Francesco Totti é o último de uma memorável estirpe de futebolistas de excelência que nos seus dias de jogador foram aplaudidos por todos e coroados como o vigente “Rei de Roma” do futebol numa cidade que raramente se põe de acordo em algo e que tem uma larga tradição contra a ideia de um rei único. No entanto, esse epíteto futebolístico tem quase oitenta anos de história quando Amadeo Amadei se coroou por primeira vez como o máximo príncipe futebolístico da capital italiana.

O primeiro Totti

Bruno Conti. Francesco Grazziani. Francesco Totti.

Desde os anos oitenta a capital romana tem visto passar jogadores de uma classe interminável que, com a camisola da Loba, se converteram em simbolos da cidade, das suas gentes e da sua geração. Totti, um dos mais completos e memoráveis futebolistas italianos de todos os tempos, é o último dessa estirpe e olhando à sua volta é dificil pensar que vai ter um sucessor imediato da mesma forma que na sua tenra juventude pôde tomar nas mãos o testemunho de Grazziani que, por sua vez, cresceu ao lado de Conti, um dos maiores artistas da história da Serie A. Essa linhagem de deuses do futebol, artesãos do golo, do passe e das celebrações icónicas tem sido seguida de forma linear desde inicio dos anos oitenta mas a sua origem é muito mais antiga. “Roma não aceitará nunca mais um Rei” terá dito há mais de dois milénios e meio a figura memorável de Brutus, o homem responsável pelo fim da monarquia dos Tarquinios e da instauração da República Romana. De facto, depois de uma etapa gloriosa Roma não teve apenas reis mas sim imperadores e papas, figuras transversais cuja influência ia muito para além da própria cidade mas o conceito de ter um rei próprio e exclusivo nunca foi bem aceite pelos romanos, ciosos da sua memória histórica. Talvez por isso seja raro encontrar alguém tão consensual como para poder presumir ser considerado o “Rei de Roma” em algo, muito mais no futebol onde a Lazio – cuja implementação é mais forte na província do que na urbe – também tem uma palavra a dizer. Esse conceito quase monárquico no entanto forjou-se entrados os anos trinta quando o país vivia ainda numa monarquia encoberta pelo governo de Mussolini e quando a AS Roma – o clube que uniu todos os pequenos escudos da capital salvo pelo da rebelde Lazio – se começou a converter numa potência nacional, a única ao sol da Toscânia. Tudo graças ao génio, aos golos e à liderança do seu primeiro rei, de Amadeo Amadei.

Amadei, o príncipe do Calcio dos anos 40

Amadei nasceu a 26 de Julho de 1921 em Frascatti, uma cidade da provincia de Roma, e cedo desenvolveu um talento inato para a prática desportiva, especialmente com a bola nos pés depois de se ter emocionado ao ver os seus ídolos jogar no Mundial organizado em 1934 no seu país natal, torneio que coroou uma geração de ouro do futebol italiano que na altura dava já cartas nos torneios de clubes internacionais como a Taça Mitropa. Depois desse torneio, Amadei decidiu por em prática aquilo que tinha visto jogadores como Guaita fazer à frente dos seus olhos e cedo mostrou aptidões chegando rapidamente à formação romana, recém criada anos antes e que nos anos 30 se começava a fazer sentir como potência desportiva. Contra a vontade do pai, padeiro de profissão, fazia o percurso entre a sua cidade natal e o Testaccio, o campo de jogos da Roma, em bicicleta antes de voltar para trabalhar no forno familiar. Só graças à ajuda do irmão mais velho é que conseguiu esconder da família as suas escapadas futebolísticas até que uma carta oficial da Roma a solicitar a sua inscrição definitiva o colocou definitivamente sob a ira paterna que, ainda assim, permitiu que vestisse a camisola gialorrossa por primeira vez  num 2 de Maio de 1937, com apenas 15 anos e 280 dias o que o converteu no mais jovem futebolista de sempre a jogar na Serie A – até à chegada de Pellegrini, Dezembro de 2016 – e deu inicio a uma história de amor de doze anos com a camisola romana apenas interrompida por um breve interlúdio de uma época em Bergamo. Uma semana depois apontou o seu primeiro golo como profissional recorde esse ainda imbatido.

Amadei era um avançado veloz, tecnicista e com um faro de golo impressionante que, no entanto, sabia controlar os tempos de jogo movendo-se por todo o terreno com soltura. Era a antitese do seu grande rival goleador, Silvio Piola, que com a camisola do eterno rival romano, a Lazio, se converteu nesses dias no máximo goleador da história da Serie A, um recorde que permanecerá imbatido durante largos anos e ao qual nem sequer Francesco Totti logrou alcançar. Piola era um killer de área, um tanque. Amadei um talento nato e um jogador explosivo que ocupava bem o espaço e que também o sabia criar como poucos. Nos dois anos seguintes foi-se transformando numa figura importante da Roma mas em 1938 o serviço militar obrigou-o a transferir-se por uma época para a cidade lombarda de Bergamo, onde disputou uma época a Serie B com a camisola da Atalanta. Regressado a Roma preparou-se para viver a sua grande experiência profissional quando a II Guerra Mundial colocou um parêntesis nas suas ambições.

O responsável do primeiro Scudetto da Roma

O futebol italiano tinha sido o senhor indiscutido dos anos 30, vencendo dois dos três Mundiais disputados – a Itália não participou no torneio inaugural – e vários troféus da Taça Gero, de selecções, e Mitropa, de clubes, frente aos seus principais rivais danubianos, os checos, húngaros e austríacos. Tudo indicava que o seu dominio iria prosseguir nos anos quarenta mas o início do conflito mundial a larga escala precipitou o fim dessa icónica geração e lançou o fantasma do campo de batalha sobre vários dos seus desportistas de elite. Amadei era um deles.

Nos dois primeiros anos do conflito o campeão continuou a ser disputado com normalidade mas a Roma de Amadei não logrou melhor que um sétimo lugar em 1939/40 e um 11º no ano seguinte, muito longe das equipas de topo. Nesse ano, no entanto, Amadei começava a despontar definitivamente como goleador e com apenas 19 anos termina a Serie com a impressionante cifra de 18 golos. Na seguinte época tudo mudou. A Roma contratou o albanês Kriezu e o argentino Pantó para acompanharem Amadei no ataque, beneficiando da brilhante organização defensiva proposta pelo técnico Schaffer que garantiu que a equipa acabaria o torneio com a defesa menos batida. Graças a um modelo de jogo veloz e de contra-ataque a Roma rapidamente se lançou na liderança da Serie A numa luta taco a taco com um Torino que ainda não contava nas suas filas com o génio de Loik e Mazzolla mas que já alinhava a vários dos elementos que formariam o mítico Il Gran Torino. Os dois clubes chegaram empatados até bem ao final do campeonato quando os golos de Amadei se revelaram decisivos para superar o Inter-Ambrosiana de Giuseppe Meazza ao mesmo tempo que o Torino caía precisamente contra um Venezia onde brilhavam Mazzolla e Loik. O Scudetto, o primeiro da história do clube romano, chegou também acompanhado do título de Capocanonnieri para Amadei que repetiu a marca de 18 golos oficiais. A cidade celebrou em clima de guerra um triunfo mítico e Amadei, com apenas 21 anos recém-cumpridos parecia destinado a viver uma carreira de sonho. Mal sabia que cedo tinha chegado o seu apogeu.

Do Scudetto ao exílio passando por Superga

Do céu ao inferno passaram poucos dias. Precisamente um ano depois, num tenso jogo contra o Torino, Amadei envolveu-se numa jogada dividida em que acabou o guarda-redes turinês, Masseroni, no chão, golpeado com um murro no estômago. Amadei foi expulso e irradiado apesar de se ter provado depois que fora Dagianti, um centrocampista romano e não o avançado, o responsável do feio golpe. À suspensão, levantada meses depois numa amnistia geral, juntou-se a destruição do negócio familiar aquando da marcha do exército aliado sobre Roma que deixou a família do atleta praticamente na miséria. Eram dias dificeis que se faziam sentir em Roma como em nenhum lado e de longe Amadei via como na rica cidade turinesa o seu histórico rival se lançava rumo a um período de máxima hegemonia de títulos que apenas terminaria no desastre aéreo de Superga.

Os anos quarenta fizeram-se largos e apesar de continuar a superar os seus registos goleadores temporada atrás de temporada, Amadei via-se incapaz de elevar de novo a Roma ao título. A situação era de tal forma insustentável que em 1948 o clube romano foi forçado a aceitar uma oferta do Internazionale pelo jogador, utilizando o pagamento para regularizar várias das dívidas que tinha acumuladas nesses dias do pos-guerra. Na mesa tinha estado também uma oferta do Torino que sonhava com uma dianteira formada por Loik, Mazzolla e Amadei mas o jogador preferiu a opção de jogar pelo Inter do que partilhar ataque com o mitico Valentino. Uma decisão que lhe salvou a vida. Nove meses depois a equipa do Torino pereceria em Superga. Em dois anos com a camisola neruazurri, Amadei marcou quase meia centena de golos e em 1950 mudou-se para o sul, desta vez para assinar pelo Napoli, com quem esteve a ponto de conquistar o seu segundo Scudetto, perdido por quatro pontos na época 1952/53. Com os 30 anos recém-cumpridos, Amadei parecia ainda jovem mas acabou apenas por jogar mais três anos com a camisola napolitana antes de formalizar em 1956 a sua retirada oficial tendo pelo menos tido o gosto de participar num Mundial, no Brasil, ainda que sem pena nem glória.

O primeiro de vários Reis de Roma

Abandonados os relvados, Amadei converteu-se num treinador altamente respeitado no Calcio. A fama que tinha alimentado de “Bambino de Oro” garantia-lhe a admiração de quase todos os clubes e com o desaparecimento da equipa do Torino ele parecia ser o único sobrevivente de excelência daqueles complexos anos 40. Durante três anos treinou o próprio Napoli antes de enveredar pelo banco de vários clubes da zona sul até que em 1972 aceitou o desafio de ser seleccionador da equipa feminina italiana, cargo onde se manteve durante seis anos quando, aos 56 anos decidiu finalmente formalizar a sua aposentadoria, convertendo-se numa figura de contornos quase mitológicos de uma renascida Roma da qual foi senador emocional e vitalício até ao seu falecimento, com 92 anos, em 2013. Nesse período de quase três décadas deu a sua aprovação sentimental primeiro a Conti, mais tarde a Grazzini e por fim a Totti como genuínos herdeiros da sua tradição. Com a excepção de Grazziani, tanto Conti como Totti lograram emular o seu génio de Frascati devolvendo a Roma aos grandes títulos, conquistando cada um o Scudetto que Amadei portou ao peito com as cores da loba. Qualquer que seja o sucessor futuro de Francesco Totti, o futuro “Rei de Roma” será sempre um mais numa linhagem inesquecível que começou a forjar-se nas pesadas botas de um monarca indiscutível de outros tempos.

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