Na foto de celebração da seleção da Alemanha que acaba de obrar o Milagre de Berna, surge num canto uma figura curiosa. Não é jogador, não pertence ao staff técnico de Herberger ou à equipa da federação. Mas é talvez o principal responsável pela vitória sobre os Magiares Mágicos. Chama-se Adi Dassler.

A chuva da sorte

Conta a lenda que Fritz Walter acordou na manhã do dia 4 de Julho com um bom pressentimento. Nos Alpes caía uma chuva miudinha. Era tudo o que ele precisava. A chuva transmitia-lhe boas vibrações. Fazia-o sentir-se invencível. Horas depois, contra todos os prognósticos, Walter levantava o troféu Jules Rimet. E a Alemanha celebrava o seu título mundial.

É uma lenda interessante, com um fundo de verdade. Walter era um homem supersticioso. E a chuva era um bom sinal. Mas por algo muito mais concreto e compreensível. Diante da Alemanha estava a Aranyascap, talvez uma das melhores formações da história do futebol. Uma equipa forjada na cultura de possessão da escola danubiana implementada por Jimmy Hogan. Uma equipa que contava com Ferenc Puskas como principal estrela mas que se movia ao som dos golpes no esférico de Nandor Hidgekuti, dos dribles de Zoltan Czibor e do génio de Gustav Sebes, o selecionador húngaro que viajara à Suiça para vencer o Mundial a qualquer custo.

A Hungria era a equipa mais admirada do mundo. Tinha humilhado a Inglaterra no Wembley e repetido a dose em Budapeste. Apurara-se para o torneio com extrema facilidade e ninguém questionava o seu favoritismo. Pelo sim pelo não, uma vitória por oito golos contra a mesma Alemanha, na fase de grupos, marcava as diferenças. Mas enquanto os alemães jogaram esse encontro com algumas reservas, conscientes das suas limitações, e seguiram na prova contra rivais mais acessíveis, a Hungria teve de medir-se aos dois gigantes sul-americanos, o Uruguai e o Brasil. As duas sofridas vitórias chegaram com um preço. Um tremendo desgaste físico depois de mais de três horas de quase batalha campal, jogadores lesionados e um desgaste psicológico que os alemães não tinham encontrado. Puskas estava lesionado e queria jogar. Exigia jogar. Sebes sabia que ia prejudicar o colectivo mas acedeu. Afinal o “Marechal Galopante” era um líder, capaz de brilhar mesmo sem se mexer. Mas a chuva, a chuva era um rival inesperado.

O visionário sapateiro

Quando a expedição alemã chegou a Berna para conhecer o estado do campo, o pressentimento de Walter tinha-se concretizado. Tinha chovido o suficiente para deixar o campo levemente empapado. Pesado, mas sem cair no extremo de transformar-se num pantanal. A bola não iria fluir com facilidade o que colocava em risco o habilidoso jogo de toque dos húngaros. Seria preciso muito mais força, jogo aéreo e rapidez para sobrepôr-se às condições climatéricas. A Hungria podia ter os melhores jogadores. Mas a Alemanha trazia consigo uma inesperada arma secreta. Adi Dassler.

Dassler foi um dos homens mais importantes da história do futebol. O seu nome aparece diariamente em jornais, televisões, videojogos e placards mas poucos o sabem. Naquele 4 de Julho, foi fundamental para transformar a ambição alemã em vitória. Antes de tudo, Adi era um visionário. Um artesão com um olhar preciso para detectar problemas e encontrar soluções. Tratava o calçado como um cirurgião. Não se considerava um sapateiro comum, era um inventor ambicioso, sempre à procura do passo seguinte para transformar o seu produto em algo perfeito para o seu utilizador.

Tinha começado a produzir sapatos para desporto nos anos vinte com grande sucesso. A dupla que formava com o seu irmão Rudolph conquistou rapidamente a atenção do regime nazi que requisitou os seus serviços para equipar os seus atletas nas Olimpiadas de 1936. Curiosamente, Dassler também tinha como cliente o homem que iria destroçar o simbolismo planeado por Hitler para aquela celebração desportiva: Jesse Owens. Quando a guerra acabou, aos irmãos Dassler custou-lhes livrarem-se da etiqueta de colaboracionistas. Mas a grande discussão surgiu no seio da família. Em 1948 Rudolph bateu no irmão e abandonou a casa famíliar para instalar-se a poucos metros. Dias depois formalizava a sua nova empresa a quem chamou Puma. Como resposta Adi Dassler decidiu renomear o negócio famíliar com as iniciais dos seus dois nomes: Adidas.

A arma secreta de Dassler

Herberger e Dassler eram amigos desde os dias em que o agora selecionador alemão era jogador. Consciente do talento e capacidade de inovação de Dassler, o técnico pediu-lhe um calçado especial para os jogadores da Mannschaft utilizarem durante o Mundial de 1954. Era a oportunidade de ouro para a Alemanha voltar a sentir-se importante e a Adidas sentia que tinha de fazer parte desse momento, limpando qualquer sombra de suspeita pelo seu passado.

As suas novas chuteiras eram mais leves e flexíveis que as dos jogadores húngaros que ainda utilizavam um modelo pesado e bastante antiquado. Durante os meses prévios à competição, passaram pelas oficinas da empresa alguns dos internacionais alemães para provarem o material e recomendarem alterações. Mas o passo mais importante estava por dar e como um truque na manga, só foi desvelado nas vésperas da final. As chuteiras que Dassler tinha trazido para a Suiça dispunham de um dispositivo inovador que permitia substituir os pitões sem necessidade de trocar de bota. Dessa forma, era possível colocar pitões adequados para cada tipo de terreno. Até então os jogadores tinham utilizado o modelo standard com sucesso porque as condições climatéricas assim o requeriam. Mas a chuva e o terreno empapado era outra coisa. Dassler montou então nas chuteiras pitões mais duros e largos, perfeitos para aguentar o terreno escorregadio sem que o jogador perdesse equilibrio. Nunca ninguém tinha sido tão inovador no calçado desportivo até aquele momento. No balneário, os jogadores receberam das mãos dos ajudantes de Adi as botas preparadas para o exigente duelo no Wankdorf. Sabiam que tinham uma arma com a qual os húngaros não podiam competir. Sentiam-se vencedores.

O início de uma longa amizade

A final foi um conto de fadas para o futebol alemão mas não deixou de ter a sua inevitável dose de polemica. Aos oito minutos a Hungria já vencia por dois golos de vantagem. Mas a chuva continuava a cair, cada vez mais, e a bola perdia-se entre passes falhados no meio-campo de húngaros pouco preparados para um terreno dificil de domar. Fazendo uso da sua arma secreta, os alemães empataram ainda antes do minuto vinte e tomaram o controlo do encontro, com rápidas trocas de bola pelo ar e arrancadas que sobreviviam à lama acumulada nas chuteiras. A seis minutos do fim, Rahn marcou o golo mais importante da história do futebol alemão, levando ao delirio os espectadores que tinham viajado até à Suiça sem grande esperança de assistir a um milagre.

Pouco depois Puskas igualou mas o golo foi (mal) anulado por fora-de-jogo e Berna tornou-se, por horas, na mais alemã das cidades da Europa.

Entre os jogadores e técnicos palpava-se no ar uma sensação de euforia contida. Tinham passado menos de dez anos da guerra e agitar as bandeiras da Alemanha ainda era visto como um sinal perigoso de nacionalismo. Dassler pensava já no passo seguinte. A sua inovação não só tinha permitido à Alemanha vencer o Mundial como também abrir uma brecha na sua guerra pessoal com o seu irmão Rudi, que durante anos tentara ganhar o favor da federação alemã para ter um contrato de exclusividade. Esse contrato acabou nas mãos da Adidas, marcando o início da mais longa relação entre uma empresa de material desportiva e uma federação nacional.

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