A luta pelo The Valley

Pode um clube de adeptos conquistar o poder político suficiente para manter o seu estádio a salvo? A ideia parece utópica, particularmente nos dias de hoje, mas na década de 80 foi uma realidade. Durante sete anos os adeptos do Charlton lutaram pelo The Valley. E venceram batendo o poder político no seu próprio terreno.

Os anos da Dama de Ferro

Os anos 80 foram dificeis de aguentar para os ingleses.

A admnistração conservadora de Margaret Tatcher emprendeu uma política de ajuste económico asfixiante e desmantelou parte da estrutura industrial do país. O país sentiu na pele as medidas da “Dama de Ferro” e o futebol, sempre fiel medidor da sociedade, não foi diferente. Os clubes ressentiram-se nos ingressos e os erros financeiros de anos transactos fizeram-se sentir. Mas, mesmo nesse cenário negro, nenhum adepto do Charlton Athletic imaginava, quando o clube foi reestruturado em 1984, que essa conjuntura podia significar um eterno adeus ao The Valley.

Construído em 1919, o estádio era um dos mais antigos e populares da área londrina onde o clube cresceu e fez-se forte. Resistiu aos bombardeamentos da 2º Guerra Mundial e foi reformado nos anos 60 para adaptar-se aos novos dias. Mas não era suficiente. O incêndio em Bradford, que vitimou 56 pessoas durante um jogo entre o clube local e o Lincoln City, foi um aviso das tragédias que marcariam a década. E um aviso às autoridades que começaram a realizar pontuais inspecções aos estádios mais antigos. O The Valley chumbou no exame e ao clube, em séria crise financeira, foi-lhe exigido um investimento incomportável para os cofres do clube. Incapazes de renovar a licença, os directivos do clube venderam o recinto depois de pedir ajuda aos conselheiros municipais de Greenwich. A não intervenção das autoridades, palavra-chave do dicionário “tatcherita” tornou a venda inevitável. Em 1985 o clube ainda disputou as duas primeiras jornadas em casa mas, para espanto dos adeptos, o terceiro jogo foi anunciado para o vizinho Selhurst Park, onde jogava o rival local dos The Addicks, o Crystal Palace. Em dois meses o estádio, deixado ao abandono, tornou-se no simbolo da decadência do futebol inglês mesmo antes de Heysel e Hillsborough precipitarem o célebre Relatório Taylor que iria mudar a face do futebol em Inglaterra.

Um partido para um estádio

Longe de aceitarem a venda do estádio, os adeptos do clube decidiram fazer tudo o que estava ao seu alcance para devolver ao Charlton a sua legitima casa. Depois de várias tentativas de persuadir a direção a conseguir empréstimos para a recompra dos terrenos, os adeptos formaram uma comissão que procurou, durante dois anos, um novo investidor para o clube. Os tempos de crise não convidavam a aventuras e ninguém surgiu com o dinheiro necessário.

À medida que o clube, desportivamente, vivia os seus melhores anos das últimas décadas, com um regresso inesperado à First Division, os adeptos continuavam a exigir um regresso ao The Valley. O novo dono dos terrenos tentou demolir o estádio para utilizá-los para a construção de um bloco de apartamentos mas encontrou resistência nas ruas da cidade e em alguns gabinetes municipais. Percebendo que só nos corredores do poder se poderia resolver eficazmente o seu problema, um grupo de adeptos do Charlton decidiu fundar um partido político para candidatar-se às seguintes eleições locais e, com isso, lograr influenciar desde dentro a posição do municipio de Greenwich no apoio ao clube.

O The Valley Party apresentou o seu programa eleitoral de forma clara: o seu único interesse era conseguir que o poder local apoiasse os adeptos na recuperação do estádio para o clube. Nas eleições de 1990, cinco anos depois do adeus do clube ao estádio, o partido logrou conquistar 11% dos votos (mais de 14 mil votos) e elegeu 22 deputados municipais. Influência suficiente para lograr que, finalmente, fosse criada uma plataforma oficial dentro do municipio para reabrir o estádio. O municipio de Greenwich abriu uma conta com dinheiros públicos a que se juntou o dinheiro recaudado entre adeptos, jogadores e directivos.

Regresso a casa

Em dois anos, durante os quais o Charlton jogou no Upton Park, casa do West Ham United, acumulou-se a quantia suficiente para recomprar os terrenos. Os próprios adeptos trabalharam nas obras de manutenção e reconstrução das zonas mais degradadas do recinto.

1992. Os dias de Tatcher tinham chegado ao fim e John Major, o seu sucessor em Downing Street, apresentou a cara mais amável do partido conservador, a despedir-se lentamente do poder que ostentou durante mais de uma larga década. O sucesso do Relatório Taylor potenciou uma série de obras de reestruturação dos mais emblemáticos recintos desportivos nacionais e entrando no mesmo espírito, o The Valley renasceu das cinzas.

Na seguinte eleição o Valley Party já não existia. O trabalho estava feito. Entre os adeptos do clube tinha-se conseguido o que nem directivos nem investidores tinham sido capazes de lograr. Graças aos seus seguidores, o clube voltou a jogar em casa e lançou-se de cabeça para a aventura da Premier League onde lograram os melhores resultados da sua história.

2.877 / Por
  • Alexandre Burmester

    Caro Miguel,

    Eu lembro-me muito bem desta saga do Charlton Athletic. Mas lembro-me de eles terem jogado em Selhurst Park, campo do vizinho Crystal Palace, enquanto não recuperavem The Valley. De jogarem em Upton Park, não me recordava.

    O The Valley chegou a ter lotação para 70.000 espectadores – estamos, claro, a falar dos tempos em que, em Inglaterra, atrás das balizas ficavam as “terraces”, bancadas onde se via o jogo de pé. Ecreioq ue, nessa altura, era o estádio de clube inglês com maior lotação.

    Um abraço

    Alexandre

    • Miguel Lourenço Pereira

      Alexandre,

      Efectivamente jogaram a maioria dos jogos em Selhurts Park mas quando o Wimbledon começou a partilhar o estádio com o Crystal Palace tiveram de mudar-se para o Upton Park antes de voltar a casa. Sem dúvida, era um estádio mítico e, talvez por isso, a luta dos adeptos tenha feito ainda mais sentido.

      um abraço