Altona 93, o novo St. Pauli

Nas últimas décadas o FC St. Pauli transformou-se no clube alternativo por excelência do futebol europeu. Capaz de congregar militantes de extrema-esquerda, filhos da cultura punk, liberais e marxistas, o clube de Hamburgo era o último reduto dos alternativos. Era. Hoje, quem quer atravessar o lado selvagem do futebol fá-lo com as cores do Altona93!

Altona 93, os rebeldes do futebol

A caveira nas paredes, o grito nos pulmões.

Nas bancadas não há como enganar-se. Velhos resistentes da cultura punk, com os seus casacos de cabedal, tatuagens e memórias de outros tempos. A sul uma bandeira com o “arco-iris” gay, tão pouco habitual nos estádios e um grupo de transexuais saltando ao som de um tema engolido pelo frio. Há camisolas do Che, de Lenin, Marx e dos piratas das caraíbas. Num cenário mais parecido a um festival de rock alternativo, o futebol é a religião. Podiamos estar no Millerntor-Stadion. Entre os fãs mais hardcores do futebol europeu, os rebeldes do FC Saint-Pauli. Mas não estamos.

Em vez do histórico recinto da zona portuária de Hamburgo, o poiso perfeito para os outsiders do futebol, este grupo inesperado de adeptos reúne-se regularmente um pouco mais a sul, no Adolf-Jäger-Kampfbahn. O estádio do Altona93, o clube que se transformou no novo St. Pauli do futebol alemão (e europeu), o novo reduto dos rebeldes mais radicais da comercialização do beautiful game.

Herdeiros do FC St. Pauli

Altona é um bairro humilde numa cidade que transpira vida por todos os poros.

Dentro do panorama social alemão, Hamburgo é um mundo à parte. É o porto por excelência de um país que sempre teve complexos com a sua ligação marítima, preferindo o refúgio dos seus rios, lagos e montanhas. É uma porta para a multiculturalidade desde a época medieval. Um fluxo de ideias, sensações e experiências que dão à cidade um contorno mítico que muitos alemães são incapazes de compreender. Talvez por isso tenha sido inevitável o nascimento do clube mais alternativo do futebol alemão (e europeu) com vistas para o seu porto mágico. A partir dos anos 60, com a revolução social da geração do baby-boom a assaltar as ruas de toda a Europa, a cidade de Hamburgo soube transformar-se num bastião da cultura alternativa. O FC St. Pauli era o seu símbolo mais internacional.

Nas bancadas do modesto estádio de um clube que cresceu e sobreviveu à sombra do seu poderoso vizinho, o Hamburgo SV, juntava-se o que a elite burguesa tratava como a escória da cidade. Os renegados, as prostitutas, os homossexuais, os punks, os extremistas radicais de esquerda e os humildes trabalhadores das docas. Tudo num mesmo saco de emoções e causas. Durante trinta anos foi assim, um reduto de algo que só o futebol era capaz de interpretar sem preconceitos. E durante esses trinta anos o FC St. Pauli foi o clube que todos os adeptos queriam ter. Até agora.

Nos últimos anos a massa de adeptos do FC St. Pauli tem vindo a decrescer a olhos vistos. Apesar das imaginativas coreografias, dos grafittis atualizados às portas do seu estádio em renovação, há um ambiente diferente no ar. A velha guarda já não está ali. Mudou-se para onde entendia que o conceito de apoiar um clube de futebol local, sem ambições maiores do que ser algo diferente ainda fazia sentido. O St. Pauli tinha-se rendido ao poder comercial da sua imagem. Demasiado marketing para demasiada gente suportar. O pequeno projeto tinha-se tornado grande aos olhos dos interesses financeiros. E desinteressante para quem não queria trocar a alma por uns tostões.

O valor de um clube para a comunidade

Com a decadência do seu vizinho ilustre, o Altona 93 renasceu das cinzas.

Não é um novato nestas coisas do futebol alemão. Foi, aliás, um dos primeiros emblemas históricos do país que até aos anos 50 olhou para o futebol com esse ar suspeito de quem não quer ter nenhuma ligação com um produto britânico. A sua fama é tal que foi no seu modesto estádio – ainda hoje modesto, ainda hoje alternativo – que se disputou o primeiro internacional do que então se podia chamar a seleção da Alemanha. Outros tempos. Hoje a Mannschafft faz parte dessa máquina de fazer milhões e o Altona93 sobrevive na Oberliga de Hamburgo, a quinta divisão do país. Mas a cada dia que passa as bancadas vão ganhando cores e emoções perdidas.

A chegada ao clube de vários entusiastas do modelo do St. Pauli serviu para despertar consciências.

Tal como sucedeu com o seu vizinho, o Altona transformou-se rapidamente num símbolo local, num modelo de integração. As suas equipas de formação (bem como outras modalidades que se organizam dentro do clube) são uma importante porta de entrada para jovens de comunidades emigrantes conseguirem integrar-se na cidade. Vencer neste pequeno pedaço de relva a céu aberto, não é de longe o que mais conta.

Os velhos heróis da época histórica do St. Pauli, os adeptos mais alternativos da Alemanha, congregam-se agora para celebrar esse espírito de comunidade cada quinze dias. Não há neste projeto desportivo qualquer ambição de sonhar com os palcos dourados da Bundesliga. Sobreviver aos tempos, integrar e desfrutar são as palavras de ordem que as paredes cinzentas do Adolf-Jager-Kampfbahn pronunciariam se pudessem. Para elas o sonho de um futebol diferente também passa pela memória do homem que lhes dá nome, um dos primeiros grandes jogadores do futebol alemão, morto, ao desmantelar uma bomba aliada que tinha caído num infantário do bairro, para evitar a morte das crianças que jogavam nas ruas com bolas de trapos e sonhos de um futuro melhor.

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