Maior que Pelé? Para muitos brasileiros não há dúvida. A resposta é sim, Allejo é o maior jogador de todos os tempos. Só há um pequeno problema. Allejo, o demoníaco avançado centro, não existe a não ser na realidade virtual dos jogos de computador.

Uma era sem licenças

Os mais novos estão habituados a um mundo onde o normal é que todos os jogos de computador sejam um espelho fiel da realidade. Detalhes precisos levados ao extremo, rostos reproduzidos com exactidão fotográfica, vale tudo para fazer do real, virtual. Nem sempre foi assim. Até meados dos anos noventa as licenças desportivas e os jogos de computador não andavam de mão dada. Só o aparecimento da saga da Electronic Arts, baptizada com o nome do seu padrinho institucional, FIFA, começou a desbravar caminho para o modelo moderno de comercialização dos jogos de computador. E mesmo aí, foram precisos esperar alguns anos para que Ronaldo não fosse Rinildo, Figo não fosse Frigo e Zidane tivesse um nome absolutamente gaulês. Essa era a era de Allejo, o melhor jogador de todos os tempos…que não existiu.

Allejo, o herói da era ISS

Num país apaixonado profundamente pelo futebol, era inevitável que o sucesso mediáticos dos videojogos dedicados ao futebol se tornasse rapidamente em realidade. Durante a década de noventa, o crescimento económico da classe média alta brasileira permitiu a chegada ao país das mais recentes tecnologias e modelos de divertimento e com elas chegaram as consolas, os computadores, os jogos e Allejo.

O mítico avançado conquistou o coração de mais de uma geração com os seus golos impossíveis, as suas desmarcações únicas, os seus gestos técnicos inigualáveis. Numa era em que nos relvados brasileiros passeavam Romário, Bebeto, Edmundo e um jovem Ronaldo, parecia impossível que uma personagem virtual conseguisse ter tanta fama e seguidores. Mas em Allejo havia algo especial, uma nostalgia de outra era.

O dianteiro apareceu pela primeira vez em 1994.

A EA Sports tinha acabado de lançar FIFA International Soccer e a rival japonesa Konami respondeu com ISS Soccer – International Super-Star Soccer – antecipando a futura rivalidade que ainda hoje domina o mercado entre FIFA e o sucessor do ISS, o Pro Evolution Soccer. A ausência de licenças do jogo dos nipónicos levou a sua equipa criativa a criar nomes fictícios para os jogadores virtuais. E um deles tornou-se especial. Nas estatisticas do jogo era o futebolista perfeito, uma reencarnação de Pelé ou Maradona. Dominava todos os registos de jogo, marcava golos como nenhum outro jogador virtual e contar com Allejo na equipa era meio passo para vencer qualquer rival.

A popularidade de Allejo disparou. O Brasil tinha acabado de ganhar o Mundial e muitos começavam a entrar na febre dos jogos de computador. A vontade de reeditar o sucesso do “escrete canarinho” no computador era muita. Tinha nascido a última grande estrela virtual da era Nintendo e Sega.

Documentário e renascimento virtual

Como tudo o que envolve a nostalgia, Allejo permaneceu na memória e com o novo universo global alimentado pela internet recuperou a sua popularidade. Durante anos foram criadas várias páginas de homenagem ao mito dos relvados virtuais. Brasileiros caminham pelas ruas com camisolas com slogans como “Allejo é melhor que Pelé”, “Allejo é Deus” ou estampam nos equipamentos da seleção brasileira o nome e número do jogador nas várias versões virtuais do ISS.

Sempre que o Brasil joga o nome do jogador consegue ser trending topic na rede social Twitter e as suas várias páginas em redes sociais como o Orkut e Facebook multiplicam os seus seguidores. A isso contribuiu também a grande popularidade que o jogo – e o seu sucessor, Pro Evolution – sempre tiveram no Brasil. A ausência habitual da liga brasileira nas versões FIFA mantiveram no país um equilibrio no mercado que não aconteceu na Europa, por exemplo. E os estrategas de marketing da marca japonesa não perderam nunca a oportunidade de lembrar em qual dos dois jogos tinha estado a figura mítica de Allejo.

A popularidade da personagem levou mesmo à criação de um “mockumentary” sobre Allejo e a sua relação com o futebol brasileiro. A produção inclui vários takes com personagens reais como Pelé, Romário, Ronaldo e Rivaldo a falarem sobre Allejo e o seu talento inimitável. O documentário, ironicamente, aparece tão pixelizado como o próprio jogador nas suas primeiras encarnações no ecrã. Mas é suficiente para entender o fascinio com que os brasileiros olham para a sua estrela. De tal forma que a própria Konami, na edição 2013 do seu jogo, decidiu “ressuscitar” o jogador para uma equipa virtual disponível na séries Masters.

Orgulhosos de contarem com alguns dos maiores candidatos a melhor jogador da história, os seguidores do “escrete canarinho” não se dão por satisfeitos e também querem ser donos do melhor jogador nunca existiu.

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