Durante os anos 90 a grande alternativa à hegemonia futebolistica em Espanha de Barcelona e Real Madrid surgiu, inesperadamente, com os olhos postos no Atlântico. O “SuperDepor” revolucionou o futebol espanhol e mostrou que era possível vencer com um projeto modesto e pragmático. Foi há vinte anos que o Deportivo a Coruña começou a sua história.

A mitologia do Depor

Bebeto, Djukic, Fran, Mauro Silva, Donato, Aldana, Lopez Rekarte.

Nomes próprios desta história que mergulha na mitologia do futebol europeu uma das suas maiores surpresas. Numa era onde o dinheiro começava a fazer, cada vez mais, a diferença, o Deportivo a Coruña apresentou uma versão alternativa de como encarar o futebol de alta competição. E transformou a sua política desportiva em gesta. E de gesta em gesta, tornou-se lenda.

Numa cidade que nunca tinha feito parte da história maiúscula do futebol espanhol, surgiu um clube sem medos e sem complexos, capaz de olhar de tu a tu aos grandes de Espanha. E de batê-los no seu próprio jogo. Nos últimos 20 anos foi o único emblema que logrou sagrar-se campeão fora do circulo histórico de Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid e Valencia, os quatro grandes de Espanha, se excluimos o Athletic Bilbao e a sua mitologia particular.

Um título que culminou uma história de sacrificios, surpresas e jogos que entraram para a posteridade do futebol espanhol. Um título que foi também, ironicamente, a reviravolta nesta fábula de heróis inesperados. Uma década depois de fechar com chave de ouro a sua lenda, o Deportivo caiu na Liga Adelante, a segunda divisão de onde tinha escalado, surpreendentemente, em 1990. Ao cometer os erros dos rivais e esquecer-se das virtudes do seu próprio passado, o Deportivo condenou-se a si mesmo. Mas mesmo no seu momento mais baixo nunca deixou os adeptos perderem rastro à memória do seu SuperDepor.

O 3 de Outubro de 1992

Arsénio Iglesias e Augusto César Lendoiro foram os arquitectos da história, os irmãos Grimm que escreveram esta lenda de surpresas e suspense desde o primeiro capítulo. Iglesias, que encontrou o Deportivo na obscuridade da segunda divisão em 1988, não chegou a estar presente no momento da consagração definitiva. Mas foi com ele que tudo começou.

O Deportivo tinha chegado por surpresa à liga espanhola e inevitavelmente o primeiro ano na elite desde 1973, época em que o clube era conhecido como o “elevador”, por subir e baixar de divisão ano sim, ano não, foi sofrido. Um play-off contra o Bétis fez a diferença e Iglesias e Lendoiro começaram a preparar a nova temporada com afinco. Uma mistura de jovens promessas, lideradas pelo irrepetível Fran, juntou-se a jogadores descartados pelos grandes e um trio de brasileiros fundamental: Bebeto, Donato e Mauro Silva. Ingredientes mais do que suficientes para protagonizar uma surpresa maiúscula.

Nessa época em que o Riazor, histórico estádio construido do outro lado da praia da A Coruña, ainda não tinha a sua quarta e definitiva bancada, o Deportivo tornou-se a equipa mais temida do futebol espanhol. Visitar terras galegas e sair com pontos debaixo dos braços tornou-se quase uma utopia. A 3 de Outubro de 1992 o clube recebeu o Real Madrid de Benito Floro, sério candidato a destronar o hegemónico Barcelona de Johan Cruyff. Os homens da Coruña eram lideres da prova à quinta jornada, ainda sem derrotas, perseguidos pelos merengues na tabela classificativa. O Real jogava com classe, um futebol ofensivo pragmático do homem que inventou em Albacete, anos antes, o conceito do futebol total manchego, o “Queso Mecânico”. Zamorano, Butrageño, Michel, Hierro e Sanchis eram os habituais heróis de infância dos pequenos que davam os primeiros pontapés na bola às portas do estádio mas nessa noite a cidade galega sentiu que estava a presenciar um fenómeno especial.

O Real Madrid esteve a vencer por 2-0, mas golos de Bebeto e Barragan, na própria baliza, deram a volta ao marcador e criaram na imprensa a etiqueta que ficou para a posteridade: “SuperDepor”.

O sucesso da era Iglesias

A equipa galega recebeu quinze dias depois o “Dream Team” e voltou a vencer, de forma clara, e manteve-se durante grande parte do ano à frente da tabela classificativa acabando a temporada no terceiro lugar. Bebeto sagrou-se “Pichichi”, o guarda-redes Liaño venceu o “Zamora” e as bases para o futuro estavam definitivamente consolidadas.

O ano seguinte foi ainda mais épico e traumático. Os homens de Iglesias bateram Barcelona e Real Madrid, outra vez, e chegaram ao último dia do campeonato como lideres. Jogavam em casa, contra o Valencia – que perdido no meio da tabela fazia figura de corpo presente – e a vitória servia para conquistar um titulo inesperado mas justo sempre que o Barcelona ganhasse o seu jogo no Camp Nou. Os homens de Cruyff cumpriram mas as celebrações antecipadas subitamente sofreram um sobressalto. No último minuto o Deportivo, que seguia empatado a zero, viu um penalty ser marcado a seu favor. Bebeto, o herói da equipa durante todo o ano, não quis marcar e o central Djukic falhou, adiando assim o primeiro título do clube.

A derrota na última jornada da época 1993-94 marcou profundamente Arsenio Iglesias.

O técnico anunciou a sua retirada ainda antes do arranque da temporada seguinte e deixou os adeptos do clube corunês a pensar no que seria o seu futuro. Pelo segundo ano consecutivo o Deportivo acabou em segundo, perdendo agora o título para o Real Madrid de Jorge Valdano, mas antes da última ronda. Terminar à frente do Barcelona e repetir a medalha de prata e vencer a Copa del Rey, pela primeira vez, não foi suficiente para mudar a opinião de Iglesias e para o seu lugar Lendoiro, o presidente que resgatou o clube da obscuridade, encontrou no basco Javier Irureta, o homem ideal.

“Jabo”, como era conhecido, manteve de pé a filosofia de Iglesias. Uma equipa sólida a defender, com um meio-campo com muito músculo e espaço para um criativo solitário e uma linha ofensiva móvel e vertical.

O título inesperado

Os resultados não acompanharam as exibições nos primeiros anos e o Deportivo sofreu para manter-se no topo da tabela nas épocas seguintes, particularmente depois das saídas de Bebeto e Aldana. A pouco e pouco o clube começava a rearmar-se, particularmente graças à paciência e olho clínico de Lendoiro, e com as chegadas de Djalminha, Roy Makaay e Pauleta, o clube encontrou a combinação certa para voltar a lutar pelo título que lhe tinha escapado anos antes.

Irureta alinhava uma equipa onde o virtuosismo de Victor, Fran e Djalminha era contra-balançado pelo trabalho de Mauro Silva, Flávio Conceição e Donato. Os golos de Makaay e a eficácia defensiva de Naybet, Romero e Manuel Pablo garantiam um equilibrio em ambos vértices do campo. E com esse alinhamento  o SuperDepor renasceu de forma definitiva.

Em 1998/99, o clube voltou à Europa ao terminar no sexto posto na tabela classificativa. No ano seguinte os “Turcos”, conquistaram o seu único título até hoje. A vitória por 2-1, no Riazor, frente ao Barcelona de Louis van Gaal, campeão nas duas épocas anteriores, lançou os galegos para o título que confirmaram a duas jornadas do final da época. Nessa época o Depor perdeu apenas dois jogos em casa (inesperadamente contra Racing e Numancia) goleando por 5-2 o Real Madrid. Os pontos conquistados em casa deram o colchão suficiente para gerir a vantagem na liga e consumar um milagre histórico. Pela primeira vez desde os anos da guerra, um clube fora dos grandes de Espanha, vencia o título de campeão nacional.

A formação do “EuroDepor”

Um título que marcou também uma metamorfose na vida do clube. Lendoiro ambicionou ir mais longe e começou a investir mais e mais dinheiro para melhorar a equipa. Chegaram jogadores como Juan Carlos Valeron, Diego Tristán, Sérgio, Luque, Pandini e a equipa tornou-se num dos mata-gigantes das provas europeias, transformando-se indiretamente num fenómeno de popularidade no “Velho Continente”.

Vitórias frente a Manchester United, Arsenal, Bayern Munchen, AC Milan e Juventus no Riazor ajudaram a criar a marca “EuroDepor” ao mesmo tempo que o clube mantinha-se como a grande alternativa interna aos grandes, terminando no segundo lugar em 2000-01 (atrás do Real Madrid) e 2001-02 (apenas batido pelo Valencia, no primeiro ano, desde 1983 que nenhum dos dois grandes de Espanha termina nos dois primeiros lugares da tabela). Na época seguinte o clube foi terceiro e lançou o definitivo ataque a um grande titulo europeu. A gesta definitiva do SuperDepor terminou em Abril de 2004 num mano a mano intenso com o FC Porto de José Mourinho.

Os espanhóis eram favoritos para chegar à final de Gelsenkirchen depois de terem eliminado de forma contundente o campeão em titulo, o AC Milan, mas depois de um empate sem golos no Estádio do Dragão, marcado pela expulsão de Jorge Andrade, um golo de penalty de Derlei em Riazor acabou com as esperanças da equipa galega. Foi a sua última gesta.

Nas temporadas seguintes, e à medida que os seus grandes nomes individuais deixavam progressivamente o clube, as arcas ressentiam-se da falta dos milhões da Champions League. A saída de Irureta fechou o ciclo iniciado por Iglesias e o Deportivo tornou-se de novo numa figura secundária do futebol espanhol. Mas para os seus adeptos, e para muitos seguidores europeus que fizeram do clube azul e branco um dos seus símbolos alternativos, a épica lenda do SuperDepor permanece viva, guardada no baú da história de um jogo controlado pelo dinheiro mas gerido pela ambição e génio de homens como os que fizeram do Deportivo uma equipa mítica.

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