Ser vizinho de um dos clubes mais bem sucedidos da história é sempre um problema. Para o Atlético de Madrid tornou-se um estimulo. A equipa que viveu os primeiros anos associada ao Athletic Bilbao é hoje uma referência alternativa indiscutível num futebol espanhol e europeu cada vez mais bipolarizado. Poucos são os que se lembram da sua primeira grande época áurea, quando começaram a ser conhecidos como os “colchoneros“.

Colchoneros, um grande do futebol mundial

Entre a imprensa indefectível do Real Madrid o Atlético ganhou a principio dos anos 2000 a alcunha de “Pupas“, um termo espanhol similar ao infantilismo luso “doi-doi”. Eram anos difíceis para um histórico, despromovido depois de sucessivos erros de gestão protagonizados por Jesus Gil y Gil e que impediu ao clube desfrutar da plenitude da grande época áurea espanhola na Champions League a finais dos anos noventa e princípios do novo milénio. Até à chegada de Simeone, o clube só tinha vencido um titulo de Liga, em 1996, desde finais da década de setenta. Muito pouco para o segundo conjunto da capital espanhola e, historicamente, o terceiro grande de Espanha.

A excelente gestão de Simeone, um homem que soube recuperar a “alma colchonera” a ponto de transformar o Atlético numa das equipas mais competitivas do mundo, ajudou a superar o trauma da penosa gestão de Gil y Gil.  Desde o afastamento do polémico presidente que os seus sucessores, o filho Miguel Angel Gil e o produtor cinematográfico Enrique Cerezo, têm contribuído para afastar o clube dos seus adeptos com decisões unilaterais como a mudança de estádio ou a venda de figuras acarinhadas pelos seguidores, mas no terreno de jogo, o clube recuperou o orgulho ferido e deu um pontapé no pessimismo levando à glória nacional e europeia os adeptos, conhecidos no futebol espanhol como “os colchoneros”.

A origem do termo “colchonero”

O termo colchonero remonta aos anos 40.

Por essa época o clube começou a estabelecer-se de forma definitiva e inequívoca como um dos grandes de Espanha, depois de ter sido fundado em 1903 por bascos residentes em Madrid e adeptos do Athletic Bilbao. Na sua origem, foi fundado como uma sucursal do Athletic em Madrid a tal ponto que ambos clubes não se podiam defrontar ao serem considerados como uma entidade paralela, situação que se manteve até 1921. Na relação fundacional com a equipa basca, jogou um papel importa a utilização por parte das equipas do Athletico de Madrid as mesmas cores que o seu homónimo de Bilbao.

Originalmente essas cores eram azuis e brancas, com calções azuis escuros, o equipamento inspirado no Blackburn Rovers que tinha sido a origem da primeira camisola do Bilbao.

Em 1911 as tiras vermelhas e brancas surgiram como equipamento principal de ambos clubes como consequência das ligações do clube basco com a cidade portuária de Southampton. Conta a lenda que um director do Bilbao, ao não encontrar à venda camisola dos Rovers, numa das suas viagens em 1910, e quando estava em Southampton para tomar o barco rumo a casa, fez-se com vários equipamentos do clube local.  As celebres camisolas às listas brancas e vermelhas tornaram-se num ícone das entidades. Quando chegaram, meses depois, a 22 de Janeiro a Madrid para a sua estreia oficial com os madrilenhos ficou lançada a base do que seria, curiosamente, a origem ao seu apelido muitos anos mais tarde.

A finais dos anos trinta e inicio dos anos quarenta viviam-se os turbulentos anos posteriores à crua e dura Guerra Civil, época de penúria em todo o país. Nessa época a maioria dos colchões de lã comercializados em Espanha eram fabricados pela mesma empresa e o desenho era exatamente igual à camisola atlética. Um colchão branco com quatro tiras vermelhas mais grossas e fáceis de identificar.  A alcunha de “colchoneros” começou então a ouvir-se – originalmente atribuída por adeptos rivais mas mais tarde adoptada pelos próprios – e ficou de forma definitiva associada ao clube. Da mesma forma que o conjunto acabou intimamente ligado, décadas depois, à praça Neptuno no Paseo del Prado, onde nos anos noventa o Atlético começou a celebrar os seus títulos como resposta à ocupação da vizinha fonte Cibeles pelos eternos rivais. Fonte essa que foi originalmente cenário dos festejos da vitória espanhola sobre a Dinamarca em 1986.

Dos anos do Atlético de Aviacion à conquista do Mundo

Durante a Guerra Civil o conjunto mudou de nome para Atlético Aviacion, associando-se à força área falangista que procuravam um clube para prosseguir a labor competitiva que tinham fomentado entre os seus homens durante a guerra. O clube madrileño, que antes do arranque do conflito estava em vias de ser despromovido, foi repescado e iniciou assim uma idade de ouro que se prolongou até aos anos cinquenta – já recuperando a sua designação original – graças á magia da sua mítica “Delantera de Seda” onde pontificava o génio africano Ben Barek.

Por essa altura a expressão equipa “colchonera” já era de uso habitual entre jornalistas e adeptos – os “atléticos” também são carinhosamente conhecidos como “indios” – embora muitos já se tivessem esquecido da sua caricata origem. As suas cores, o “rojiblanco”, essas, passaram imediatamente para a posteridade superando inclusive a popularidade do clube basco com quem se associaram para dar os seus primeiros passos e o histórico Southampton. Hoje a camisola vermelha e branca ás listas verticais evoca apenas o ruído ensurdecedor do Vicente Calderón, as gestas dos “atléticos” na Liga e nas competições europeias e a filosofia cholista de “partido a partido”. Os “colchoneros” já são parte indiscutível da história do futebol mundial!

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