Aldyr Garcia, o “uruguaio” que vestiu o Brasil

Inventou a camisola mais famosa do futebol mas recusa-se a torcer pelo Brasil. Aldyr Garcia inventou a camisola canarinha, foi perseguido pela ditadura militar brasileira e é um fervoroso adepto do Uruguai. Uma vida marcada por desencontros de um homem que cresceu na fronteira dos impossíveis.

A brasileiro que celebrou o Maracanazo

A 16 de Julho de 1950 uma bomba atómica como a de Hiroshima caiu sobre o Rio de Janeiro.

No lugar do voo do “Enola Gay”, foi um disparo certeiro de Alcides Ghiggia que detonou o Maracanã e com ele a alma do povo brasileiro. O país que se preparava para celebrar o já anunciado título mundial ficou em silêncio, mastigando a maior tragédia emocional da sua história. A angústia dos brasileiros contrastava com o delírio inesperado dos adeptos do Uruguai. E não só. A duzentos metros da fronteira entre os dois países, na pequena localidade de Jaguarão, um adolescente de 14 anos saltou para a rua a gritar vivas pelo novo campeão. Para ele não havia questões de fidelidade emocional ou genética. O Uruguai era a sua paixão e o título conquistado um dos momentos mais felizes da sua vida. Ironicamente, seria também o “Maracazano” que mudaria para sempre a sua vida.

Aldyr Garcia é um brasileiro com coração uruguaio. Dificilmente a expressão brasileiro se aplica no seu caso. Tem família nos dois lados da fronteira que separa os dois países. Vários dos seus famíliares e amigos trabalhavam no lado de lá da fronteira. E, afinal de contas, Montevideu estava mais perto de sua casa do que Porto Alegre, a capital do estado do Rio Grande do Sul. Com circunstâncias assim é difícil não imaginar a sua facilidade em apaixonar-se pelo país vizinho a ponto de o adotar como seu. Desde a mais tenra infância que Garcia se sentiu uruguaio. Todos os dias lia os jornais que chegavam do outro lado, cresceu a admirar sobre todas as coisas o Nacional de Montevideu e quando os seus dois países se encontram frente a frente num campo de futebol, não duvida em declarar o seu apoio incondicional à Celeste. E no entanto a sua fama, que dura já seis décadas, deve-a à seleção brasileira. Porque foi ele o homem que acabou com a maldição e deu cor, luz e magia ao equipamento do “escrete”.

O nascimento do “escrete canarinho”

A derrota do Brasil na final do Mundial 1950 provocou o caos no futebol brasileiro.

Crucificaram-se jogadores, sobretudo o trio de futebolistas negros da seleção liderados pelo guarda-redes Barbosa, criticaram-se dirigentes, técnicos e árbitros. Mas nada tocou mais fundo na psique do adepto brasileiro que o impoluto equipamento branco que a equipa utilizava. Desde a formação da seleção brasileira, que o branco tinha sido a cor utilizada na camisola principal. Uma homenagem aos ingleses, sem dúvida, que tinha sido durante quase meio século também o selo de identidade do “escrete”. Mas com o Maracanazo tudo mudou. A camisola estava amaldiçoada e o Brasil condenado a perder enquanto não encontrasse forma de vestir outras cores. As da bandeira do país.

A Confederação Brasileira dos Desportos decidiu associar-se ao jornal Correio da Manhã para convocar um concurso público para vestir a seleção com novas cores a caminho do Mundial da Suíça. O regulamento do concurso tinha apenas dois requisitos. O equipamento tinha de incluir as quatro cores presentes na bandeira (verde, amarelo, azul e branco) e estas deviam estar dispostas de forma harmoniosa entre a camisola, o calção e as meias. A partir de aí os autores tinham total liberdade para apresentar as suas versões. A duzentos metros da fronteira com o maldito rival, Aldyr Garcia decidiu entrar no sorteio por diversão. Tinha cumprido os dezoito anos e uma legitima aspiração a ser escritor. O desenho não lhe era estranho. Colaborava há dois anos com os jornais de Pelotas, a capital do seu distrito, ilustrando os golos dos jogos locais para as edições impressas. Durante semanas pensou na melhor forma de conjugar as cores e finalmente enviou para a sede da CBD a sua proposta. Foi um dos 201 projetos recebidos dentro do prazo. O destino acabou por consagrá-lo o vencedor.

A sua proposta era simples e, no entanto, icónica. A camisola amarela com a gola verde, os calções azuis e meias verdes respeitava o espírito do sorteio e a herança multicolorida de um país desenhado à base de constantes vagas de emigrantes e sopros de vida dos quatro cantos do Mundo. Como prémio, Garcia recebeu 20 mil reais e estagiou durante meses no mesmo jornal onde trabalhavam alguns dos grandes cronistas brasileiros da sua geração, encabeçados pelo mítico Nélson Rodrigues. Foi a sua porta de entrada ao mundo da escrita e do jornalismo. A partir de aí forjou uma carreira no universo literário que o consagrou como um dos mais imaginativos autores latinos das últimas décadas. Mas foi a sua invenção que prevaleceu.

A camisola do futebol romântico

A principio Aldyr pensava que a camisola nunca seria utilizada oficialmente e que tudo não passava de uma manobra de marketing para distrair os adeptos brasileiros dos erros de gestão da seleção. Uma vez que a camisola foi finalmente usada no Mundial de 1954, o jovem pensou que seria facilmente descartada. Derrotados pela Hungria nos quartos-de-final, a célebre “Batalha de Berna”, os brasileiros tinham voltado a falhar o seu assalto ao título mundial. O problema, era evidente, não estava no equipamento. Mas as cores ficaram. Os adeptos gostaram deste novo ar desafiador, tropical e os jogadores encaminharam-se com o amarelo vivo. A imprensa rotulou a seleção como o “escrete canarinho” e já não havia volta atrás. Quatro anos depois, na Suécia, o Brasil venceu finalmente o seu primeiro Mundial. Ironicamente, na grande final, os brasileiros foram forçados a utilizar o equipamento alternativo (camisola azul, calção branco) pela semelhança com os anfitriões.

Foi com o Mundial do México, em 1970, e o aparecimento das televisões a cores que o amarelo vivo que vestia Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Rivelino se tornou num símbolo mundial do futebol romântico de ataque. A partir de então a camisola sofreu ligeiras modificações, especialmente a partir do momento em que a CBF assinou um protocolo de patrocínio com a norte-americana Nike.

Paralelamente, Garcia sofreu na pele o seu estatuto de livre pensador e nem a sua célebre invenção o salvou. Durante os anos sessenta foi detido várias vezes pela ditadura militar, acusado de subversão. Foi expulso da Universidade de Rio Grande do Sul, onde dava aulas, e passou largos anos em exílio criativo. Com o dealbar da democracia brasileira, Aldyr Garcia voltou a poder dedicar-se à sua paixão pelas letras, publicando dezenas de livros premiados nos dois lados da fronteira. Mas é essa camisola, que ele se nega a vestir por devoção absoluta ao azul celeste do Uruguai, que fez dele um dos nomes mais simbólicos e importantes da história do futebol brasileiro. O homem que vestiu o Brasil para sempre!

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Comentários

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

eleven + 7 =