Durante dois anos vários clubes galeses e irlandeses receberam uma série de curiosos faxes com a Federação Italiana de Futebol como remetente. Todos versavam sobre o mesmo, a possibilidade de um protocolo de cooperação entre os clubes e a federação transalpina em troca de um período de estágio de um jogador italiano ao seu serviço. Dois anos de mentiras e enganos na história de uma das maiores fraudes do futebol moderno.

A falsa promessa italiana com sonhos de glória

Em Fevereiro de 2006 o canal desportivo Sky Sports preparou-se para uma reportagem que iria chocar muitos dos seguidores do futebol semi-profissional britânico. O tema podia passar desapercebido entre os milhões da Premier League mas era uma história real e profundamente perturbadora para muitos clubes que viviam com magros ingressos e sonhos sem limites. Durante meses a equipa de reportagem seguiu a uma personagem que se fazia passar por aristocrata italiano ao serviço da Federação do país da bota e que oferecia os seus serviços a vários clubes, criando protocolos de cooperação entre os respectivos clubes e Coverciano. Estes apenas tinham de aceitar receber a um jogador italiano durante um período de empréstimo para facilitar a assinatura do acordo de cooperação que podia incluir intercâmbios de futebolistas, técnicos e até mesmo jogos com clubes italianos de prestigio. A história parecia ser boa demais para ser verdade mas o certo é que nos dois anos anteriores vários tinham sido os clubes a acreditar na sua veracidade. Essa era a realidade que a reportagem emitida no programa Superfakes queria desmontar. A de uma das maiores fraudes da história do futebol.

O conto do vigário irlandês

Zarelli era um jogador absolutamente vulgar que tinha disputado meia dúzia de jogos no modesto ACD Asti, nos subúrbios de Turim. A finais de 2004 aterrou na Irlanda, com vinte anos recém-cumpridos, e um plano na cabeça. Durante os meses de Verão vários clubes irlandeses receberam faxes que pareciam chegar das instalações federativas italianas assinadas a nome de um Matteo Colobase, agente desportivo e colaborador da Federação Italiana. Os faxes, cópias perfeitas dos reais emitidos desde Coverciano, ofereciam a possibilidade a esses clubes de assinar com um jogador italiano de prestigio no futebol de formação e já com experiência em clubes como o Torino, o Glasgow Rangers ou o Sheffield Wednesday e que vinha de recuperar de uma lesão motivo pelo qual estava sem clube. O futebolista chamava-se Alessandro Zarelli. A proposta de Colobase era simples. O clube que aceitasse ter Zarelli ao seu serviço durante uns meses, para recuperar a forma física, acabaria por assinar um protocolo de cooperação com a FIGC bastante apetecível.

Em Janeiro de 2005 o modesto Lisburn Distellery recebeu o faxe e decidiu responder positivamente ao agente. Aceitariam contar com Zarelli até ao final da temporada em troca desse intercâmbio cultural. Colobase anunciou então que ele não poderia viajar diretamente á Irlanda mas que o jogador se apresentaria com toda a documentação nos dias seguintes. Dito e feito. Zarelli surgiu com os papeis na mão e assinou um contrato de cinco meses com o clube. A sua estância fui curta e reduziu-se a meia dúzia de jogos. Aos olhos do staff técnico do clube o italiano tão promissor parecia um jogador perfeitamente vulgar e como não chegavam novidades da Federação italiana, o Distellery decidiu em Maio não renovar o contrato. Zarelli ficou sem clube e virou os olhos para o futebol galês. Uma vez mais repetiu-se o processo e em Julho foi o Bangor City, histórico clube galês, quem o convidou a visitar o clube para assinar contrato.

Os oportunos amigos do treinador do Bangor

Quando chegou a Gales, Zarelli apresentou-se com toda a documentação prometida por Colobase e também com um nariz partido pelo que o clube assinou um contrato temporal, pendente da sua eventual recuperação. No entanto, aos dez dias, Zarelli desapareceu do radar abandonado Bangor sem pagar a conta do hotel onde o clube o instalou e cobrando todo o dinheiro adiantado dos meses seguintes que a instituição lhe tinha entregue no momento da assinatura. Aos seus ouvidos tinha chegado a informação de que o treinador do Bangor, Peter Davenport, velho amigo de vários membros do staff do Sheffield Wednesday, tinha contactado o clube á procura de referências e estes tinham respondido que Zarelli tinha apenas treinado alguns dias nos quadros de formação dos Owls. A mesma resposta foi-lhe dada por um contacto no Glasgow Rangers. Parecia evidente que algo não estava bem mas como Zarelli raramente treinava, Davenport não tinha tido a oportunidade ver que a célebre promessa italiana não era mais do que um jogador amador sem grandes recursos. A fuga de Zarelli precipitou os acontecimentos mas não alterou o seu modus operandi. Da mesma forma que o Bangor desconhecia o que se tinha passado na Irlanda, Zarelli voltou a repetir o procedimento com outros clubes galeses e escoceses com esperança de que algum outro voltasse a morder o engodo. No entanto a noticia chegou aos ouvidos da SkySports e do programa Superfakes, especializado em desmontar fraudes, e o destino do italiano ficou selado.

Desmascarado em direto

De forma a conseguir provar que Zarelli era uma fraude, o programa de televisão conseguiu contactá-lo através do número de fax italiano, fazendo-se apresentar como uma agência de scouting á procura de jogadores do sul da Europa para lançar no futebol inglês. Combinaram um encontro num hotel de Londres utilizando uma câmara oculta e depois de terem desmascarado Zarelli forçaram-no a confessar a verdade. Colobase, o agente ao serviço da Federação italiana, nunca tinha existido, era criação do jogador que se tinha valido de um contacto dentro da federação para conseguir réplicas perfeitas dos faxes oficiais. A partir de uma loja de um amigo em Asti os faxes eram enviados e Zarelli controlava todos os procedimentos desde Inglaterra. Quando o programa foi emitido o jogador italiano transformou-se numa celebridade da noite para o dia. No entanto, e apesar de ter sido contratado pelo AFC Wimbledon como manobra de marketing – o clube nascia das cinzas depois da mudança para Milton Keyne do histórico emblema – Zarelli ficou impossibilitado de jogar nas divisões inglesas por uma espécie de pacto de cavalheiros que o empurrou a norte, rumo ao futebol escocês onde passou os dez anos seguintes sem pena nem glória nas divisões amadoras. Para a história ficou o seu conto do vigário, um dos maiores da história do desporto moderno.

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