Todos os anos milhares de futebolistas africanos chegam à Europa com o sonho de triunfar. A esmagadora maioria deles fica pelo caminho. Alassane Diakité foi um deles. Pensou que podia chegar a ser uma estrela. Hoje é o porta-voz de um dos maiores males do futebol contemporâneo, o tráfico de jovens futebolistas do Terceiro Mundo para as ligas europeias. Onde há mais de 20 mil jovens que cruzaram um continente para cair no esquecimento.

A exploração dos adolescentes africanos

Não é difícil descobrir a realidade. O que é fácil é olhar para o outro lado e fingir que nada aconteceu.

Nos últimos quinze anos essa é a realidade para centenas de jovens africanos. Jogadores atraídos por promessas impossíveis que acabam por sobreviver a duras penas nas ruas das grandes cidades europeias. Adolescentes a quem se lhes promete ser o próximo Samuel Etoo para acabarem em clubes amadores, formações de segunda linha, no melhor dos casos. Quase sempre o destino final é o regresso a casa, de cabeça baixa. Ou a sobrevivência no “Velho Continente” com trabalhos pontuais e que nada têm a ver com a magia do futebol.

A maior parte deles chega à Europa com todas as poupanças da família no bolso. Rapidamente ficam sem elas. E com o dinheiro vai-se também a esperança. E cresce a dependência. Os agentes de futebol são os arquitetos desta sequência dramática. Pescam os jogadores, movem-nos de país para país, lucram o máximo que podem e depois descartam o jogador, o adolescente, o homem, quando este deixa de lhes servir. É o quotidiano de um lado do futebol que a Europa, as instituições europeias e os adeptos não querem (re)conhecer. Essa foi, também, a história de Alassane Diakité.

A história de Alassane, um sobrevivente

Diakité nasceu no Mali. Hoje tem 22 anos. Podia ser mais um futebolista anónimo. Não é. Este ano, Alassane viu a história da sua curta vida ser transformada em filme. E com esse reconhecimento mediático conseguiu transformar-se na voz de milhares de jogadores sem rosto. É o mais ativo e incisivo denunciante do que chama de tráfico de jovens jogadores, um dos grandes cancros do futebol europeu. Consequência direta da liberalização absoluta da lei Bosman e do fascínio criado pelos futebolistas africanos nos anos noventa aos agentes e adeptos europeus.

A sua história é igual à de tantos outros. Com dezasseis anos foi descoberto por um olheiro francês no Mali.

O seu relatório chegou a um agente que viajou até ao país africano para persuadi-lo que tinha futuro no futebol francês se estivesse disposto a deixar tudo para trás e deixar o seu futuro nas suas mãos. A família, como sempre sucede, entregou as suas poupanças nas mãos do agente – cerca de 2000 euros, uma pequena fortuna em África – e desejou boa sorte ao filho pródigo. Ser alguém, na Europa, significa muito fora dela. Mas a experiência foi dramática.

Durante um ano Diakité foi explorado pelo seu agente, que o abandonou num apartamento escuro em Paris prometendo-lhe promessas de testes que nunca chegavam enquanto o seu dinheiro permanecia no seu bolso. Depois de um ano em França – onde chegam e, habitualmente, ficam 90% dos jovens africanos traficados pelos agentes – mudou-se para Espanha. Foi o próprio filho do agente, cansado de ver como o pai explorava um jovem africano perdido no meio da confusão, quem o alertou de que devia abandonar França. Um primo seu, a viver em Espanha, foi a porta de entrada para o país vizinho onde continuou com o seu sonho de triunfar. Teve promessas para treinar com o Real Madrid e o Barcelona mas acabou por ter de se contentar com equipas das divisões amadoras do futebol espanhol. E de aí não passou.

Petição pública contra o silêncio da FIFA

Hoje, com 22 anos, Diakité tem de trabalhar na cozinha de uma cantina social para pagar as suas contas. Ainda joga futebol, no Canillas, um clube amador de Madrid que lhe paga 500 euros ao mês que envia regularmente para o seu Mali natal. É também aí que treina equipas de infantis e onde lhes ensina algo muito mais importante que técnica ou táctica. E foi aí que a sua história saltou do anonimato para o grande ecrã, depois de correr de forma quase silenciosa os corredores da vida madrileña.

Alassane Diakité
Alassane Diakité

Ele é um dos mais de 20 000 jogadores que chegaram desde África nos últimos quinze anos, de todas as idades e proveniências que nunca se transformaram em estrelas. A esmagadora maioria desses jogadores acabou bem longe dos relvados. Muitos, o próprio Diakité viu cair pelo caminho. Há clubes europeus transformados em verdadeiros entrepostos comerciais de importação de futebolistas africanos como o Beveren belga. E por cada Keita, Kanouté, Etoo (que viveu com onze anos uma situação similar em França), Drogba ou Obi Mikel (cuja história é bastante similar à de Diakité, mas com final feliz) há milhares de casos fracassados e vidas destruídas.

As denúncias de Diakité transformaram-se em filme. “Diamantes Negros” estreou-se no Festival de Cinema de Málaga e recebeu uma ovação estrondosa do público pelo duro realismo que transmite. Mas a mensagem ainda não penetrou a couraça do mundo do futebol. Clubes como o Barcelona e Real Madrid recusaram-se a colaborar mediaticamente com o projeto. Não foram os únicos. A própria FIFA, incapaz de regular o tráfico de jovens futebolistas para os campeonatos europeus, fez ouvidos surdos às súplicas de Diakité por uma política mais agressiva de castigo aos agentes que percorrem cada palmo de terra da América Latina, de África e de Ásia à procura da nova grande promessa mundial, sem escrúpulos para deixar pelo caminho os que não aguentam a exigência do desafio.

A FIFA tem um artigo nos seus estatutos, o número 18, em que se regulamenta – e em alguns casos proíbe – a contratação de jovens estrangeiros menores de 19 anos. Um artigo que regularmente é desprezado pelos agentes que movem o mercado de transferência em todas as ligas europeias. Conseguem-no inventando-se empregos, forjando passaportes, apresentando bolsas de estudo e muitas vezes falsificando passaportes para dar a entender que as famílias dos jogadores os acompanham (um requisito da FIFA) quando na verdade continuam em África, sonhando com dias melhores.

A história de Alassane Diakité é só um aviso. Atualmente há uma petição pública em Change.org para dar voz aos que lutam contra o tráfico de jovens futebolistas. Uma voz que apoie o grito de Alassane, o futebolista que teve de lutar para não perder a sua humanidade.

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  • Tiago Cardoso

    «Ainda joga futebol, no Canillas, um clube amador de Madrid que lhe paga 500 euros ao mês que envia regularmente para o seu Mali natal.» – Hum… Pergunto se o termo correcto não seria «clube não-federado» em vez de «clube amador» (amadorismo no desporto significa para mim não obter rendimentos monetários através da prática desportiva, e o Alassane Diakité recebe dinheiro por praticar futebol de 11). :\