Durante quatro anos o futebol foi o escape de uma equipa repleta de magos que souberam desafiar um império brutal que só soube destruir o sonho de um visionário pela força. O Wunderteam foi mais do que uma invenção desde génio precoce chamado Hugo Meisl. Foi o símbolo do desafio ao império nazi de Adolf Hitler de um grupo de guerreiros com a bola nos pés que lançaram as bases do mais belo futebol do centro da Europa. Tradição recuperada, vinte anos depois, por outros magos de sotaque magiar.

O fenómeno da cultura das cafetarias

Na década de 30 o futebol já era um fenómeno mais do que consolidado. Cada país tinha já formada a sua liga e as duas primeiras edições do Mundial de futebol tinham apresentado ao mundo o poderio do jogo sul-americano (Argentina, Uruguai) e a eficácia do Calcio italiano face à poesia do jogo francês. A Inglaterra continuava isolada do Mundo, acreditando na sua total superioridade e no coração da Europa começava a nascer um novo estilo de jogo, arrojado e profundamente belo.

Em Abril de 1931 a equipa orientada pelo mago vienense começou uma série inesquecível de jogos sem perder. Durou mais de ano e meio (até Dezembro de 1932) e lançou as bases do jogo bonito de toda a década, assente no toque rápido e versátil de um verdadeiro poeta chamado Mathias Sindelar.

Meisl, visionário como poucos na história do desporto rei, aproveitou as lições aprendidas durante uma viagem ás ilhas britânicas. Em vez de seguir o modelo inglês do seu amigo intimo Herbert Chapman – inventor do WM e à época técnico do invencível Arsenal – preferiu apostar por uma variante do modelo escocês de James Hogan, muito mais assente no toque de bola no pé e no passe rápido em lugar dos lançamentos longos e em profundidade. Sem inovar no esquema táctico, que continuava a ser o inevitável 2-3-5 (Meisl nunca acreditou no WM) o técnico chegou à sua Áustria natal e colocou em prática toda a teoria que tinha aprendido.

Tomou o comando da seleção austríaco e rodeou-se de jovens talentosos que atuavam principalmente nos clubes da capital. Pekarek, Smitsik, Vogl, Schall, Zizchek, Nausch e acima de tudo o “Homem de Papel” (devido à sua compleição física e rapidez) Mathias Sindelar, foram as bases em que o técnico montou o seu sistema de jogo, como um carrousel, onde a troca de bola a meio campo e o desdobramento do eixo ofensivo provocava uma série de desiquilibrios na defesa contrária. No sistema de Meisl a táctica não era fixa.

O médio centro apoiava o eixo ofensivo que atacava com seis elementos e era nele que começava e terminava todo o jogo ofensivo. Nascia a figura do 10, numa época onde ainda eram os extremos que habitualmente levavam a bola nos pés em campo. Apesar da táctica pouco inovadora, o estilo de jogo de Meisl preconizo uma autêntica revolução de pressing e circulação de bola, tornando-se no avô do que seria o Futebol Total. Foi dessa forma que durante 18 meses a Áustria foi uma seleção invencível.

Uma equipa invencível

Por essa época eram vistos no Velho Continente como a única equipa capaz de bater a armada sul-americana, que tinha dominado os Jogos Olímpicos de 1928 e logo o Mundial de 1930, então as duas únicas aventuras internacionais do beautiful game. Na prova seguinte, marcada em 1934 para França, os austríacos lideravam as apostas dos favoritos e os primeiros jogos deram razão aos seus adeptos. Depois de vencer por 6-0 a vizinha Alemanha – num jogo que traria futuras consequências politicas – 6-2 a Suíça e 8-0 a vizinha Hungria, a equipa de Meisl chegava ás meias-finais com clara vantagem. Só que o jogo disputado sobre um imenso temporal que impediu a rápida circulação de bola dos austríacos ficou marcado por um garrafal erro arbitral, quando um avançado italiano empurrou o guardião austríaco e o árbitro fez vista grossa. Uma derrota que teve mão de Mussolini (a Itália venceria a prova e reeditaria o triunfo quatro anos depois, também após fortes pressões do Duce) e que destruí a fama de invecibilidade austríaca.

No entanto, e tal como sucederia mais tarde com os seus sucessor húngaros, a fama do Wunderteam ficou. De tal forma que Adolf Hitler, que tinha assistido à humilhante derrota alemã, não hesitou após o Anchluss (anexação da Áustria à Alemanha) em incluir os jogadores austríacos na equipa alemão. Por essa altura já o maestro Meisl, o primeiro a defender a máxima “A melhor defesa é o ataque”, já tinha falecido (morrera em 1937) e Sindelaar, a sua maior estrela, rejeitou jogar por outro país. Acabou por suicidar-se poucos meses depois quando se preparava para ser preso pela Gestapo.

O fim do sonho vienense

O irromper da II Guerra Mundial destruiu a geração do Wunderteam. A maioria dos jogadores acabou por falecer ou ficar ferida durante o conflito e quando a guerra terminou, em 1945, o futebol austríaco estava de rastos.

O país nunca mais voltou a ter uma seleção de alto nível mas lançou as bases do futebol do centro da Europa, distinto a qualquer outro estilo de jogo do Velho Continente. Uma revolução que se transferiu na década seguinte para os vizinhos húngaros, e que nos anos 60 seria transformada, por outro técnico austríaco, Ernst Happell, na base do Futebol Total holandês provando que os ensinamentos do genial Meisl, o primeiro treinador verdadeiramente visionário da Europa continental, continham mais inovações que o novo esquema táctico tão em voga até ao irromper dos anos 50.

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