1989 foi o ano que definiu a carreira de Albeiro Usuriaga. O avançado colombiano marcou o golo decisivo do triunfo do Nacional de Medellin na Copa Libertadores. Quatro meses depois selou o apuramento da Colômbia para o Mundial de Itália. Uma competição para a qual não foi convocado. A sua vida fora dos relvados selou o seu destino. O do mais talentoso jogador colombiano da geração mágica dos “cafeteros”.

 O génio que falhou o seu Mundial

Paco Maturana tinha acabado de dar a lista final de convocados para o Itália 90.

A seleção colombiana não estava num Campeonato do Mundo há vinte e oito anos. A expectativa era máxima. O país vivia um estado de inesperada euforia. O jogo era uma forma das pessoas se esquecerem, momentaneamente, do drama da guerra civil a três bandas entre o governo, as FARC e os cartéis de droga. Uma guerra que transformava a Colômbia num dos países mais violentos do Mundo. O Mundial era uma oportunidade para dar outra imagem da nação. Especialmente porque Maturana, o icónico selecionador nacional, tinha à sua disposição uma série de jovens jogadores promissores. Uma verdadeira “Geração de Ouro”. René Higuita, Andrés Escobar, Carlos Estrada, Leonel Alvarez, Carlos Valderrama, Freddy Rincón, Miguel Guerrero…todos estavam na lista. Mas um nome faltava. Um nome escrito a letras douradas na história do futebol colombiana. Maturana tinha cumprido a sua ameaça. Os “cafeteros” iam para Itália sem o seu goleador. Sem o homem do golo decisivo no Play-off de apurament contra Israel. Sem o “Palomo” . A Colômbia ia para o Mundial sem Albeiro Usuriaga.

A decisão de Maturana era esperada e temida pelos adeptos. O selecionador conhecia bem o avançado. Ambos trabalhavam diariamente no Atlético Nacional de Medellin, o clube protegido pelo cartel de Escobar, um dos mais temidos da América Latina. Maturana sabia o bom que era Usuriaga. Graças à sua eficácia, a equipa tinha conseguido o feito histórico de vencer no ano anterior a primeira Copa dos Libertadores do futebol colombiano. Usuriaga foi o melhor marcador da equipa e na segunda-mão da final, apontou o golo que levou o duelo contra o Olímpia de Assuncion para as grandes penalidades. Uma série que pareceu não ter fim. Usuriaga acertou no alvo mas quatro dos seus colegas não. Felizmente para os colombianos, os rivais do Paraguai foram ainda mais imprecisos e quando Sanabria falhou o nono penalti do Olímpia, Medellin explodiu de euforia. “El Palomo” era o novo ídolo nacional. As discotas da cidade esperam ansiosas pelo seu regresso. Albeiro, genial como poucos, era também um bad-boy fiel a esses anos loucos. E tinha a fama maldita de passar mais horas nos bares e discotecas da cidade do que nos campos de treino. Durante três anos, Francisco Maturana suportou a sua atitude discola porque Usuriaga respondia-lhe com golos. Mas em vez de mudar a sua atitude, a celebridade do tento contra Israel que selou a qualificação para o Mundial, tornou-o ainda mais irrascível. Sentia que podia tudo. Uma atitude que lhe iria custar o maior desgosto da sua vida.

A geração dos crioulos

Usuriaga nasceu no pobre bairro 12 de Outubro em Medellin numa família humilde. Nunca saiu de lá. Era fiel às suas origens. Mas também era conhecido no bairro pelas suas adições. Ao álcool. À cocaína. E ás mulheres. As três seriam a sua perdição em etapas diferentes da sua vida.

Com 17 anos já era uma das maiores promessas do futebol sul-americano. Media 1m91 mas era rápido e tinha um sentido posicional impar para um jovem da sua idade. Francisco Maturana entregou-lhe as chaves do ataque do Nacional e o jogador que os adeptos chamavam de “Paloma” (pombo) respondeu com golos. Muitos golos. As suas rastas caribenhas contribuíam ainda mais para criar uma aura de novidade e juventude. Era a época de ouro dos futebolistas de origem crioula. Depois da equipa conquistar a Copa dos Libertadores e a Taça Intercontinental, a sua relação com Maturana deteriorou-se. Foi transferido para o Málaga espanhol, mas quando a lista oficial da seleção para o Mundial foi divulgada, Albeiro entrou em depressão. Forçou a sua saída do clube espanhol, que o emprestou durante três anos ao América Cali, o clube da sua cidade natal. A seleção colombiana tinha surpreendido o Mundo em Itália e a geração orientada por Maturana estava na sua fase ascendente. Usuriaga tinha de assistir à distância feitos tão memoráveis como a goleada por 5-0 à Argentina.

Era demasiado duro para quem acreditava estar destinado a grandes feitos. A adição ao álcool e à cocaína foi aumentando à medida que Albeiro percorria, todas as noites, as discotecas de Cali, forjando amizades perigosas com os líderes dos carteis da cidade. Em 1994 o contrato com o Málaga expirou e Usuriaga mudou-se para o futebol argentino, assinando pelo Independiente.

Uma morte escrita nas estrelas

Com a camisola dos “Rojos” transformou-se rapidamente na grande estrela da liga, contribuindo de forma decisiva com golos para a conquista do troféu de Clausura. Foi o ponto mais alto da sua carreira. Dois anos depois, um controlo anti-doping realizado de surpresa identificou nas análises de Albeiro uma elevada dose de cocaína. Foi suspenso durante dois anos. Tinha acabado de cumprir os trinta e a sua carreira tinha, efetivamente, chegado ao fim. Durante seis anos, Usuriaga disputou jogos por quase uma dezena de equipas menores do futebol sul-americano sem deslumbrar. Tinha perdido a velocidade e o sentido da realidade. Entregou-se a lutas nocturnas nos bares, a detenções policiais e pelas dividas aos cartéis de droga. Em 1999 pagou o preço. A sua mulher, Eliana, foi assassinada por um desses grupos mafiosos. Era um aviso. A sua vida valia muito pouco.

Albeiro durou pouco mais tempo com vida. Em 2004, no ano imediatamente depois da sua retirada oficial, foi assassinado pelo cartel de Cali por culpa de uma mulher. Usuriaga tinha começado uma relação com uma stripper que tinha deixado um dos principais sicários do cartel da cidade completamente apaixonado. Por várias vezes, Usuriaga recebeu ameaças para que deixasse a jovem. Respondeu sempre com indiferença. A 11 de Fevereiro, entrada a noite, quando ia a caminho de um bar onde era presença habitual, o herói de Tel-Aviv foi baleado doze vezes por um motorista. Era o fim abrupto e esperado para uma personalidade única na vida do futebol su-americano que tinha caminhado durante anos entre a ténue linha que separa o bem e o mal.

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