Na província de Chiapas, no México, 400 mil pessoas tentam viver longe dos paradigmas sociais contemporâneos. O governo local liderado pelo subcomandante Marcos, herdeiro directo do zapatismo que sacudiu o país no início do século XX, luta por manter a causa viva. O futebol, para ele, tornou-se na forma perfeita de fazer com que o mundo não se esqueça que para eles a luta continua. No Inter de Milão, e em Javier Zanetti, os zapatistas de Chiapas encontraram o seu embaixador.

A solidariedade do Inter de Milão

Em Abril de 2005 chegou uma carta à sede do Inter, em Milão. Dirigida à direção, vinha da provincia mexicana de Chiapas e estava assinada pelo subcomandante Marcos, figura míticas dentro dos grupos de esquerda que apoiam o movimento zapatista desde a sua formação. O lider do governo local, uma espécie de estado dentro do estado mexicano de 40 mil km quadrados, habitado por 400 mil indigenas locais, pedia ao clube italiano que lhes enviassem bolas de futebol porque as deles tinham sido destroçadas pelo último raide das tropas governamentais. Mas o pedido, inusual à primeira vista, tinha outro objectivo: não deixar que a imprensa italiana, sempre afim ao movimento, se esquecesse da sua crua realidade.

E se a carta chegou ao Inter, e não ao AC Milan, por exemplo, também não foi por acaso. Não só o clube é dirigido por Massimo Moratti, um milionário do petróleo com um coração de esquerda – cuja mulher é vogal do partido dos verdes na câmara municipal da cidade – e uma paixão secreta pelo movimento. Mas também é o clube de Javier Zanetti, talvez um dos futebolisticas mais preocupados com os problemas politicas e sociais da América Latina. O lateral argentino não é só dirigente de uma fundação destinada a apoiar movimentos como o zapatista do México por toda a América. É também um jogador a quem o mundo escuta quando decide sentar-se a falar. E como era de esperar, Zanetti tomou a carta e não só tratou de enviar bolas, como foi pessoalmente a Chiapas para mostrar que o movimento não estava esquecido.

A influência de Javier Aguirre

Foi em 1994 que o movimento zapatista se declarou formalmente em rebeldia com o governo mexicano. Herdado o pensamento ideológico de Emiliano Zapata, reformista do principio do século XX  e figura chave na revolução agrária mexicana, herdou-se também a politica de guerrilha contra as forças governamentais. Durante esse ano, e nos seguintes, houve várias confrontos em Chiapas pelo controlo da região entre o exército da capital e a recém-formada EZLN, liderada pelo subcomandante Marcos.

A partir desse momento começou a conquistar apoios mediáticos importantes, entre os quais o filósofo uruguaio Eduardo Galeano (também ele um amante do futebol, autor do livro Futbol a sol y sombra) e o treinador mexicano Javier Aguirre.

Filho de emigrantes bascos que deixaram Bilbao quando as tropas falangistas tomaram o País Basco, foi educado dentro da ideologia abertzale e desde jovem se destacou na universidade da Cidade do México como um dos mais profundos apoiantes dos movimentos de esquerda e dos grupos indigenas no país. A sua consciência social e conhecimento do espaço mediático levou-o a explorar o futebol como arma social para apoiar o movimento. Em 1999 organizou um encontro entre uma equipa do movimento e alguns dos veteranos jogadores que disputaram o Mundial do México de 1986 com a camisola “tricolor”, equipa da qual ele fazia parte. Que os homens da EZLN tenham chegado ao campo sem chuteiras e equipamento, diz muito da situação que vivem. Que Aguirre tivesse pedido à mulher para desenhar um equipamento especifico para a ocasião, também.A partir desse momento o futebol seria, para sempre, uma das formas mais pacificas e influentes, do EZLN chegar até à opinião pública.

O testemunho foi rapidamente recolhido pelo muralista Banksy, que juntamente com uma equipa de futebolistas anarquistas de Bristol, no sul de Inglaterra, viajou até Chiapas para disputar um jogo amigável “anti-globalização”. Para comemorar o evento, o misterioso artista criou uma das suas obras mais emblemáticas, que serviriam igualmente de inspiração para que várias bandas musicais tomassem o movimento como uma das grandes inspirações para a sua música.

Em Itália, pela pressão dos partidos de esquerda, a causa dos indigenas de Chiapas tornou-se igualmente popular e Moratti e o seu director, Bruno Bartolozzi, foram dos primeiros a tomar cartas no assunto.

Zanetti, o porta-voz da EZLN

O Inter não só enviou o material solicitado como, a pedido de Zanetti, destinou todo o dinheiro acumulado das multas dos jogadores para ajudar a construir um hospital e uma escola na zona. O próprio Zanetti viajou pessoalmente para entregar o dinheiro e a partir daí a colaboração entre a sua fundação e o movimento tornou-se mais recorrente do que nunca.

O Inter, clube conhecido por ser um dos principais apoiantes de causas solidárias, continuou a enviar anualmente quantias de dinheiro consideráveis para os homens do subcomandante Marcos e por várias vezes ponderou a hipótese de viajar até à zona para disputar um jogo amigável, situação que ainda não se deu precisamente pela forte oposição do governo central mexicano.

Zanetti tornou-se, entretanto, numa das vozes mais solidárias e descontentes com a situação que se vive em Chiapas. O conflicto armado não chegou ao fim, definitivamente, mas a violência de 1994 desapareceu de forma quase definitiva. A comunidade vive num modelo de auto-gestão mas numa zona tão agreste, é difícil sobreviver sem ajudas do exterior. Numa carta divulgada à imprensa, enviada a Marcos, o argentino escreveu que “acreditamos na não-globalização, num mundo melhor onde se respeitam as diferenças de todas as culturas e por isso declaramos o nosso apoio à vossa causa”.

Outros jogadores do plantel, como Esteban Cambiasso, juntaram-se ao apoio mais sentido dos neruazurri, um clube que começou a ser conhecido por se posicionar na extrema direita italiana (nos anos do fascismo) mas que com a família Moratti, e essencialmente o atual presidente, deu uma profunda reviravolta na sua politica social, em contraste claro com o seu eterno rival, cujo o dono, Silvio Berlusconi, é também desde há muito um dos alvos ideológicos do zapatismo que em Chiapas prefere rematar a uma baliza do que disparar a um soldado.

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