A primeira geração de agentes de futebol

A figura dos agentes hoje é omnipresente ao mercado de transferências mas nem sempre foi assim. Ainda que as primeiras noticias de agentes remonte aos finais do século XIX foi na Inglaterra dos anos sessenta que o seu papel se mediatizou. A primeira geração de homens de negócios a saltar à ribalta forjou-se nos anos mais loucos do futebol britânico.

A ascensão dos empresários de futebol

O mercado de transferências num ano qualquer da segunda metade dos anos sessenta não era fácil. Muitos países estavam, pura e simplesmente, fechados a jogadores de fora. Era o caso de Itália ou de Espanha, o primeiro por culpa da debacle no Mundial de Inglaterra, em 1966, e o segundo por questões políticas. Na Alemanha imperava um máximo salarial que fazia do país um alvo pouco atrativo e franceses, holandeses e portugueses não tinham dinheiro para lutar pelos melhores jogadores do continente. Os jogadores britânicos estavam, portanto, condenados a vaguearem pelas ilhas. Nem sempre tinha sido assim. Espanha e Itália tinham sido mercados ativos a partir de meados dos anos sessenta e até houve quem tivesse provado sorte nas Américas antes de tornar-se moda. Na própria estrutura do futebol inglês algo também estava a mudar. O trabalho incansável de Jimmy Hill e do sindicato dos futebolistas estavam a ponto de enterrar o salário máximo que os jogadores podiam receber.

Sem essa histórica limitação – imposta pela federação à liga a finais do século XIX – o mercado começou a mover-se a uma velocidade vertiginosa. Hoje podia parecer um passo de tartaruga, tendo em conta o ritmo do mercado atual, mas na altura estava ao mesmo ritmo da corrida espacial. Nesse renascimento comercial do futebol inglês saltaram de novo à ribalta os agentes desportivos. O seu papel era quase simbólico, muito distante das teias tecidas hoje pelas grandes agências, com as suas turvas relações com fundos e clubes, mas significava uma aproximação evidente ao mundo do espetáculo que era, ao mesmo tempo, um pontapé na herança obreira do jogo do povo. Não era por acaso que muitos desses agentes das estrelas britânicas fossem, igualmente, responsáveis das carreiras de atores, músicos e outros desportistas.

A primeira transferência milionária com um agente

A primeira mítica geração de agentes teve nomes próprios.

O pioneiro entre todos  foi  Teddy Sommerfield. Conhecido agente de atores da elite interpretativa londrina, Sommerfield entendeu que o futebol era uma nova oportunidade de negócio quando as competições europeias começaram a aproximar o continente à volta de uma bola e os contratos publicitários foram acrescentando zeros. Sommerfield foi chave no primeiro grande negócio da história do futebol inglês, a transferência do galês John Charles do Leeds para a Juventus. Os ingleses necessitavam desesperadamente de fundos mas estavam reticentes em vender a sua estrela a um clube rival. O Real Madrid foi o primeiro a aparecer com uma proposta para unir o génio de Charles a Di Stefano e Kopa. Estávamos em 1957.

O galês rejeitou a oferta mas dias depois o clube apareceu com um novo clube interessado, a Juventus de Turim. O agente do clube, Gigi Peronace, era conhecido de Sommerfield, habituado a viajar ao norte de Itália com muitos dos seus clientes do mundo do espetáculo. As três partes reuniram-se no hotel Queens em Leeds. Sommerfield entendia pouco de futebol mas um dos seus clientes era o narrador oficial da BBC, Kenneth Wolstenholme, e graças à um curso rápido pôde expor a Charles em detalhe o contrato apresentado pelos italianos. Era algo inédito, como contou Charles mais tarde. A imprensa, que já sabia que o negócio seria oficializado não entendia a demora nem que um jogador tivesse alguém ao seu lado analisando, ponto a ponto, o novo contrato. Sommerfield regateou tudo o que pôde, forçando as negociações até bem entrada a noite. Tudo acabou por correr como esperado e Charles transformou-se numa das maiores estrelas da Serie A. A porta para os agentes estava aberta.

Os nomes da primeira geração de agentes

A partir de meados dos anos sessenta a atividade dos agentes intensificou-se.

Ken Stanley abriu um escritório em Manchester, a partir de onde geriu a vida profissional de duas das maiores estrelas da sua geração, o escocês Dennis Law e o norte-irlandês George Best. Stanley tinha seguido as pisadas de Sommerfield e levado a Law a assinar pelo Torino. Quando a experiência fracassou, repescou o futebolista e facilitou a sua chegada a Manchester. Foi aí que conheceu Best, quem rapidamente o contratou para gerir a sua imagem pública, cada vez mais exigida à medida que o “Quinto Beatle” se popularizava com a juventude britânica.

A esse grupos foram-se juntando outros futebolistas proeminentes de Manchester, em particular Alan Ball e Mike Summerbee, jogadores do City, que transformaram Stanley num dos agentes desportivos mais influentes do país. Russel McCormack era o principal nome na vida desportiva americano, intimamente ligado ao mundo do espetáculo e além de ter tentado levar para o futebol norte-americano a Bobby Moore, trabalhava regularmente com o Chelsea. Foi aí que se popularizou, primeiro mediano o regresso de Jimmy Greaves a Londres da sua azarada experiência em Milão, e depois atuando como agentes de vários futebolistas do Chelsea, um clube com uma legião de adeptos com ligações ao mundo teatral e cinematográfico da noite da capital.

Os valores envolvidos – tanto nas transferências como nos anúncios publicitários – eram irrisórios com o presente. Na altura serviam, tal como os prémios de jogo, como rendimento suplementar para os futebolistas e nenhum agente podia sobreviver apenas com as comissões exclusivas do mundo do futebol. A maioria trabalhava com atores, personagens do mundo da televisão e do espetáculo mas também com firmas de roupa desportiva que começavam fazer-se notar. Alan Ball teve como agente – depois de Stanley – um dos homens fundamentais para a afirmação internacional da marca Hummel, Brian Hewitt, para quem aceitou jogar de chuteiras brancas quebrando com décadas de tons escuros nos pés dos futebolistas. Muitos desses agentes atuavam a uma escala meramente local, concentrando-se sobretudo em zonas urbanas concretas. A maioria nem sequer se aventurava em excesso em clubes donde sabiam que a influencia de um treinador era indiscutível. Homens como Bill Shankly ou Brian Clough recusavam-se determinantemente a falar com agentes, tratando exclusivamente com os futebolistas. Dennis Roach, o agente mais influente dos anos setenta e oitenta, só conseguia negociar a Trevor Francis, jogador do Nottingham, contratos de patrocínio. Quando se tratava de negociar diretamente contratos com o clube, era habitual Clough fechar-lhe a porta na cara.

O impacto da lei Bosman

O papel dos agentes tornou-se relevante a partir dos anos sessenta sem nunca ter deixado de ser verdadeiramente residual, conhecendo uma substancial melhoria quando se tratou de levar algumas das estrelas do futebol europeu para os Estados Unidos, a partir de meados dos anos setenta. Um destino inevitável com mais de meia Europa com as fronteiras fechadas ao mercado. Só a legislação conhecida como Lei Bosman foi capaz de mudar o cenário.

Da noite para o dia os clubes passavam a um segundo plano e os jogadores transformavam-se nos genuínos protagonistas à hora de negociar, o que por sua vez despertou a necessidade da maioria de contar com auxiliares. Alguns desses agentes tinham começado a sua carreira silenciosamente nos anos sessenta em Inglaterra e foram fundamentais nos primeiros anos para deixar vincada a sua influencia. Outros apareceram do nada, com os novos tempos, para estabelecer os seus próprios impérios de influencia.

Talvez sem a lei Bosman um agente como Jorge Mendes, figura internacional indiscutível, tivesse ainda hoje de compaginar os seus negócios como assessor de jogadores à exploração publicitária de recintos desportivos. Esse era o mundo da elite dos agentes nos anos sessenta e no entanto, foi precisamente com esses pioneiros, que a comercialização do futebol começou a dar os seus primeiros, tímidos mas determinados, passos rumo ao mundo que conhecemos hoje.

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1 Comentário

  • Ola tudo bem ? Parabens pela publicacao, gostei muito da historia do Sir. Jimmy Hill, apaixonante, eu moro aqui em Uk , ja fiz um curto estagio como assitente de treinando de jogador de futebol Brazilian Academy soccer, mas por motivos financeiros tive que partir para o trabalho convencional para me manter financeiramente, hoje por motivos nobres e adoracao pelo futebol e com o idioma ingles melhor etc… eu procuro em Londres um curso de agente de Futebol certificado, gostaria que me indicasse um curso deste nivel e outros curso nescessario da categoria etcc aguardo anciosamente um retorno um forte abraco

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