Foi um dos maiores treinadores dos anos 30, o líder do histórico Bologna que viveu o seu apogeu nos anos do Fascismo graças à filiação de vários dirigentes ao partido de Mussolini. No entanto, nem o prestigio de fazer grande ao clube dos fascistas italianos salvou a vida a Arpad Weisz que por ser judeu passou de ser vitoriado pela sua conquista do Scudetto a acabar assassinado no campo de concentração de Auschwitz.

O génio que morreu em Auschwitz

No meio dos corpos desnutridos, rasgados pela dor e pelo sofrimento, a Humanidade despojou-se para revelar o lado mais cruel e podre da existência. Nesse drama diário que era a vida num campo de concentração nazi como o de Auschwitz, cada sombra em forma de sobrevivente era uma história dura de contar, difícil de ouvir. Poucas no entanto ecoaram tanto para a posteridade como o drama vivido por um homem que foi aclamado como um herói precisamente por aqueles que depois não tiveram piedade em enviá-lo para o seu último destino. Arpad Weisz acabou ali, em Auschwitz, como tantos milhões de homens, mulheres, crianças e idosos de todos os países por cometer o crime de ser judeu. Mas antes de ser o “hebreu” Arpad, com a estrela de David ao peito, rasgada entre a carne destruída, ele foi Weisz o génio. O homem que descobriu o talento precoce de Giuseppe Meazza. O homem que elevou ao estatuto de lenda do Calcio o clube mais afim ao movimento fascista de Itália, o Bologna. Dois clubes onde deixou a sua marca, dois clubes que, na hora da verdade, o abandonaram ao seu trágico destino.

Um filho da escola danubiana em Itália

Quando chegou a Itália, a meados dos anos vinte, Weisz era o protótipo do futebolista daquela década. Nascido na Hungria, forjado na escola centro-europeia de perfume danubiano que foi fundamental para a evolução do jogo no continente, Weisz era contemporânea de figuras ímpares que ajudaram a definir o jogo. Tomou parte dos jogos imperiais disputados antes da I Guerra Mundial  e mais tarde foi um dos grandes protagonistas da liga independente húngara, com quem disputou uns Jogos Olímpicos em 1924. Esse jogo abriu-lhe as portas de uma liga italiana que crescia a olhos vistos graças ao oportuno interesse do governo de Mussolini em fazer do futebol uma arma de propaganda.

Trocou o Maccabi Brno, um clube da comunidade hebraica a que pertencia, o equivalente checo do popular Hakoah Viena, para assinar pelo Internazionale de Milão, então um clube em ascensão. Jogou pouco, fruto de uma lesão, e depois de passar pelo Alessandria voltou à capital lombarda para assumir o posto de treinador. Não havia em toda a Europa treinadores mais reputados que os escoceses e os austríacos ou húngaros, filhos dessa filosofia alentada por Jimmy Hogan ou Hugo Meisl. Em Milão, Weisz alimentou o conjunto neruazurri dessa influencia danubiana. Procurou sempre os jogadores mais virtuosos em detrimento dos mais atléticos. Nessa busca pelo jogador perfeito encontrou um jovem Giuseppe Meazza nas equipas de formação. Não hesitou em chamá-lo para jogar com os mais velhos.

A lenda de Meazza começou sob a sua liderança a ponto de ser tornar no verdadeiro símbolo do futebol italiano desses anos triunfais.  Entre ambos ficavam horas a treinar sozinhos, a aperfeiçoar o remate e o toque. Weisz tinha 31 anos, Meazza tinha apenas 17. A conexão entre ambos foi imediata e graças a ela a equipa conquistou o primeiro Scudetto disputado sob o formato atual da Serie A, em 1930. Nunca ninguém tinha ganho um titulo em Itália como treinador tão novo – tinha 34 anos. Nunca ninguém o voltou a ganhar. O Inter, por então, foi forçado a acrescentar o nome de Ambrosiana. Uma exigência do regime fascista que, no entanto, não parecia ter problemas com a ascendência judia do seu treinador campeão. Weiz ficou apenas mais dois anos no clube – com um breve interlúdio e uma passagem curta por Bari e Novara – mudando-se para Bologna.

O Rei de Bolonha que teve de fugir

Em Reggio-Emilia, o centro nevrálgico do poder fascista, Weisz sentiu-se paradoxalmente em casa. O clube era extremamente afim ao regime e segundo muitos críticos recebia constantes ajudas arbitrais nos momentos relevantes. Certo ou não, a chegada de Weisz ajudou a elevar a instituição a outro patamar. Foi aí que o seu trabalho visionário começou a dar frutos.

Weisz escreveu um livro – com prólogo de Vittorio Pozzo, de quem era amigo – chamado “O Jogo de Futebol” em que explicava a sua filosofia e como estava adiantado décadas, falando nas vantagens de uma boa nutrição, do treino e da preparação física bem como de aulas tácticas aos jogadores. Em Bolonha a teoria converteu-se em prática. O Bologna foi bicampeão italiano e depois de humilhar o Chelsea inglês num torneio que se disputou na Expo de Paris, lançou-se ao ataque da Mitropa o único grande título que se lhe escapou, em 1937, ao serviço dos Rossoblu. Já sem a figura protetora de Leandro Arpinatti, antigo ministro de Mussolini e ex presidente da Federação Italiana, também ele reconhecido adepto do Bologna, punido pelo Duce a cinco anos de prisão, Weisz não teve forma de escapar à tragédia que marcou profundamente a sua vida.

A ativa perseguição de Hitler aos judeus na Alemanha retirou margem de manobra ao regime de Mussolini na sua política xenófoba e de perseguição às minorias raciais. Em Setembro de 1938 o parlamento romano aprovou uma lei de segregação racial que excluía a todos os judeus da condição de cidadãos e forçava o seu imediato despedimento. Archetti tentou tudo, falou-se inclusive na possibilidade de Weisz se converter mas em Outubro, chegou a temida carta de despedimento. Weisz tinha de fugir e contava com pouco tempo nas mãos.

Da glória ao holocausto

Desesperado, o treinador húngaro abandonou Bologna à pressa a caminho da Holanda, via França, uma rota seguida por milhares de membros da comunidade hebraica. Aí começou por trabalhar no  DFC Dordrechet mas a Guerra voltou a interromper-lhe os planos. A invasão do território holandês pela Wermarcht foi implacável e num dos gestos de maior cobardia histórica de que há memoria, as autoridades holandesas não só capitularam como colaboraram na denuncia e captura dos judeus que viviam no país, entregando-os aos invasores. Milhares de famílias foram enviadas de comboio a campos de concentração. A esmagadora maioria nunca voltou. Entre eles estava Weisz e a família, a mulher Elena e os filhos Roberto e Chiara. Depois de meses a jogar ao gato e ao rato com as SS, foram detido e remetidos a um campo de concentração temporário na fronteira, em Westerbrook. O seguinte e definitivo passo da família Weisz foi o temível centro de Auschwitz. A tragédia da família durou pouco.

Dias depois de chegar ao centro, tanto Elena como os pequenos foram gaseados e os seus corpos despojados numa fossa comum. Weisz foi mantido vivo para trabalhar nas fornalhas do centro, durando um ano e meio até acabar por ser também ele um dos milhões de judeus assassinados pelos alemães, poucos meses antes do fim da guerra. Como tantos outros, o seu nome parecia condenado ao esquecimento. Em Itália, a associação ao regime do Inter e do Bologna, clubes que ajudou a elevar ao estatuto de lenda, de nada lhes valeu e nos anos posteriores, o sentimento de culpa corroeu ambas instituições a ponto de se instalar um cómodo silêncio. Até que a verdade se foi destapando e o nome de um dos mais importantes treinadores da história do Calcio reabilitado nos últimos anos, não só pelos dois clubes mas pela sociedade italiana em geral.

Weisz, fundamental na evolução do jogo ao mesmo nível que outros técnicos como Hogan, Chapman, Arkadiev, Pozzo ou Meisl, foi também o primeiro grande treinador a abandonar o traje a favor do fato de treino, talvez porque nunca se esqueceu que antes de mentor tinha sido também ele futebolista. Um nome que merece ser recordado pelo que foi. Uma vitima do Holocausto mas, também, um dos primeiros “magos da táctica” da história do futebol.

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