Deixou de assaltar bancos para transformar-se no gladiador dos estádios de futebol jugoslavos. Figura sinistra da guerra dos Balcãs, viveu e morreu sob os desígnios da sua paixão futebolística que pintou com o mesmo sangue com que eliminou rivais no campo de batalha. Durante mais de uma década, Arkan foi sinónimo de medo na antiga Jugoslávia.

O ladrão de bancos que se tornou soldado

Quando o pai de Zeljko Raznatovic se fartou de receber noticias sobre as prisões e fugas do filho, decidiu tomar medidas extremas. Elemento influente do governo jugoslavo da etapa final de Tito, forçou o regresso do filho da Europa Ocidental e obrigou-o a aceitar um posto como agente dos Serviços Secretos jugoslavos. Zeljko, que por então já era conhecido um pouco por todo o submundo europeu como Arkan, acedeu. Não gostava do pai mas era consciente que tinha jogado no limite demasiadas vezes.

Dos 14 aos 33 anos foi preso por várias vezes na Holanda, Bélgica, Suécia e Alemanha por assaltos a bancos. Era um dos criminosos mais procurados do continente. Cada vez que era detido conseguia escapar-se. Em 1986 disse chega e voltou a Belgrado. Abriu uma padaria na rua do estádio Marakana, onde jogava o seu amado Estrela Vermelha, e começou a trabalhar para os homens do Estado de forma oficial.

Na década seguinte foi soldado, dentro e fora dos cenários de guerra, revolucionou o movimento hooligan jugoslavo e desafiou o establishment local. Custou-lhe a vida mas permitiu-lhe tornar-se num ídolo num país sem rumo, pintado a sangue e gritos de golo.

No lado sangrento da guerra dos Balcãs

Arkan era um ídolo para os Delije, o nome da claque hooligan do Estrela Vermelha.

Os seus feitos ecoavam na memória do estádio de um clube que vivia a sua época dourada com uma equipa onde pontificavam jovens promessas como Robert Prosinecki, Dejan Savicevic ou Vladimir Jugovic. Por indicações do recém-eleito presidente sérvio, Slobodan Milosevic, o antigo assaltante de bancos tornou-se no líder da claque com o objectivo de os treinar para serem o braço armado do regime. Milosevic já conhecia de antemão que o final da Jugoslávia estava próxima. Croatas, eslovenos e bósnios tinham deixado claro, depois da morte de Tito, que queriam seguir o seu caminho e Belgrado não estava disposto a permiti-lo facilmente. Mas para vencer precisavam de agir primeiro e estar preparados para todos os cenários. O futebol tornou-se no cenário inaugural de guerra e Arkan, o primeiro general no terreno.

Arkan ensaiou o seu poder na final de Bari, onde contra todas as expectativas o onze jugoslavo bateu, em penaltis, o Olympique Marseille. Um título europeu que chegou, talvez, demasiado tarde. Os tambores de guerra já se faziam ouvir. Nas bancadas, gritos nacionalistas e bélicos acompanhavam os festejos, apesar de haver jogadores croatas e bósnios no plantel do Estrela Vermelha. Meses depois a guerra começou. Em Zagreb. Com Arkan à frente das suas tropas. Um duelo contra o Dinamo Zagreb terminou em batalha campal numa luta entre os Bad Blue Boys (o grupo hooligan nacionalista croata que apoiava o clube) e os recém-baptizados Tigres do Estrela Vermelha. Na semana seguinte, Arkan exibiu no Marakana um sinal de trânsito de Zagreb como triunfo de batalha. A Eslovénia já se tinha declarado independente, os croatas seguiram-no e os primeiros mortos deram lugar ao confronto aberto armado.

Inevitavelmente, os Tigres, como qualquer milícia popular sérvia, juntaram-se na linha da frente. Foram responsáveis por vários crimes de guerra, de Vukovar – onde assassinaram mulheres e crianças internadas num hospital croata – a Bijeljina, assassinando muçulmanos bósnios nas suas casas. Em cada batalha ganha, despojos de guerra eram exibidos nos jogos em casa do Estrela Vermelha. À medida que o conflicto avançava, com triunfos sérvios e croatas a sucederem-se a um ritmo diabólico e sangrento  os Tigres tornaram-se num dos pesadelos das populações locais, conhecedoras da sua extrema violência e falta de escrúpulos.

Tornou-se anos mais tarde nos dos principais objectivos do Tribunal de Haia mas nunca chegou a ser levado a julgamento. Ninguém sabe quantas mortes provocaram os milicianos mas quando Arkan voltou a Belgrado, em 1996, o botim do conflito permitiu-lhe tentar comprar o Estrela Vermelha. O presidente não aceitou a oferta – o governo de Milosevic não estava interessado em ver o clube do estado nas mãos de um homem tão imprevisível – e face à recusa, Arkan voltou-se para um pequeno clube de Belgrado esquecido por todos. Fez dele o terror do futebol jugoslavo durante três temporadas e abriu um novo capítulo na sua conturbada vida.

Obilic, o terror futebolístico

O Obilic era um clube antigo mas sem palmarés. Barato, para quem queria entrar no mundo do futebol, mas com o prestigio suficiente para não ser um negócio de grande risco. Nas mãos de Arkan tornou-se num pesadelo.

O miliciano nomeou-se presidente e investiu na equipa o suficiente para garantir na primeira época a promoção à liga principal da Jugoslávia (então só composta pela Sérvia e Montenegro). No ano seguinte venceram o título. Um triunfo surpreendente, à primeira vista, que esconde os métodos habituais de Arkan. O estádio do Obilic transformou-se no pesadelo de todas as equipas rivais que chegavam a encontrar homens armados nos corredores, gás tranquilizante nos balneários e, quando era necessário, a presença do próprio Arkan, com a sua inseparável metralhadora, a ameaçar diretamente jogadores de que se prejudicassem a sua equipa não sairiam vivos de Belgrado. Nas bancadas os Tigres vigiavam o jogo armados para garantir que tudo corria bem e nos jogos fora de casa, muitos eram os futebolistas que desapareciam dias antes do encontro para ser encontrados dias depois, abandonados à sua sorte, vitimas de raptos selectivos. Na última jornada do campeonato, num duelo directo com o Estrela Vermelha, o Obilic precisava de vencer o seu jogo ou empatar, caso o rival do campeão em título vencesse também. Dois dias antes do encontro o presidente do Zeleznik foi abatido a tiro em Belgrado e os jogadores entenderam a mensagem, vencendo o rival por 2-1, o que permitiu ao Obilic empatar e sagrar-se campeão. Foi o primeiro e último título de um projeto que caiu imediatamente debaixo da suspeita da UEFA.

Arkan abandonou a presidência, que entregou à mulher, a polemica cantora pop Ceca, e dedicou-se a trabalhar na sombra em prole do seu clube. Mas o seu exemplo tinha deixado os restantes clubes temerosos suficientes para recorrer igualmente a máfias jugoslavas e cada jogo tornou-se num campo de batalha com ajustes de contas selectivos. Em 2000, dois anos depois do título conquistado, Arkan foi abatido a tiro à porta do seu café, supõe-se ainda hoje que por assassinos contratados por um clube rival a quem teria ameaçado dias antes. Foi o final do reinado de terror do Obilic mas, longe disso, da instabilidade vivida no futebol jugoslavo. Com os clubes controlados por forças políticas e máfias, tanto na recém-nomeada Sérvia como igualmente nos casos de instituições croatas, bósnia e montenegrinas, o futebol do país que se auto-intitulava orgulhosamente como o “Brasil europeu” foi perdendo vida e emoção e caiu nos sucessivos escalões do futebol europeu. O passado sangrento de Arkan tornou-se apenas no exemplo mais extremo de uma realidade que deixou feridas que ainda não sararam de forma completa.

6.097 / Por
  • Gil Von Doellinger

    Futebol Magazine e Em Jogo: verdadeiras fontes de sabedoria e cultura futebolística. Pequenas grandes pérolas.

    Fico verdadeiramente espantado com a tua cultura futebolística e dá-me vontade de perguntar: porque não e para quando um livro?

    • Miguel Lourenço Pereira

      Gil,

      Obrigado pelas amáveis palavras. Quanto à pergunta, a ideia está no ar, veremos como se desenvolve.

      um abraço

  • Ronaldo Pereira da Rocha

    Vocês são excelentes!Parabéns!

    • Miguel Lourenço Pereira

      Obrigado Ronaldo,

      um abraço