Ouvimos a palavra Kop e pensamos imediatamente em Anfield Road, a casa do Liverpool. Mas a história é bem diferente. Por toda a Inglaterra há varias bancadas com o mesmo nome, algumas delas mais antigas que a dos Reds. Esta é a história das bancadas que sacaram o nome de uma violenta batalha em África para converter-se no símbolo da máxima devoção dos adeptos.

A magia da Kop

“A Kop ganhou hoje o jogo por nós”.

A frase é de Bill Shankly. Não tem dia, não tem hora, não tem data. Não é preciso. O treinador escocês proferiu-a várias vezes reconhecendo a capital importância do apoio dos adeptos do Liverpool à sua equipa. Fosse nos jogos da liga inglesa ou das noites europeias, a força da Kop tinha algo sobrenatural, empurrando a bola para a baliza rival ou afastando o perigo da sua. Os gritos, cânticos e danças durante noventa minutos representavam perfeitamente a coreografia do amor à camisola. Para todos os que vivem longe de Inglaterra e sentiram essa força emocional na década de sessenta e setenta, a Kop é só uma e está em Anfield Road.

Ninguém se lhe ocorre outro estádio, outra cidade ou outro clube. É dizer Kop e pensar em vermelho, pensar em Shankly, Keegan, Paisley, Dalglish ou Rush. Mas a história da Kop é radicalmente diferente da lenda atual e tem origens muito distantes da cidade portuária inglesa. Ironia das ironias, a Kop como nome de uma bancada é muito mais antigo do que se pode imaginar e não tem qualquer relação com os Reds. Na prática há – ou melhor, houve – dezenas de Kops em todo a ilha britânica. E todas elas representam o mesmo, esse ponto de ebulição máxima da entrega dos adeptos. A origem do termo Kop também não é nenhum segredo e nada tem a ver com o futebol. Uma viagem no tempo leva-nos a outro mundo onde uma batalha em África pode acabar por transformar-se num termo sagrado para a tribo do futebol.

A batalha que deu o nome a uma bancada

23 de Janeiro de 1900.

No calor intenso do Verão sul-africano o exército inglês encontrou-se com um grupo armado dos Boers, nativos de origem holandesa que queriam controlar a colónia do que é a atual África do Sul. Era a II Guerra dos Boers. Os ingleses contemplaram uma cena única. Numa encosta a pique com mais de 1400 metros de altura na província de KwaZulu esperavam os soldados inimigos. A batalha foi intensa.

Havia quase dois mil soldados ingleses para medir-se ás milícias de camponeses e agricultores locais. Foi uma derrota estrepitosa para os colonizadores. Trezentos homens foram presos, mais do dobro caiu no campo de batalha e poucos conseguiram fugir. Um dos prisioneiros conseguiu escapar, pouco depois, relatando às autoridades o horror da batalha. Chamava-se Winston Churchill. Na planície, a recolher os feridos, um corpo de ambulâncias contava outro homem ilustre nas suas filas. O seu nome era Mohandas Ghandi. A refrega, de proporções míticas na história sul-africana, tomou o nome da localidade mais próxima. Para os livros de história ficou como a batalha de Spion Kop.

A história das Kops Inglesas

A batalha entrou rapidamente para o folclore local. Primeiro como um desastre militar e depois como representante físico de um espaço onde homens, apertados ao máximo, pareciam mover-se e gritar como se estivessem num campo de batalha. Em 1904, quatro anos depois do confronto, a imprensa londrina mencionou pela primeira vez o termo “Spion Kop” associado a uma bancada, no topo sul do Manor Ground, então o estádio do Arsenal. A forma inclinada da bancada, de lugares a pé onde as multidões se acumulavam com os bilhetes mais baratos, em plena efervescência de apoio à equipa, tornou-se mítica. Dois anos depois era o Liverpool Echo que associava o nome a uma nova bancada inaugurada em Anfield Road que permitia aumentar a capacidade do estádio do Liverpool para 60,000 lugares. Nascia assim a mais famosa de todas as “Spion Kops” ou “Kop”. Mas não seria a última.

Nas duas décadas seguintes foi raro o estádio inglês que não teve a sua própria “Spion Kop”. Uns foram mais celebres que outros, reflexo também da natureza dos seus próprios adeptos. Em Birmingham o Aston Villa tinha a sua versão da Kop no Holte End e o Wolverampton no Molineux, com mais de 30 mil pessoas de pé quinzenalmente apoiando a sua equipa entusiasticamente. Houve durante décadas um total de 25 bancadas conhecidas oficial ou oficiosamente como “Spion Kop” no futebol inglês, incluindo estádios como Elland Road em Leads, Meadow Lane em Nottingham ou Filbert Street em Leicester. Nenhuma, no entanto, conseguiu reproduzir a celebridade da sua versão de Liverpool que ganhou vida, sobretudo, com a dinâmica cultural nos anos sessenta quando os adeptos da Kop começaram a encarnar o espírito da cidade, cantando temas de bandas pop como os Beatles, Kinks ou Gerry and the Peacemakers, de quem retiraram aquele que seria o hino oficioso do clube a partir de aí, o celebre tema “Youll Never Walk Alone”.

O fim da era das Spion Kops

Hillsborough, em Sheffield, era igualmente reconhecido pela sua “Kop” e muitos dos treinadores e jogadores referiram-se à mesma sempre do mesmo modo a que Shankly falava da sua “Kop”, em Anfield, como um elemento de apoio único para a equipa. Foi precisamente o final dos lugares de pé, como consequência do desastre de Sheffield, em 1989, que acabou com a mitologia das “Spion Kops”.

Até então o termo referia-se exclusivamente a todas as bancadas, nos fundos, onde se acumulavam os adeptos mais fanáticos, jovens e com as entradas mais baratas. A partir da instalação obrigatória de lugares sentados, apenas Anfield manteve como oficial a designação da Kop para a sua bancada que foi totalmente remodelada em 1994 no seguimento das instruções do Relatório Taylor e na preparação para o Euro 1996. A maioria foi demolida ou radicalmente transformada a ponto de perder qualquer traço de identidade com a sua origem. Os novos estádios, construídos no furor dos anos noventa e dos milhões gerados pela Premier League, afastaram-se completamente da ideia por detrás das Kops.

Muitos tinham começado, nos anos setenta, a associar as mesmas ao hooliganismo e ninguém queria agora traços dessa era. Enquanto a Kop de Anfield ganhou contornos míticos por ser, precisamente, a única resistente, em nomenclatura, as restantes foram pura e simplesmente eliminadas do vocabulário dos adeptos. De certo modo fechava-se um ciclo. Uma batalha sangrenta no virar do século tinha alimentado o lado mais selvagem e apaixonante do futebol britânico. Foi preciso outro drama com dezenas de mortes para enterrar para sempre a memoria de todas as Spion Kops que fizeram parte do ADN do futebol inglês durante décadas. Anfield Road permaneceu fiel à sua história. Eles são para o mundo a única “Kop”. Na realidade, são apenas sobreviventes de uma era que nunca mais voltará. Ironicamente, anos depois, um monumento de homenagem ás vitimas de Hillsborough foi erguido sobre o mesmo terreno onde a batalha teve lugar. O ciclo encerrava-se.

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