Quando Hugo Meisl se propôs a criar a primeira competição europeia de clubes poucos responderam à sua chamada. O Velho Continente vivia as primeiras consequências da Grande Depressão, ainda não se tinham curado as feridas da I Guerra Mundial e os aviões ainda não tinham reduzido em horas as distâncias de dias que separavam Lisboa de Berlim e Londres de Praga. A Mitropa Cup foi o primeiro aperitivo do que nos anos 50 se tornaria a Taça dos Campeões Europeus mas passados 80 anos torna-se apetecível especular sobre o que poderia ter sido uma Champions League no modelo atual numa era onde o futebol profissional começava a dar os seus primeiros passos.

Entre a semi-profissionalização e a consolidação social

A década de 30 do século XX foi fundamental para a consolidação do futebol como máximo fenómeno desportivo europeu. As grandes multidões que encheram os estádios nos anos 20 sobreviveram ao crash da bolsa e continuaram a ver semanalmente os jogos das suas equipas. Os clubes começaram a caminhar, paulatinamente, para uma semi-profissionalização e em cada país tornou-se evidente que havia instituições com uma clara projeção de futuro. Foi nesta década, e não antes, que se começaram a definir quem seriam os gigantes do futebol europeu nas décadas seguintes. Entre o apoio financeiro de magnatas ou sócios apaixonados, com a primeira série verdadeiramente única de jogadores de máxima qualidade e com a consolidação definitiva do WM como sistema táctico comum, o beautiful game nos anos 30 entrava na sua fase de maturidade, uma saída consciente e tranquila de uma adolescência experimental e convulsa.

Nessa etapa de crescimento o visionário austríaco Hugo Meisl, o mesmo que estaria por trás do Wunderteam austríaco, convocou a vários representantes nacionais europeus para uma reunião em Viena com o objectivo de criar a primeira competição europeia de clubes. Ao convite responderam apenas positivamente jugoslavos, italianos, checos e húngaros. A Europa Ocidental preferiu ficar de lado e nenhum convite foi enviado aos países do norte e da Europa de leste, ainda em etapas diferentes de evolução futebolística. Face à reduzida dimensão regional dos participantes a reunião acabou por realizar-se em Veneza e daí surgiu o que seria a Mitropa Cup. Um torneio com duas equipas de cada nação convidadas e que duraria até aos anos80. Aprova teve um sucesso relativo e inspirou, uma década mais tarde, a génese da Taça Latina, o mesmo formato mas restringido aos que faltaram a essa reunião em Viena: Espanha, França e Portugal, mais a Itália.

Os ingleses e escoceses continuavam alheios a tudo e os alemães, face ao seu passado recente, eram olhados com desconfiança por uns e outros. Até 1955, por iniciativa de Henri Delauney e Santiago Bernabeu, as posturas mantiveram-se frias e distantes roubando dos adeptos a imagem do que seria uma prova continental completa na primeira grande década do futebol europeu.

 Vinte clubes para um sonho europeu

Mas fechemos os olhos, pensemos que tudo aquilo que se viveu é uma realidade paralela e demos asas à nossa imaginação. É difícil pensar no que poderia ter sido mas um breve olhar às grandes equipas europeias de então permite imaginar um torneio tão apaixonante como qualquer uma das edições recentes da Champions League.

Os anos 30 foram, sobretudo, os anos do futebol centro-europeu. A Áustria apresentou o melhor futebol e a Checoslováquia e Hungria foram finalistas vencidas em dois Mundiais consecutivos. A Itália, país que também participava na Mitropa Cup, venceu os Mundiais de 34 e 38. O futebol espanhol entrava na sua primeira idade de ouro, Inglaterra continuava a ser o centro do mundo e países como a Alemanha, França, Escócia e Portugal tinham também algo que dizer nesta história. Recuperemos as grandes equipas que marcaram a década de cada nação e temos o listado perfeito para essa prova europeia que nunca aconteceu.

Esta foi a década do Arsenal de Herbert Chapman, o pai do WM. Equipa defensiva que apostava sobretudo nos lançamentos largos de Cliff Bastin para encontrar o golo, para muitos foi a mais científica e perfeccionista formação da época. Venceu quatro ligas consecutivas em Inglaterra e só dois conjuntos verdadeiramente lograram-lhe fazer sombra: o Everton do goleador Dixie Dean, talvez o mais eficaz avançado do futebol de então a par do italiano Sílvio Piola, e o Aston Villa de Jimmy Hogan, o mesmo homem responsável pela introdução do futebol de toque no continente. O escocês certamente que gostaria igualmente de defrontar Rangers e Celtic, equipas que por essa época pouco tinham que invejar aos melhores conjuntos ingleses.

Do outro lado do continente presença obrigatória no torneio teriam os alemães do FC Nuremberg e do Schalke 04. Os primeiros foram o primeiro grande clube germânico, cimentando o seu sucesso desde a década de 20. Aos segundos há pouco que se possa dizer mais de que definiram uma era com o seu hipnótico Schalker Kreisel , um jogo de passe curto que seria mais tarde emulado por Meisl com a seleção austríaca e que se apoaiva no génio de Fritz Szepan. Se havia uma equipa que se atrevia com um modelo de jogo similar aos padrões de hoje, essa seria o onze de Gelsenkrichen.

Mas os grandes candidatos encontraríamos no conjunto de equipas centro-europeias. Os checos Sparta e Slavia de Praga, os austríacos First Vienna e Rapid Vienna onde deambulavam os elementos do Wunderteam e claro, os italianos Juventus (de Orsi e Monti) e Inter-Ambrosiana liderados por Giuseppe Meazza. Entre estes seis, se juntarmos Schalke e Arsenal, poderíamos encontrar os oito melhores conjuntos do futebol europeu de então. Mas é preciso não esquecer o futebol latino, numa fase menos avançada da sua evolução mas onde já brilhavam o Sete e Sochaux em França, o Athletic Bilbao de Blasco e Bata e o Barcelona de Ramallets e Samitier em Espanha e o FC Porto de Pinga, o SL Benfica de  Francisco Costa e o Sporting de Vianinha. Equipas que ainda não estavam ao mesmo nível dos rivais do centro da Europa mas que mostravam já estar noutro nível de competitividade nos seus países de origem.

Um modelo de hoje com os grandes de ontem

Era impossível, com os meios da época, desenhar um torneio destas características. O modelo semi-profissional, a falta de transporte e a ausência dos milhões que hoje dão forma ao futebol europeu fariam sempre desta hipotética Champions League uma mera utopia. Ocasionalmente os adeptos podiam desfrutar de algum destes duelos desportivos com as digressões que muitos clubes faziam para recaudar dinheiro. Por Portugal, por exemplo, passaram algumas destas formações e encontraram mais do que dificuldades para sair vencedoras. A vitória do FC Porto sobre o First Vienna em 1932 é apenas um bom exemplo de como a história não deixou muitos dos grandes clubes da época medirem-se por um troféu comum.

Mas para aqueles que pensam que os grandes clubes e jogadores são algo de um passado recente convém relembrar que em dias tão distantes como esses já havia matéria-prima de sobra para fazer a bola sonhar com tardes inesquecíveis de bom futebol.

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