Dino Dini é Deus”. Uma frase que podia ter, perfeitamente, ilustrado algum mural perdido por esse mundo fora da mesma forma que na industrial Inglaterra dos anos 60 a mesma frase surgia em cada esquina com o nome de Eric Clapton. O inventor da saga Kick-Off ajudou a criar o conceito de fenómeno futebolístico no universo dos videojogos e com ele abriu caminho a uma profunda profissionalização dos videojogos de futebol.

Um novo conceito de entretenimento

Em Maio de 1989 o muro de Berlim ainda não tinha caído, o futebol inglês continuava a viver a sua particular via crucis e os neo-conservadores governam o mundo ocidental. O mundo estava prestes a sofrer uma abrupta mudança mas antes da história política usurpar o protagonismo, apareceu Dino Dini.

O designer informático italiano tinha em mente um projeto que iria revolucionar o mundo dos videojogos. Durante a década de oitenta, o aparecimento das primeiras consolas de expressão mundial, ajudaram a criar o conceito de videojogo de entretenimento. Os computadores pessoais e estas pequenas e complexas máquinas, podiam ser utilizadas para algo mais do que o trabalho.

O ócio começava também a surgir como elemento importante no desenvolvimento informático das grandes marcas e era necessário preencher o mercado com novos e inovadores produtos. Antes de Dino já existiam jogos de computador e consolas de futebol. Mas nenhum conseguiu aguentar a concorrência da sua exitosa saga videofutebolística: Kick Off.

A marca Kick-Off

Kick Off era radicalmente diferente a tudo o que tinha sido feito até então. Partia de premissas bastante básicas mas rapidamente conquistou o público. Obteve a máxima pontuação em várias revistas especializadas e ofereceu aos jogadores uma experiência visual surpreendente. O jogo era mais rápido e dinâmico que o anterior sucesso comercial, Microprose Soccer, e sobretudo mais complexo de gerir o que o tornava mais estimulante para o jogador. Havia repetições de lances, jogadores fisicamente distintos e até os árbitros comportavam-se de forma distinta de encontro para encontro.

Da noite para o dia, Dini transformou-se no guru dos videojogos. No ano seguinte a empresa para a qual trabalhava, Anco, apresentou uma versão melhorada que baptizou como Player Manager. Era o primeiro título a introduzir a gestão de treinador num formato de videojogo. As tácticas ganhavam um papel preponderante, nascia o inovador conceito de carreira e quando no final do ano surgiu o Kick-Off 2, era possível misturar os logros conseguidos num jogo e utilizá-los na segunda versão de Kick-Off, uma novidade absolutamente extraordinária para os utilizadores da Atari e Amiga, as plataformas onde se podia desfrutar do jogo.

A influência de Dino Dini

O aparecimento da marca Sensible Soccer – desenvolvida pelos autores originais do Microprose Soccer – ajudou a criar a primeira grande guerra de marcas rivais no mercado dos videojogos de futebol. Mais de uma década antes do braço de ferro entre a Electronic Arts e a Konami pela supremacia do mercado, o mundo dividiu-se entre seguidores “Sensi” e os de “Dino”.

O designer preparava a terceira sequela do seu trabalho original para responder aos avanços do seu novo rival quando desentendimentos financeiros com a Anco levam-no a aceitar um convite da marca Virgin para explorar a sua criatividade num novo formato. Sem os direitos do nome Kick-Off, Dino Dini segue o seu caminho com a saga Goal!. Em 1993 lança o primeiro videojogo sob a nova designação comercial. É um sucesso. Apesar de incluir vários aspectos que já existiam no Sensible Soccer, o novo jogo mantém o traço de identidade original reconhecido do autor. Enquanto a Anco continua a publicitar os seus novos Kick-Off com um modelo radicalmente diferente do original, Dini   seguia com a sua própria linha de jogos. Dino Dini Soccer e Three Lions.

Quando este último foi lançado, a marca Kick-Off começava a desaparecer rapidamente das listas de vendas. Sem que ninguém contasse com isso, uma marca canadiana irrompia no mercado com um produto absolutamente original e apoiado diretamente pela própria organização responsável por gerir o futebol mundial: a FIFA.

Os avós dos videojogos modernos

Depois do fracasso de Three Lions – e da impossibilidade de resgatar a saga Kick-Off da sua curva descendente – Dino Dini abandonou a concepção de videojogos. O aparecimento em força de novos modelos de consola – Sony Playstation, Sega Saturn, Nintendo – mudou completamente o conceito original que o autor de Kick-Off tinha parcialmente idealizado a final da década de oitenta.

No entanto, a popularidade do nome Kick-Off manteve-se. Durante vários anos houve sucessivas tentativas para resgatar o modelo do esquecimento. Todas fracassaram. A hegemonia FIFA só seria realmente desafiada pelo aparecimento de um novo produto idealizado no Japão e aos designers gráficos da década de oitenta como Dini restava-lhes o consolo emocional de terem sido os pioneiros das primeiras sagas épicas da cultura de videojogos dedicados ao mundo do futebol.

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