Arsenio Erico, o idolo de infância de Di Stefano

Poucos jogadores podem reclamar terem sido ídolos dos melhores. A história relegou-os para um desmerecido segundo plano mas os seus números e gestas permanecem. Durante vinte anos, Arsenio Érico foi o mais fascinante jogador do futebol sul-americano.

Golos que valem carros

Essa frase, histórica, foi proferida por Alfredo di Stefano, comummente aceite como um dos cinco mais influentes jogadores da história. É suficientemente intrigante para parar um pouco e tentar descobrir o que tinha este avançado paraguaio, que nunca foi internacional pelo seu país, para deixar assim marcado o homem que melhor definiu o futebol até aos anos das televisões a cores.

Di Stefano cresceu em Buenos Aires e era um fervoroso adepto do River Plate, equipa pelo qual jogou, como suplente da célebre formação conhecida como La Maquina onde brilhavam os magníficos Loustau, Pedernera, Labruna, Moreno e Muñoz. No entanto, nem a sua paixão nem os companheiros ilustres que tinha nos treinos o impediam de ir, sempre que podia, ao campo do vizinho Independiente. Aí consumia horas e horas a ver jogar um hábil, rápido e inteligentissimo jogador paraguaio chamado Arsenio Érico.

Não era o único. Durante os anos trinta e quarenta poucos futebolistas foram tão admiradores de forma unânime como Érico. O jogador detém – ainda hoje – o recorde máximo de golos marcados na liga argentina. Foram 295 mas podiam ter sido muitos mais. Em 1938, Érico liderava a lista dos melhores marcadores com 43 golos a duas jornadas do fim. Podia ter facilmente alcançado os cinquenta – o que seria um novo recorde – mas a empresa tabaqueira Cigarrillos 43 tinha prometido um substancial prémio ao futebolista que acabasse a época com 43 golos. Pensavam que era impossível mas não conheciam a Érico. Nesses dois jogos o paraguaio realizou seis assistências para golo, não marcou e levou para casa o prémio milionário, um automóvel novo.

Outros dias, outras gestas de jogadores que competiam e desfrutavam da competição, a ponto de fazer prevalecer a sua honra sobre todas as coisas. Impossibilitado de jogar pelo Paraguai – por actuar fora do país – rejeitou actuar pela Argentina a troco de uma pequena fortuna por questões patrióticas. Quando se soube a notícia, na jornada seguinte foi aplaudido de pé durante vários minutos.

O herói dos Diablos Rojos

Érico nasceu em 1915 em Assuncion, a capital do Paraguai.

De ascendência italiana, desde cedo mostrou dotes com a bola nos pés e a família permitiu-lhe alternar o trabalho na loja dos pais com os treinos no Nacional, o seu primeiro clube. Com quinze anos já chamava a atenção e o seu nome foi equacionado para representar o Paraguai no Mundial do Uruguai mas finalmente ficou em casa. Dois anos depois, quando a guerra do Charco entre o Paraguai e a Bolívia arrancou, Érico mudou-se para a Argentina, onde tinha uma importante oferta económica do Independiente.

Ainda era menor de idade e só uma autorização especial do ministro da guerra paraguaio – isentando-o do serviço militar em tempo de guerra – lhe permitiu estrear-se com os “Diablos Rojos”. Foi amor à primeira vista.

Com a mítica camisola do Independiente o dianteiro esteve oito anos, disputando 325 jogos e apontando 295 golos. A grande parte deles foram obtidos na liga argentina, da qual ainda é hoje o máximo anotador histórico.

Bicampeão nacional entre 1938 e 1939, a época do seu apogeu goleador, Érico deslumbrava os adeptos com o seu estilo técnico, a sua classe em campo mas também a sua atitude de gentleman dos relvados. Sobretudo era um jogador que dominava como poucos o jogo aéreo.

“Érico foi maior que Pelé. Eu limitei-me a ser um pequeno imitador seu” Alfredo di Stefano.

Inventou o célebre remate de escorpião, mais tarde popularizado por René Higuita num amigável entre colombianos e ingleses no Wembley, num jogo contra o Boca Juniores. Incapaz de alcançar a bola com a cabeça – a sua grande especialidade – Érico deixou-se cair e ergueu os dois pés, disparando a bola com os calcanhares para resolver o jogo, acabando com as esperanças do Boca em ser campeão.

Com ele em campo a formação da época do Independiente alcançou fama internacional. O clube realizou várias digressões pela Europa onde o “Saltarin Rojo” continuou a deslumbrar com a sua técnica. Recebeu várias ofertas de clubes italianos mas recusou todas. Em 1939, quando a guerra estalou na Europa, a possibilidade de mudar-se para o futebol europeu ficou definitivamente adiada.

Com os europeus entretidos numa guerra suicida, a magia do futebol deslocou-se de forma quase exclusiva para os relvados sul-americanos. Fez parte, com Labruna, Pedernera, Leónidas e Heleno de Freitas, do quinteto maravilha do futebol americano da década de quarenta, mantendo a sua notável forma ao serviço dos argentinos. Em 1942, depois de uma série de discussões com os dirigentes sobre os prémios de jogo, decidiu voltar temporalmente ao Paraguai. Foi recebido como um herói, alistou-se no Nacional, o seu clube de infância, e venceu o título com tremenda facilidade, voltando depois ao Independiente onde se manteve até ao final da década, quando finalmente acabou a carreira como jogador. Tinha deixado bem vincada a sua marca.

Arsenio Erico, o “Rei Escorpião”

Érico era um jogador especial, dotado de um talento inato para a surpresa.

Dele disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano que era um jogador com todos os segredos do futebol escondidos no corpo. Nas eleições aos melhores do século XX, promovidas pela FIFA no novo milénio, o paraguaio foi eleito o 49º melhor jogador de sempre, o oitavo entre os sul-americanos.

Com escassos registos audiovisuais das suas gestas, é difícil imaginar tamanho reconhecimento. E no entanto, para o público em geral, este monstro dos relvados continua a ser um imenso desconhecido.

Morreu em Buenos Aires, onde teve uma curta carreira como treinador antes de abandonar definitivamente o futebol. Já lhe tinham amputado uma perna, a esquerda, e a vida esfumou-se-lhe em vésperas de um Independiente vs River Plate, o jogo que mais prazer lhe dava disputar. Venceram os “Diablos”, como não podia deixar de ser, e depois o seu corpo foi transportado pela cidade, numa das mais sentidas homenagens de uma “hinchada” ao seu ídolo. Com ele foi a enterrar também uma era de jogadores malditos, estrelas anónimas, goleadores míticos e homens que subiam aos relvados para fazer aquilo que mais gostavam sem pensar nas consequências de desafiar os contornos da realidade.

2.448 / Por