Viktor Maslov foi o primeiro técnico a olhar para o futebol através de um prisma puramente cientifico. Mas foi o seu pupilo Valery Lobanovsky que levou até ao extremo o ideário comunista do futebolista totalmente absorvido por uma dinâmica colectiva mecanizada do primeiro ao último minuto. Lobanovsky transformou o seu Dynamo de Kiev num clube que se transformou na propaganda viva da mensagem política da URSS.

Quase todas as semanas, Valery Lobanovsky subia os degraus da escadaria principal da Universidade de Dniepr. Caminhava pelo soturno corredor principal até chegar à porta do professor Anatoly Zelentsov. Seria uma visita pouco habitual para um canalizador transformado em futebolista realizar. Mas não era. Essas horas tornaram-se na base de trabalho de uma das revoluções desportivas mais importantes do século XX.  Enquanto bebiam chá, Lobanovsky e Zelentsov discutiam sobre as possibilidades que o futebol oferecia ao estudo do comportamento humano. As conversas transformaram-se em ideias e da ideia nasceu um projeto. Em 1971, quando o ex-internacional soviético se transformou no novo treinador do poderoso Dynamo Kiev o projeto foi posto em prática. E mudou a face do jogo muito para lá da cortina de ferro.

Preparação revolucionária

Nos dias  da União Soviética era difícil aos habitantes do gigantesco país conseguirem escapar ao centralismo imposto por Moscovo.

No mundo desportivo, a realidade não era de todo distinta e o futebol soviético cresceu sob o domínio dos clubes da capital com alguns êxitos pontuais de clubes de terras distantes da Praça Vermelha (Lituânia, Geórgia, Arménia, Ucrânia). A hegemonia quase asfixiante dos clubes da capital, apoiados pelo exército, policia política e pelos sindicatos, durou até ao final dos anos 60. A razão dava pelo nome de Valery Lobanovsky.

O trabalho desenvolvido pelo técnico com o professor Zalentsov transformou o futebol soviético num exercício cientifico de exactidão e certezas. Entre ambos desenvolveram um conjunto de testes psico-técnicos inspirados nos treinos dos cosmonautas, criaram os primeiros programas computorizados capazes de criar bases de dados de comportamentos e levaram a um nivel profissional o estudo cientifico do organismo do atleta, explorando nos treinos as áreas que os resultados indicavam que cada jogador tinha de melhorar.

Os treinos do Dynamo de Kiev eram diferentes de qualquer clube europeu. Antes de cada época o professor Zelentsov fazia os jogadores passar uma série de testes físicos e psicotécnicos para controlar ao máximo a margem de erro que estes podiam cometer em cada jogo. Lobanovsky defendia que uma equipa que tivesse no final dos 90 minutos uma margem de erro entre os 12 e 15% seria invencível. O problema estava em chegar a esses números, aparentemente sobre-humanos e, principalmente, incapazes de ser contabilizados e estudados pelos meios de então. Os programas de dados que criou juntamente com Zalentsov estudavam as habilidades naturais dos jogadores e as suas reações ao treino físico e psicológico. Os jogadores tinham não só de saber onde se movimentar como também eram forçados a memorizar todos os movimentos dos seus colegas.

Como jogadores de futebol americano, os homens de Kiev sabiam durante os 90 minutos onde estaria cada um dos seus colegas a cada momento com jogadas ensaiadas até à exaustão. Não havia espaço para a improvisação neste projeto.

Não havia espaço para a improvisação neste projeto. Mecanizados, adestrados e fisicamente preparados, os atletas de Lobanovsky tornaram-se máquinas no tapete verde. E passaram a dominar mais do que o futebol soviético.

A hegemonia do Dynamo

Em 1974 Valeri Lobanovsky conquistou o titulo de campeão da URSS, apenas o quarto do clube em quarenta anos de história. Venceria o troféu mais oito vezes até 1989. Pelo meio também ficaram as conquistas na Taça da URSS (seis no mesmo período) e os triunfos na Europa.

Se o modelo parecia claramente funcionar no mercado interno (só uma bela geração do Dynamo Tiblissi e a habitual corrupção interna na federação soviética, que permitiu pontuais vitórias do Dynamo e Spartak de Moscovo, quebraram o reinado dos ucranianos) foi na Europa que Lobanovsky provou a eficácia da sua teoria. Em 1975 o Dynamo de Kiev, liderado pelo veloz e brilhante Oleg Blokhin, o primeiro jogador ucraniano a vencer o Ballon D´Or, destroçou os rivais até somar a sua primeira Taça das Taças. Onze anos depois, em Lyon, repetiu a dose, com um claro 3-0 frente ao Atlético de Madrid. Um veterano Blokhin agora acompanhado pela geração mágica, moldada desde a raiz pelo técnico e liderada por Igor Belanov, consumou o triunfo europeu num ano dominado totalmente pelas equipas do Bloco de Leste. Faltou apenas a Taça dos Campeões, perdida em duas meias-finais, em 1977 e 1987, caindo aos pés de Borussia Monchengladbach e FC Porto, duas equipas onde primava…o virtuosismo individual.

O projeto de Lobanovsky não encontrou eco apenas no seu clube local. Selecionador soviético durante dois períodos distintos, o técnico transformou uma titubeante equipa numa potencia mundial com performances brilhantes em 1986 e 1988, onde se sagrou vice-campeã europeia. Uma equipa composta, quase exclusivamente, por jogadores do seu Dynamo. Com a queda do Muro e a chegada da perestroika também ao futebol, os atletas do velho lobo saltaram a cortina de ferro apenas para falhar totalmente no futebol ocidental. Nem Zavarov (Juventus), nem Mikailichenko (Sampdoria), nem Aleinikov (Rangers) nem mesmo Belanov, Ballon D´Or em 1986, (B. Monchenlagdbach) conseguiram adaptar-se a um futebol onde o individualismo desempenhava um papel importante.

O técnico tardou dez anos para recriar um esboço do seu projeto original. Mas os Shevchenko e companhia já eram, de certa forma, filhos de um outro modelo de futebol e a sua rápida debandada depois da campanha de 1999 na Champions League colocou um ponto final às experiências de Lobanovsky, um homem que conseguiu, como muito poucos, encontrar a fórmula perfeita para aproximar o mundo da ciência e o universo do futebol.

2.011 / Por