Em 1963 um jogador chegou à final da Taça dos Campeões Europeus com mais golos a seu nome que todos os futebolistas da equipa contrário. Um cenário único que nunca se voltou a repetir. José Altafini selou a sua lenda nessa tarde com outros dois golos a favor. Ele sozinho superou na lista dos marcadores os restantes clubes rivais com o Benfica à cabeça.

Estrela á sombra de um tal Pelé

Pelé e Garrincha deram ao Brasil o titulo de campeões do Mundo em 1958 com o seu génio precoce e electrizante. Atrás de si estava uma equipa repleta de jogadores de primeiro nível mundial. Alguns deles foram eternamente ofuscados pelos jovens Edson e Mané, a tal ponto que muitos perderam a percepção do seu real valor. Entre essas estrelas sul-americanas estava José João Altafini, um dos mais espetaculares goleadores da história do futebol. Ofuscados pela nova geração de estrelas locais, jogadores como Altafini tiveram de procurar um caminho alternativo para converter-se em figuras legendárias. No seu caso implicava cruzar o Atlântico e desenhar uma nova identidade.

Nos seus primeiros, no futebol brasileiro, Altafini era conhecido por todos como “Mazzolla”, fruto da sua parecença física com o génio do Torino falecido no acidente de Superga, uma década antes. Foi nesses anos, com a camisola do Palmeiras, que o ainda adolescente – ainda hoje é o mais jovem marcador em jogos oficiais na história do clube, tinha 17 anos – forjou a sua lenda como goleador ao bom estilo histórico canarinho, assinando quase uma centena de tantos por 114 jogos disputados. Números estratosféricos que fizeram dele um dos principais candidatos a ser titular no Mundial a disputar na Suécia, na Primavera desse ano de 58. Foi precisamente como Mazzolla que o avançado se estreou como titular no torneio. Para não escapar á regra marcou dois golos na estreia do Brasil contra a Áustria. Uma inoportuna lesão nesse jogo afastou-o até ao duelo dos quartos-de-final. Isso e a explosão definitiva de Pelé, com quem partilhava já uma sã rivalidade no futebol paulistano. Edson Arantes de Nascimento acabou por ser a figura decisiva do torneio e José “Mazzolla” Altafini não voltou a jogar. O primeiro titulo brasileiro seria também o seu único. O seu destino estava agora numa nova vida, em Itália.

O goleador de serviço de um Milan histórico

Ao contrário do que muitos podiam imaginar, o AC Milan não contratou Altafini pelas suas exibições no torneio disputado na Suécia. Como era habitual entre os clubes italianos, todos os jogadores de ascendência transalpina eram seguidos com atenção e quando o Brasil fez uma série de jogos amigáveis de preparação para o torneio em Itália, os dirigentes do Milão ficaram convencidos que este Mazzolla não era tão diferente do original em termos de eficácia goleadora. O jogador foi contratado antes do inicio do Mundial e apresentou-se dois meses depois em San Siro. A partir desse momento seria, definitivamente, Altafini e com a camisola rossonera começou uma larga história de êxito que o levaram a acumular uma série de recordes, o mais emblemático dos quais o ser, ainda hoje, empatado com outro ídolo milanês, Giuseppe Meazza, o maior goleador histórico da Serie A com 216 golos a seu nome ao largo de quase 20 anos passados em Milão, Turim e Nápoles.

Graças á eficácia de Maldini na defesa, ao génio absoluto de Rivera no meio-campo e aos golos de Altafini, Nereo Rocco conseguiu montar uma equipa para a posteridade, pegando na herança de Gippo Vianna, o pai do catenaccio italiano. Altafini deixou sempre a sua marca, ultrapassando os vinte golos por ano em temporadas consecutivas até que em 1962 conseguiu finalmente o titulo de Capocanonieri. Nesse mesmo ano o Milan foi, finalmente, o vencedor do Scudetto. Na cidade todos esperavam agora o assalto ao título europeu, competição onde os rossoneri tinham sido finalistas vencidos em 1958, meses antes da chegada do brasileiro á Lombardia. Altafini – que entretanto tinha adotado a nacionalidade italiana e disputado o Mundial do Chile com a “Azurra”, sem grande êxito – foi fundamental para que o sonho se cumprisse.

Um recorde de 50 anos

A estreia do Milan na edição 1962-63 da Taça dos Campeões Europeus ocorreu a 12 de Setembro contra o Union Luxemburgo, em casa. Altafini marcou cinco dos oito golos, sendo um dos oito futebolistas que até hoje lograram essa cifra na competição. Ninguém marcou mais. Outro hat-trick na segunda mão consolidaram-no de imediato como o melhor marcador do torneio com larga vantagem sobre os demais. Ainda o Benfica não se tinha estreado na prova, algo que, como campeão, ocorreu na ronda seguinte onde os encarnados eliminaram o Norkoping. O Milan, por sua vez, superou um dos rivais mais exigentes, o Ipswich Town de Alf Ramsey mas o protagonista da eliminatória foi Barison, autor de três dos quatro golos italianos. Nos quartos-de-final o goleador brasileiro voltou á carga marcando quatro golos – um hat-trick na segunda-mão – para eliminar o Galatasaray turco e chegados ás meias-finais o avançado somava já doze goles a favor. Não marcou contra o Dundee em nenhum dos dois jogos mas chegava ao derradeiro jogo, em Wembley, com mais tentos a favor do que o seu rival, o Benfica que apenas tinha marcado onze golos em seis jogos, sendo que o seu melhor marcador, Eusébio, tinha apenas cinco golos na sua conta particular.

Nunca na história da competição o cenário se voltou a repetir de um só homem ter mais golos que um clube rival na final mas para Altafini isso parecia ser pouco. Depois do golo inaugural de Eusébio e da terrível entrada de Pivatelli que forçou a lesão de Coluna, numa época onde as substituições não estavam autorizadas, o brasileiro anotou os dois golos com que os italianos deram a volta ao marcador, em duas combinações perfeitas com o jovem Gianni Rivera. Com 14 golos Altafini assinou um recorde histórico que aguentaria meio século até ser batido em 2014 por Cristiano Ronaldo (com 17 golos). Para uma equipa conhecida historicamente por representar o duro e defensivo catenaccio, parecia curioso que o Milan não fosse só o clube mais goleador do torneio mas também que um dos seus jogadores superasse inclusive o próprio rival na final. O jovem com alcunha de ídolo absoluto do futebol italiano marcou também, com letras de ouro, o seu verdadeiro nome na mais importante competição do futebol de clubes.

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