Na década de 80 o Calcio viveu a sua maior idade de ouro. O futebol italiano sofreu uma profunda metamorfose que lhe permitiu sair de uma crise institucional e desportiva única para reconverter-se na liga mais forte do planeta. Essa mudança foi também uma obra de marketing perfeitamente preparada e que teve na revolução dos emblemas dos seus clubes mais célebres o exemplo perfeito de como o Calcio queria mudar a sua imagem para sempre

O ponto mais baixo da história do Calcio

Os anos oitenta começaram da pior forma para o futebol italiano.

O país vivia uma crise histórica de resultados. As equipas transalpinas tinham deixado de ser uma potencia continental. Depois de terem vivido uma primeira etapa dourada no pós-guerra, nos anos que separaram o excitante “Gran Torino” ao cínico “Grande Inter”, a década de setenta tinha marcado um profundo ponto de inflexão. A retirada dos grandes interpretes dos anos sessenta, a proibição de contratar estrangeiros – estabelecida depois do fracasso da seleção no Mundial de 1966 – estava a passar factura. Os clubes italianos na Europa eram facilmente superados pelos seus rivais do centro e norte da Europa e tinham apenas quatro vagas para os três torneios, números à altura de países como a Checoslováquia ou Bélgica e atrás de outros sete países.

Desde 1969 que uma equipa italiana não vencia a Taça dos Campeões Europeus e tinham passado já sete anos desde a última presença numa final. O mesmo era válido para as restantes provas da UEFA. A esse cenário desportivo desolador, agravado pela péssima participação da “Squadra Azzura” no Europeu organizado no próprio país, juntou-se o maior escândalo desportivo da história até então. O Calciopoli provocou a detenção de vários dirigentes e jogadores, a despromoção e suspensão de clubes históricos como o AC Milan e a SS Lazio e abalou as bases da pirâmide desportiva do país. As detenções dos apostadores Massimo Cruciani e Alvaro Trinca abriu a “Caixa de Pandora” do Calcio e parecia ser impossível dar a volta à situação sem uma profunda revolução, em todos os sentidos. No meio do caos o futebol italiano logrou um renascimento inesperado mas perfeitamente planeado que abriu caminho a quase vinte anos de hegemonia entre as principais ligas do Velho Continente.

A chegada da legião estrangeira

A primeira, e mais determinante das medidas, foi a reabertura do mercado de transferências a jogadores estrangeiros o que permitiu um influxo imediato de jogadores de nível mundial a equipas que estavam, á época, no meio do pelotão europeu. Um estrangeiro em 1980, dois em 1981 passou a ser o novo limite por equipa nas inscrições em cada temporada. Falcão, Sócrates, Zico, Maradona, Platini, Boniek, Krol, Bertoni, Brady Preben Elkjaer, Rummenigge, Laudrup ou Rush chegaram nos primeiros anos da década aos principais clubes da liga. A partir de aí começou a sua revolução nos terrenos de jogo. Mas fora era preciso fazer algo igualmente impactante.

As duras suspensões de jogadores e clubes – incluindo os internacionais Albertosi, Giordano e Paolo Rossi, recuperado  – deram uma imagem nunca vista de dureza política com a corrupção e a organização do Mundial de 1990 permitiram operar as devidas obras nas infra-estruturas tão decadentes do Calcio. Mas para os adeptos que viveram na pele esses anos poucas mudanças foram tão simbólicas e inesperadas como a campanha de marketing conjunta que revolucionou a forma dos emblemas dos grandes clubes do país da “bota”.

Emblemas, a alma de um futebol renovado

A mudança acompanhou os novos tempos onde o aspecto visual parecia ser cada vez mais relevante. A maior parte dos clubes da Serie A chegou a um acordo para revolucionar a sua própria heráldica e foram criados projetos paralelos que davam completamente a volta a alguns emblemas históricos. Houve vários clubes onde a variação foi minimalista, mantendo as bases dos seus logos emblemáticos mas noutros casos a revolução foi tremenda. Uns clubes foram ás suas próprias origens, no inicio do século, para resgatar inspiração. Os novos emblemas – visíveis sobretudo em publicações como as coleções de cromos Panini, as páginas de jornais como La Gazzetta dello Sport ou na transmissão de resumos televisivos no mítico programa da RAI, Domenica Sportiva – deram o toque para esta nova era. Em muitos casos os artistas gráficos eram os mesmos de clube para clube.

Em Milão deram-se algumas das metamorfoses mais evidentes. O Inter, que historicamente tinha apresentado como emblema um circulo com as iniciais do clube adotou um novo formato que dava o protagonismo a uma serpente – il Bischione, símbolo do ducado lombardo- sobre um fundo branco atravessado por uma tira negra e outra azul. Esse emblema manteve-se, como a maioria dos novos logos, até ao inicio dos anos noventa. O do seu rival, o despromovido AC Milan, foi igualmente radical mas de menor duração. Um diabo que durou apenas duas épocas antes de voltar a ser substituído pelo emblema original.

Em Itália tanto a Lazio como a Roma também procuraram aderir aos novos tempos, tempos que no caso dos giallorossi eram de glória. Os laziale trocaram a velha água imperial por uma água futurista em tons azuis claros enquanto que os romanos, que sempre tinham apresentado a velha imagem de loba Luperca amamentando os gémeos Rómulo e Roma passaram a exibir um emblema mais agressivo, uma loba com um ar ameaçador sobre um fundo redondo. Em Florença os “Viola” também estilizaram o velho símbolo da cidade ducal – a flor de lis vermelha sobre fundo branco  – de forma a incluir o “F” do clube enquanto que em Bergamo foi a estilização da imagem da própria Atalanta, personagem mitológica, que prevaleceu sobre o emblema original. Em Bari surgiu a imagem icónica do “Galo” enquanto que em Verona, terra ainda exclusivamente do Hellas, recuperou-se a imagem da celebre ponte que cruza a cidade e que recorda a paixão antiga de Romeu e Julieta. Ao largo da década houve também variações estéticas nos emblemas dos grandes de Turim – um cavalo e um toro mais estilizados no caso de Juventus e Torino respectivamente, sobre o fundo das cores de cada clube – e de Génova ainda que bastante menos radical.

Os novos emblemas estavam em todos os lados. Estampados nas camisolas – que se passeavam já de cabeça alta por toda a Europa – nos cachecóis e bandeira, produtos de marketing que tiveram também em Itália uma difusão histórica nessa década, e recreados nos “tifos” das Curvas, para lá da regular exposição nos meios de comunicação.

A nostalgia da era de ouro do Calcio

A mudança não agradou a todos, no entanto. A principio da década de noventa a esmagadora maioria dos clubes recuperou os seus emblemas originais – ainda que alguns trabalhados de um modo mais moderno – e a esmagadora maioria dos projetos que tiveram vida na década de oitenta foram relegados para a história. Inevitavelmente a decadência da Serie A na última década foi confrontada com a nostalgia desses anos de ouro e ao recuperar essa imagens de apoteose, muitos desses emblemas perdidos na memoria foram também recuperados. Alguns voltaram a ser utilizados pelos clubes de forma singular – tal como equipamentos concretos desses anos reutilizados pelos clubes de forma especial – e até mesmo por adeptos e “Curvas”.

Revolucionários na sua origem, vitimas de um desejo de regresso às origens, hoje as imagens que marcaram a maior revolução na história do futebol europeu depois do renascimento da liga inglesa sob forma de Premier League, voltam a sentir-se parte do presente. Foram os emblemas com que cresceu mais do que uma geração e seguem tatuados nas almas de muitos adeptos como reflexo de tempos felizes. Foram também a clara evidencia do triunfo do marketing num mundo que começava – com os patrocínios e a entrada das empresas privadas de televisão no mercado – a caminhar para outro universo.

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