Alex Bellos “O futebol é um dos símbolos fundamentais do Brasil”

É o autor do mais apaixonante livro sobre o futebol brasileiro. Jornalista inglês, matemático de formação, Alex Bellos encontrou no futebol a melhor maneira de entender o Brasil e na sua obra Futebol ao Ritmo do Samba, plasma as experiências que o fizeram apaixonar pelo jogo bonito.

O retratista do jogo bonito

Quando o The Guardian o enviou para o Brasil como correspondente, talvez Alex Bellos estivesse longe de imaginar que acabaria por ser o autor do livro que melhor resume a relação do país com a sua grande paixão: o futebol.

Brasil, Futebol ao Ritmo do Samba, é o retrato mais preciso e captivante das múltiplas realidades do futebol em Terras de Vera Cruz. Relato de alguém que veio de fora e tem a capacidade de analisar, à distância, a importância que o desporto tem na própria cultura brasileira.

Ao @Futebol Magazine o autor inglês confessou a sua satisfação pelo estado atual do futebol brasileiro e recuperou algumas das aventuras mais apaixonantes das suas viagens pelo Brasil profundo e a sua ligação umbilical que o jogo que ensinaram o Mundo a admirar.

Entrevista a Alex Bellos

Pode entender-se o Brasil sem o seu futebol?

Sem dúvida que para entender o Brasil e a sua sociedade é preciso primeiro entender o seu futebol. É o grande símbolo da identidade nacional brasileira.

O seu primeiro livro foi sobre futebol, também escreveu uma biografia sobre Pelé e depois saltou para a escrita de livros dedicados à Matemática. Porquê a mudança?

Depois de escrever Brasil, Futebol ao Ritmo do Samba, mudei-me de novo para o Reino Unido e precisava concentrar-me noutras áreas à parte do futebol. É difícil sobreviver financeiramente escrevendo sobre o Brasil se não se vive fisicamente ali. Como a minha formação está precisamente na Matemática e em Filosofia decidi então revisitar esse pedaço do meu passado.

As tácticas no futebol sempre foram exercícios geométricos. Os números tornaram-se parte importante no estudo do jogo, seja pelas movimentações dos jogadores ou pelo estudo estatístico. A sua formação ajudou-o a ver o jogo de uma maneira diferente?

A verdade é que não olho para os jogos de maneira muito distinta. Também é certo que dou cada vez menos importância ao trabalho dos comentadores. O futebol é um jogo onde o acaso está de tal forma presente que é muito difícil fazer predições acertadas ou prever realmente o que vai suceder.

De todas as viagens que fazem parte do livro Brasil, Futebol ao Ritmo do Samba, quais foram aquelas que considerou mais marcantes na sua passagem pelo Brasil?

Houve várias viagens realmente surpreendentes. Há duas em particular que me prenderam. Uma foi quando viajei até Pelotas, no sul do Brasil, para conhecer o homem que desenhou o equipamento do Brasil em 1952 (o primeiro amarelo e azul da história) e descobri que ele tinha apoiado a seleção do Uruguai. E claro, a visita ao Peladão, em Manaus, no Amazonas, onde todos os clubes têm também a sua rainha de beleza que competem num torneio à parte.

Quando trabalhou para a BBC e a National Geographic, realizando documentários sobre a vida no Amazonas, conheceu em primeira pessoa outra realidade do futebol brasileiro. Da grande selva ás estreitas ruas das favelas, é o futebol o único elo de ligação real do Brasil?

Não estou de acordo, o futebol não é para mim a única coisa que une os brasileiros. Está a língua portuguesa, a importância da TV Globo, o Carnaval, a religião. Mas sem dúvida que o futebol é extremamente importante. Como o Brasil é tão grande, muitas vezes os brasileiros gostam de exagerar a sua própria cultura e os seus símbolos  como elo de união, e o futebol é sem dúvida um desses símbolos fundamentais.

No livro escreve um capitulo dedicado de forma fabulosa a Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas. Também escreveu uma das biografias de Pelé. Na sua perspectiva, quem foi para si o maior jogador brasileiro de todos os tempos?

Em termos de golos marcados e de impacto cultural, sem dúvida Pelé.

Apesar das diferentes escolas tácticas, ao olho externo parece que o Brasil tem cada vez mais dificuldades em produzir jogadores de elite. Na sua perspectiva é uma realidade conjuntural ou há um problema de fundo com o futebol brasileiro?

Não. O futebol está a mudar rapidamente, o Brasil está a evoluir e o Mundo também. Mas se olharmos para o todo o Brasil ainda produz mais e melhores jogadores do que qualquer outro país do Mundo.

Acaba o seu livro com um capítulo dedicado a Sócrates. Ele acaba por dizer-lhe que não se sentia deprimido com o estado do futebol brasileiro. Dez anos depois, o Alex Bellos como olha para a realidade atual do futebol no Brasil e o seu futuro imediato?

Sinto-me extremamente positivo com o futebol brasileiro de hoje. Pode não vencer tantos Mundiais como noutros períodos  mas isso não é forçosamente um problema porque está a aprender a ganhar noutras áreas. A razão porque o futebol se tornou realmente tão importante no Brasil foi sobretudo porque a vida da sociedade brasileira estava repleta de problemas e só no futebol se sentiam os melhores. Agora o Brasil tem muito mais coisas de que se orgulhar sem ser o futebol e o próximo Mundial vai ser um grande acontecimento para um país que, a meu ver, tem agora melhores jogadores e equipas do que tinha há dez anos quando escrevi o livro.

 

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