A diagonal de Stanley Rous

Antes de ser presidente da FIFA, o britânico Stanley Rous actuou como árbitro antes da II Guerra Mundial. Consciente dos problemas do árbitro principal em mover-se entre os jogadores, criou nos anos 30 o sistema de controlo diagonal que se tornou na base do trabalho arbitral até aos dias de hoje.

Mais do que presidente da FIFA

A história recorda-se de sir Stanley Rous como o último presidente da FIFA antes da era comercial de João Havelange. O inglês perdeu em 1974, em vésperas do Mundial da Alemanha, a eleição para o cargo que ocupava há 13 anos, numa manobra política liderada pelo brasileiro contra a qual o seu espirito de cavalheiro não lhe permitia contrabalançar. Rous era um homem da velha guarda, o último romântico da admnistração desportiva. Não só se recusou sempre a ser pago pelo seu trabalho na FIFA como recusou posteriormente uma pensão vitalícia e que o seu nome substituísse o de de Jules Rimet no novo troféu, entregue nesse Mundial à seleção alemã. O seu posicionamento clássico encontrou um rival intransponível na gestão de Havelange, que transformou o desporto gerado pela FIFA num negócio extremamente lucrativo, e proporcionou-lhe uma aura de grandeza que ecoa na posteridade.

Mas Rous foi sempre muito mais do que isso. Não só como administrador mas, sobretudo, como um dos homens mais influentes da história da arbitragem, a sua primeira grande paixão.

O Sistema de Controlo Diagonal

Stanley Rous começou a jogar futebol, como tantos outros filhos da classe mediabritânica, como amador na Universidade. A sua qualidade como guarda-redes levou-o a abraçar o semi-profissionalismo ao serviço do Norwich, durante um breve período. Uma tarde em Carrow Road, num jogo em casa dos canários em que não participou por lesão, Rous viu o jogo das bancadas e ficou fascinado com a figura do árbitro. Como jogador tinha estado em contacto no terreno de jogo com a figura arbitral mas ao ver de outra perspectiva o seu trabalho, decidiu que o seu futuro passava pelo apito mais do que pelas luvas de guarda-redes.

Ao mesmo tempo que exercia como professor de educação física  formou-se como árbitro ao abrigo de um dos primeiros cursos patrocinados pela Football Association e em 1927 começou a exercer de forma regular. Durante uma década afirmou-se como um dos principais árbitros do futebol britânico. Começou nas divisões amadoras e acabou a carreira depois de ter cumprido o sonho de apitar a final da FA Cup, no estádio do Wembley. Durante esse período de tempo assistiu à modificação da lei do fora de jogo e ao ajuste de algumas das últimas leis do jogo que datavam da época amadora do século XIX e mostrou uma enorme facilidade de adaptação. Em 1930 viajou para o Uruguai para participar no Mundial como um dos árbitros elegidos pela FIFA. No torneio assistiu ao trabalho de uma equipa belga, chefiada por John Langenus, e ficou fascinado pela forma como o árbitro se movia no terreno de jogo. Rous calculou que o belga, que acabaria por arbitrar a final do torneio, calculava o seu posicionamento de uma forma diferente à dos seus colegas, realizando movimentos diagonais à bola para ter uma melhor perspectiva das incidências de jogo.

Uma vez regressado a Inglaterra, Rous começou a trabalhar na possibilidade de adaptar-se ele próprio a esse sistema. Com cálculos matemáticos e um estado profundo da movimentação dos jogadores, Rous chegou à conclusão que as diagonais deveriam ser utilizadas de forma regular pelo árbitro principal para poder cobrir no menor número de tempo o maior espaço de terreno de jogo possível e assim estar sempre em cima da bola e dos lances de jogo. Com a visão complementar vertical dos árbitros assistentes, o uso das diagonais poderia reduzir bastante os erros cometidos por um árbitro incapaz de acompanhar a ação de jogo com claridade. Baptizou o sistema como Sistema de Controlo Diagonal e apresentou as suas conclusões à FA e a outros árbitros levantando rapidamente uma polemica que só se desfez quando em 1934, ao apitar a final da Taça de Inglaterra entre o Manchester City e o Portsmouth, provou que o seu modelo era o mais adequado. Pouco depois de se ter retirado oficialmente, Rous tornou-se no responsável pelo seguimento das equipas de arbitragem para a FA dentro do cargo de secretário-geral da organização, de forma a garantir que a sua tese se implementava no terreno de jogo de forma progressiva.

Patrono das evoluções da arbitragem moderna

A II Guerra Mundial interrompeu o trabalho de Rous mas quando o conflito chegou ao seu final, o inglês viajou pela Europa para apresentar o seu modelo de controlo aos restantes árbitros do Velho Continente. De aí passou à FIFA que instaurou os restantes membros de equipas de arbitragem de outras confederações a seguir o seu exemplo. Na década seguinte o seu método de controlo diagonal era utilizado de forma habitual por árbitros dos quatro cantos do planeta futebol.

Como dirigente da Football Association, o antigo árbitro manteve sempre um olho nos seus antigos colegas tornando-se um dos directivos da história mais envolvidos com a evolução da arbitragem. O seu sistema não só deu liberdade aos árbitros principais para se moverem de uma forma organizada sobre o terreno como aumentou a importância dos árbitros auxiliares na tomada de decisões. A partir de esse momento havia sempre dois pares de olhos a seguir a linha da bola e os erros arbitrais diminuíram consideravelmente. Antes do futebol ter entrado na sua maturidade táctica, já os árbitros tinham encontrado o mesmo modelo que ainda hoje se aplica com relativo sucesso.

Rous, conservador na gestão administrativa, considerado demasiado euro-cêntrico por muitos dos seus detratores, também acabou por se revelar fundamental no apoio explicito à introdução de cartões, idealizados pelo britânico Ken Ashton nos anos 60, e na autorização de substituições e da presença de um quarto árbitro. Inovações radicais à época mas que hoje fazem parte, como o sistema diagonal de controlo, do mais elementar trabalhar de uma equipa de arbitragem.

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