Artur José Pereira, a primeira estrela do futebol português

Antes de Ronaldo. Antes de Figo, Futre ou Chalana. Antes de Eusébio e até antes de Peyroteo. A primeira grande estrela do futebol português pertence a outra era, outro tempo. Os dribles e disparos de meia distância eram a imagem de marca de um jogador que nasceu antes de tempo. O grande mito das origens do futebol em Portugal.

A estrela dos primeiros 50 anos de futebol português

Em 1945, num artigo publicado no jornal que ele mesmo ajudou a fundar, A Bola, sobre os primeiros cinquenta anos da história do futebol português, o venerável Cândido de Oliveira não teve dúvidas. Para ele o maior jogador até então a pisar os campos de futebol em Portugal não era nem o fabuloso Peyroteo, então a viver o seu esplendor, ou o primeiro grande goleador da história lusa, o madeirense Pinga. Geniais, ambos, ainda assim não estavam à altura de um futebolista que Cândido admirava por cima de qualquer outro, Artur José Pereira.

Anos antes, numa iniciativa do rival jornal Sports, um painel de especialistas tinha eleito o onze titular desses cinquenta anos de história. A maioria dos jogadores pertenciam à geração dos anos vinte e trinta, o primeiro (e curto) apogeu do futebol português antes da decadência progressivo com o final da década de trinta. Titular indiscutivel nessa equipa de sonho, no grupo dos mais votados, estava a antiga estrela do futebol lisboeta. O mais surpreendente é que muitos não o tinham visto jogar. A sua carreira conheceu o apogeu no final da década de dez e acabou, talvez, cedo demais. Entrar numa lista onde não cabiam ainda os futuros “Cinco Violinos” ou alguns dos membros da histórica linha de ataque do FC Porto conhecida como “Diabos do Meio-Dia” era algo que só uma verdadeira estrela era capaz de conseguir. E AJP era isso mesmo, um mito vivo e simbolo de uma era onde o futebol estava longe de criar as mesmas paixões e devoções de anos seguintes. Sem registo video, sem capas icónicas de jornais ou relatos para a posteridade, o seu nome foi-se esquecendo no tempo atrás dos seus sucessores mais mediáticos. Se para muitos seguidores do futebol português já custa encontrar grandes estrelas (que as houve, e muitas) nos anos anteriores à saga dos Magriços que dizer de um homem que brilhou nos campos de areia e lama dos princípios da República.

O menino de Belém que reinou em Benfica

Artur José Pereira nasceu em 1889 em Belém, um ano depois do futebol ter chegado a Portugal pela primeira vez. Estava escrito nas estrelas que ambos caminhariam lado a lado rumo à posteridade.

Filho do fin de siecle e também de uma família humilde, era um apaixonado pelo desporto e praticava ciclismo e atletismo regularmente para lá do futebol, a sua grande paixão. Crescia nas ruas vizinhas a um dos grandes centros de desenvolvimento do jogo, o espaço onde o Casa Pia habitualmente competia com o Carcavellos pela supremacia entre as equipas formadas, respectivamente, por atletas portugueses e ingleses. Eram jogos míticos, que arrastavam multidões e onde Artur aprendeu pela primeira vez a sentir o coração da bola a bater nas redes. Com 14 anos começou a jogar de forma regular com o clube do seu bairro, o Sport União Belenense mas rapidamente abraçou um novo projeto. Em 1904 dois grupos de jovens jogadores que se reuniam à volta da Farmácia Franco, conhecidos como os “Catataus” e o “Clube do Bem” decidiram criar um emblema comum, o Sport Lisboa. O projeto era liderado pelos irmãos Rodrigues e por Cosme Damião e dois anos depois da sua fundação aí estava já Artur José para assumir a posição de médio esquerdo. Quando o histórico primeiro capitão do clube não estava, era ele quem o substituía como médio interior. Tinha apenas dezassete anos.

Um ano depois o clube mudou-se de armas e bagagens de Belém para Benfica, fusionando-se com o Grupo Sport Lisboa para sobreviver à ausência de um campo próprio. AJ Pereira foi com eles – a contragosto, temendo que a inevitável origem em Belém do clube fosse progressivamente desaparecendo da alma do clube – e começou a forjar a sua lenda de estrela nacional.

Com o novo Sport Lisboa e Benfica, dominou o futebol lisbonense durante os sete anos seguintes. Bateu em vários derbys o (já) histórico rival dos encarnados, o Sporting Clube de Portugal e com os seus golos e assistências sagrou-se por quatro vezes campeão distrital de Lisboa. As vitórias sobre os ingleses do Carcavellos, Sporting e Casa Pia ajudaram a popularizar o seu nome entre os novos adeptos da modalidade. Inevitavelmente tornou-se também na estrela da seleção de Lisboa, a mais importante formação nacional antes da criação da seleção nacional, liderando-a em vitórias importantes contra rivais europeus. Em 1913, a equipa partiu para uma digressão no Brasil. Os locais ficaram tão impressionados com o estilo de jogo de Artur José Pereira que vários clubes do Rio de Janeiro lhe ofereceram contratos para ficar na cidade carioca. Sem sorte, a sua ligação emocional a Lisboa superava qualquer oferta monetária. O regresso a casa seria mais problemático e abriria caminho à primeira grande transferência da história do futebol português.

A primeira transferência polemica em Portugal

Cosme Damião e Artur José Pereira não tinham boa relação.

O primeiro tinha assumido o protagonismo da liderança do novo Sport Lisboa e Benfica e, progressivamente, ia apagando a ligação original do clube com o bairro de Belém. Como dirigente, capitão e jogador, sentia-se a principal figura do clube. Mas em campo a verdadeira estrela era AJ Pereira, precisamente o maior defensor do regresso às origens. Durante anos ambos mantiveram sucessivas discussões que eram ultrapassadas quando a bola começava a rolar. Mas a situação foi ficando cada vez mais tensa e acabou num braço de ferro ganho por Damião. O dirigente suspendeu o jogador por seis meses e Pereira respondeu assinando contrato com o Sporting de Portugal a troco de 35 escudos que, numa era ainda de aparente amadorismo, eram pagos mensalmente por Francisco Stromp a titulo particular.

Com o melhor jogador do seu rival, o Sporting partiu para a sua primeira etapa dourada vencendo imediatamente o Campeonato da Lisboa, uma competição que não tinha ainda ganho. Foi o primeiro golpe do leão na águia. Os anos da guerra foram superados com dificuldades mas em 1918, findo o conflito, o Sporting voltou a vencer a competição e Artur José eleito unanimemente como o melhor futebolista da prova. Apesar do sucesso a norte da capital, a sua paixão ainda estava nas margens do Tejo e em 1919 o ainda jogador começou a estudar a hipótese de fundar um clube na zona de Belém para competir diretamente contra os seus antigos colegas encarnados e verde-e-brancos. Em poucas semanas o sonho fez-se realidade.

O pai do Belenenses

Numa noite de Agosto, na praça Afonso de Albuquerque, a primeira grande estrela do futebol português cumpriu o seu sonho e juntamente com antigos jogadores de vários clubes da cidade, fundou o Belenenses.

Durante dois anos, com a cruz de cristo ao peito da camisola azul, Artur José Pereira continuou a espalhar magia pelos campos pelados da capital. No primeiro duelo contra o Benfica de Cosme Damião, a vitória por 2-1 serviu como pequena desforra do craque. Também venceu o primeiro encontro com o Sporting e só uma dupla derrota contra os encarnados na final impediu o clube de vencer o Campeonato de Lisboa na sua primeira edição. Ao sucesso desportivo imediato seguiu-se uma longa luta institucional para sobreviver à asfixia dos restantes clubes da capital. O clima de tensão e as sucessivas acusações de dirigentes encarnados e verde-e-brancos contra o novo clube acabaram por chegar à formação da nova seleção nacional. Convocados três jogadores do Belenenses, entre os quais, inevitavelmente AJ Pereira, os rivais da capital protestaram pela decisão do comité organizador da equipa. De tal forma que foi o próprio jogador e dirigente azul que decidiu que nenhum dos convocados se apresentaria à convocatória. E assim foi. O primeiro grande jogador português acabou por nunca jogar por Portugal. No ano seguinte, cansado das trifulcas políticas no futebol da capital, e com apenas 33 anos, decidiu colocar um ponto final na sua carreira desportiva.

Uma estrela lusa para a posteridade

A carreira de Artur José Pereira acompanhou o amaduramento do futebol português.

Esteve na origem e crescimento dos três grandes clubes da capital, foi estrela indiscutivel da influente seleção distrital de Lisboa e só as manobras políticas que já começavam a ser habituais nos corredores de poder do futebol português o impediram de fazer parte da lista dos internacionais com a camisola das Quinas. Como treinador foi um dos primeiros lideres dos bancos portugueses, conquistando mais de uma dezena de troféus, sempre com o seu Belenenses. Mas foi a sua carreira como jogador que o deixou como memória fundamental para as gerações futuras. Em quinze anos de carreira driblou, assistiu e marcou como poucos. Foi antecessor de uma geração de estrelas com quem o público começava a antecipar-se. Nomes como os de Valdemar Mota, Artur de Sousa “Pinga”, Pepe, Soeiro, Augusto Silva ou Jorge Vieira, alicerces do ADN histórico do futebolista português.

Trinta anos antes de Peyroteo, e com quase um século de diferença para Cristiano Ronaldo, ele foi o homem que pavimentou o caminho do futuro. Polémico, inspirador e pioneiro, Artur José Pereira foi, sobretudo, o homem que marcou o primeiro golo emocional da história do beautiful game nos campos portugueses.

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1 Comentário

  • Olá, bom texto e parabéns pelo vosso blog.

    Estou bastante curioso quanto ao seleccionados para o melhor XI elaborado pelo jornal Sport.

    Acho que seria interessante dar a conhecer os escolhidos.

Comentários

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