Alumni, a primeira grande equipa sul-americana

Parece contraditório que o país que maior rivalidade desenvolveu com os ingleses no relvado tenha sido o que mais bebeu da sua influencia nos seus primórdios. Na Argentina todo o futebol soa a inglês. Tudo, desde o primeiro golo, o primeiro grande onze. O onze do Alumni Athletic Club, o primeiro grande clube mundial fora das ilhas britânicas.

Os estudantes exemplares

Sobre o jardim cuidado, sobre esse tapete verde improvisado, a bola circulava velozmente, de pé para pé, à medida que a legião avançava linhas, ultrapassava obstáculos. Desde a linha de fundo imaginária, os gritos de um homem, um escocês com voz de whisky, alentavam a que seguissem, a que fossem um pouco mais longe. Alexander Watson Hutton gritava, os rapazes no jardim ouviam e a bola movia-se, cada vez mais depressa. O futebol tinha chegado à Argentina antes de Di Stefano, antes de Maradona, antes de Messi. O futebol tinha chegado na mais pura e britânica das versões. Para mudar para sempre o adn das pampas e para criar uma rivalidade histórica repleta de matizes freudianos.

Nessas tardes no Buenos Aires English High School, os meninos bem da colónia britânica e das famílias endinheiradas bonaerenses começavam a sentir que nas veias a bola palpitava ao mesmo tempo que o sangue. Tinham encontrado em Hutton – um professor dos novos tempos, adepto profundo do exercício físico e dos desportos viris como o rugby e o futebol que decidirá fundar o colégio porque o seu rival, o St. Andrews, não estava disposto a incluir o desporto no curriculum – o seu maestro. E eles eram os alunos, os orgulhosos alunos. A génese dos Alumni Athletic Club, o clube que deu asas ao futebol americano.

A escola escocesa na América do Sul

Com Hutton chegou a Buenos Aires o perfume do futebol escocês, por oposição ao jogo inglês. E vieram mais professores, mais missionários do passing game como William Waters. Entre os maestros escoceses e os alunos locais teceu-se um elo emocional fortíssimo que em campo se fazia notar em cada movimento, cada golpe de magia. As suas exibições fizeram escola, atraíram multidões e deitaram a semente que outros colégios, outros clubes decidiram colher. Em 1891, sete anos depois da fundação do colégio, havia equipas suficientes em Buenos Aires para formar uma primeira liga. Para formalizar a nova competição forjou-se a primeira encarnação da federação argentina, com a sua nomenclatura inglesa, Argentina Football Association (hoje Associon de Fútbol Argentino).

O desnorte dos primeiros torneios era proporcional à falta de experiência dos seus organizadores e durante os cinco anos seguintes a maioria das edições seria abandonada ou atribuída com jogos por disputar. Mas com o dealbar do novo século veio um novo sopro de ar fresco de dirigentes visionários no futebol de Buenos Aires e com eles chegou em força uma nova geração de estudantes da Buenos Aires English High School dispostos a marcar a diferença. Liderados pelos irmãos Brown – Eliseo, Ernesto, Carlos, Alfredo e Jorge,cinco dos melhores futebolistas da saga balompédica sul-americana e pilares da primeira seleção argentina da história – os recém-baptizados Alumni Athletic Club venceram o campeonato de 1900 com uma autoridade nunca vista, sem perder um só jogo. O novo nome iria marcá-los para sempre e era resultado da proibição governamental de que os clubes amateurs fizessem referencia a institutos públicos ou privados. Para contornar a lei nada como reforçar a condição de discípulos dos maestros escoceses.

A saga dos Alumni da família Brown

A gesta de 1900 repetiu-se nas três épocas seguintes (duas das quais, de novo, de forma invicta) e uma vez mais um tricampeonato entre 1906 e 1909. Dois títulos perdidos numa década – em ambos os casos por um ponto – deixavam claro o abismo que separava os Alumni dos seus principais rivais, clubes como Quilmes, Lanus, Estudiantes ou Belgrano. Fiel ao clássico 2-3-5, o jogo ofensivo dos Alumni era demolidor, sobretudo graças à forma como Jorge Brown organizava a equipa desde a posição central do meio-campo, a que mais tarde se consagrou debaixo da denominação do “5”. Atrás dele compunha-se uma geração de excelência de amadores forjados nas aulas de Hutton e Waters, fisicamente possantes e tecnicamente extremamente hábeis. A sua fama era tal que quando o River Plate uruguaio conseguiu derrotar num amigável o colectivo dos Alumni, a federação do Uruguai decidiu que o seu equipamento – camisola azul celeste e calções negros – passariam a ser os do combinado nacional em vez do usado até então, celeste e branco tal como o dos seus rivais argentinos. Ganhar aos Alumni dava essa aura mítica, algo que só sucede com equipas que têm escrito a letras de ouro o seu lugar na história.

A história de sucesso dos irmãos Brown e dos seus colegas ficou marcada por doze anos de sucessos retumbantes. Eram futebolistas de excepção e por serem a excepção e não a regra, a sua fugaz e brilhante carreira tinha fim à vista. Ao contrario dos seus principais rivais e dos novos clubes fundados longe do sistema educativo e perto das massas de emigrantes na zona portuária, os Alumni nunca se mostraram preocupados em formar uma cultura de clube, uma continuidade. Viviam de uma geração única de alunos e desportistas e do seu espírito de iniciativa. Quando já não estivessem, não havia ninguém à altura para pegar na herança e seguir. Era o preço a pagar por um modelo purista e totalmente amateur no meio de um desporto que caminhava a passos largos para outra dimensão.

Em 1911 os Alumni recuperaram o titulo nacional. Mantiveram-no nas duas épocas seguintes assinando o seu terceiro tricampeonato. E depois fecharam portas. O desgaste da idade começava a fazer-se notar nas suas principais figuras. A falta de rendimentos – todos os prémios e receitas iam diretamente para obras de beneficência – condição básica da sua essência amadora, também não ajudava a manter o ritmo de investimento que os rivais iam fazendo nas suas instalações e no reforço da primeira equipa. Sem alunos suficientes para seguir o projeto, a 24 de Abril de 1913 formalizou-se a dissolução oficial dos Alumni. O primeiro gigante do futebol mundial fora do futebol britânico caía assim, em silêncio, por vontade própria.

O principio de “La Nuestra”

A herança histórica dos Alumni ajudou a moldar a cultura de jogo argentino nas décadas seguintes. Face à crescente popularidade dos clubes populares como o Boca Juniores e River Plate, a nostalgia provocada pelos Alumni criou nos adeptos, dirigentes e jornalistas uma sensação de união que sobrevivia ao constante clima de tensão do jogo no país. Da sua base original saiu o conceito de “La Nuestra”, a forma típica argentina de jogar que tinha atingido o seu primeiro ponto alto com esta equipa de alunos dedicados e apaixonados pelo beautiful game.

O futebol argentino, e não só, seguiria outro caminho distinto daquele proposto pelos discípulos aplicados do English High School mas o seu ADN estaria para sempre na memoria dos futuros deuses do futebol que fizeram das “canchas” argentinas um espaço sagrado!

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