Arthur Wharton, o primeiro profissional negro

Se há vinte anos atrás era pouco habitual ver futebolistas negros no futebol inglês, hoje a presença massiva de jogadores africanos e centro-americanos é uma realidade. Nem sempre foi assim. Mas para conhecer o primeiro jogador negro profissional da história é preciso viajar até ao século XIX.

A vitória do corpo sobre a alma

Chegou a Londres como missionário.

Membro da família real de uma das mais importantes tribos da África Ocidental, tinha sido educado por seminaristas e estava preparado para seguir o mesmo caminho. Ao contrário dos seus amigos, com quem ocasionalmente jogava descalço pelos espaços de areia e lama nos arredores de Accra, sabia ler e escrever. Era um atleta do corpo e do espírito. No fim, o poder da conversão da alma revelou-se insuficiente para o fascínio de desafiar o corpo. Arhur Wharton não queria ganhar almas. Queria ganhar corridas e jogos.

O seu espírito competitivo foi sempre a chave do seu sucesso. A sua história pode ter caído no mais puro anonimato, mas a sua lenda ainda hoje ecoa. Não é fácil sobreviver a um silenciamento estratégico. Durante décadas – sim, décadas – o futebol inglês tentou calar tudo o que estivesse fora do circulo fechado de um jogo para as massas operárias. Silenciou-se o futebol feminino das Dick Kerr Ladies. Calou-se a influência asiática nos anos 30 quando o Império começava a romper-se. E, sobretudo, a herança negra. Só nos anos sessenta os campos ingleses voltaram a ver um futebolista negro no futebol profissional.

Durou pouco a aventura e foi preciso esperar ao final da década de 70 para que Laurie Cunningham, Cyrille Regis e Brendan Batson sejam lançados às feras (literalmente) por Ron Atkinson no West Brom Albion. Cumpriam-se quase cem anos desde o nascimento do primeiro jogador negro profissional de futebol.

Arthur Wharton, o guarda-redes mais original

Wharton chegou a Londres em 1882, com dezassete anos cumpridos.

Uma vez instalado em Inglaterra, compaginou o seu estudo de seminarista com o de atleta multidesportivo. Jogou em equipas de cricket, rugby, futebol e atletismo. Em 1883 estabeleceu o recorde mundial dos 100 metros num torneio na capital inglesa em dez segundos. Estava destinado a ser um “maverick” do desporto.

Uma das suas maiores paixões era o futebol. O jogo já era praticado por marinheiros ingleses que visitavam o Gana e foi aí que Wharton tomou contacto pela primeira vez com a bola mágica. Mas foi já em Londres que o seu talento como guarda-redes floresceu. Era um jogador controverso e extremamente original. Numa época em que os guarda-redes eram, habitualmente, futebolistas de grande peso e corpulência, para tapar o máximo possível os ângulos da baliza, Wharton era alto e esguio. Registos da época dão conta da forma como se apoiava regularmente com as mãos na barra para ganhar impulso antes de cada disparo ou cruzamento. Famosas ficaram as suas defesas com os pés.

Wharton agarrava-se na rede e movia as pernas de um lado ao outro, ora disparando a bola para longe da baliza, ora prendendo-a entre as duas pernas. Depois, soltava-a no ar e lançava o longo contra-golpe que tantas vezes terminava em lance de perigo. O ponto alto da sua carreira chegou em 1888. Com vinte anos assinou pelo Preston North End, equipa que no ano seguinte venceu o campeonato inglês sem perder qualquer jogo.

Sobreviver ao racismo do futebol inglês

A carreira de Wharton terminou no final do século XIX.

Tinha sido colega do mítico Willy “Fatty” Foulke no Sheffield United, um dos mais emblemáticos futebolistas do século XIX, e actuado por equipas de menor perfil como o Ashton North End ou o Stockport County. Paralelamente continuava, como muitos outros jogadores, a actuar de forma regular por formações de cricket, rugby e atletismo. Terminada a sua carreira desportiva, dedicou-se de novo ao seminarismo, permanecendo em Inglaterra até à sua morte, em 1930.

Foi enterrado numa campa sem nome, um anónimo mais da história. Foi necessária a pressão da sua família com várias associações de luta contra o racismo no Reino Unido que permitiram tantos anos depois que a sua história voltasse a ser ouvida e uma lápide, à sua altura, fosse colocada sobre a terra onde descansava.

Entre a sua morte e o aparecimento de Cunningham e Viv Anderson, os primeiros internacionais negros do futebol inglês, tinha passado meio século. Um período de tempo em que ser um futebolista profissional não era uma opção para os jogadores de raça negra, ostracizados por um clima repressor, racista e altamente xenófobo, das directivas dos clubes aos próprios adeptos.

O que hoje é uma realidade, até à bem pouco tempo foi uma utopia. E se nas listas dos mais celebres jogadores de futebol profissional há um grande número de jogadores negros, de Pelé a Eusébio passando por Ronaldo, Garrincha, Weah, Gullit, Keita, Ronaldinho ou Henry, é também importante saber onde tudo começou.

Com uma bíblia e uma bola debaixo do braço. Um desejo incontrolável de correr e romper tabus. Com a história da vida de Arhur Wharton, o primeiro poeta negro de chuteiras nos pés.

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