela forma como se tornou na “voz do gol”, como pelo seu arrojo. Realizou vários relatos em telhados de casas quando as autoridades não o deixavam entrar nos estádios pelos clubes terem vendido a exclusividade da transmissão a outra emissora que não a sua e uma vez voou até à Argentina para narrar, dobrando o locutor local, um duelo entre brasileiros e argentinos, quando os direitos pertenciam ao seu concorrente directo na rádio carioca.

A paixão pelo Flamengo

No entanto o que tornou realmente famoso Ary Barroso foi a sua tremenda devoção pelo Flamengo. Depois de ter sido na juventude adepto do Fluminense, o compositor acabou por fazer parte do folclore tradicional do clube “rubro-negro”, recusando várias propostas de Walt Disney para mudar-se para Hollywood com a desculpa “Aí não tem Flamengo!”.

Se as suas narrações eram consideradas originais para a época, sempre que Ary Barroso relatava um jogo do seu clube, perdia todo o sentido jornalistico e vestia a camisola como qualquer adepto. Negava-se a cantar os golos apontados pelo clube rival, denunciava os ataques contra à defesa do Flamengo com a célebre “Ih, lá vem os inimigos. Eu não quero nem olhar” e por várias vezes chegou a desmaiar em plena narração em jogos cruciais na carreira do clube carioca. O seu papel junto do clube era tal que utilizou a sua influência para patrocinar contratações e na sua obra musical deixou bem claro a sua devoção clubistica. A mesma paixão pelo clube acabou por ser, ironicamente, a causa pelo seu afastamento progressivo do mundo do futebol. À medida que o espirito amador dos anos 20 e 30 dava lugar a um novo profissionalismo na década de 40, o locutor confessou sentir-se desiludido com o seu clube e o futebol brasileiro em geral. Por duas vezes anunciou publicar obras de denúncia, dando-lhes o titulo de O Livro Negro do Futebol Brasileiro e Memórias de um Locutor Esportivo. Não chegou a completar nenhum dos dois.

Em 1950, o homem que deu som ao carnaval e ao futebol brasileiro, foi o locutor de rádio mais seguido durante a cobertura do Mundial de Futebol. Tornar-se campeão do Mundo de Futebol era o culminar de toda a ideologia social e desportiva que Ary Barroso tinha vindo a defender nos últimos 20 anos. No mítico dia do último jogo, no Maracanã, o seu silencio foi o prenúncio da desgraça quando Gigghia apontou o golo que provoca a maior surpresa da história da competição. O desanimo foi tão grande que no final do jogo, em lágrimas, Barroso anunciou que não voltaria a relatar um jogo. E assim foi. A voz cantante do golo em brasileiro calou-se definitivamente. Apesar de ter vivido os dois primeiros títulos mundiais conquistados pelo escrete canarinho (faleceu em 1964) o compositor nunca mais se envolveu no universo futebolístico, abrindo caminho a novas gerações que, tal como os músicos da bossa nova da década de 60, se mantiveram fieis à sua melodia tão brasileira como ao seu grito de “gol”.

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